quinta-feira, 4 de junho de 2026

Dedo em riste

“Cette image, intitulée Une bonne famille, avait fait les délices des bourgeois, mais l'affliction des patriotes. Pellerin, d'un ton vexé comme s'il en était l'auteur, répondit que toutes les opinions se valaient; Sénécal protesta. L'art devait exclusivement viser à la moralisation des masses! Il ne fallait reproduire que des sujets poussant aux actions vertueuses; les autres étaient nuisibles.
— Mais ça dépend de l'exécution! cria Pellerin. Je peux faire des chefs-d'œuvre!
— Tant pis pour vous, alors! on n'a pas le droit...
— Comment?
— Non! monsieur, vous n'avez pas le droit de m'in-téresser à des choses que je réprouve! Qu'avons-nous besoin de laborieuses bagatelles, dont il est impossible de tirer aucun profit, de ces Vénus, par exemple, avec tous vos paysages? Je ne vois pas là d'enseignement pour le peuple! Montrez-nous ses misères, plutôt! enthousias-mez-nous pour ses sacrifices! Eh!”


Stendhal, L'éducation Sentimentale


A contemporaneidade é antiga, parte 782. É verdade que nos últimos dez anos o histrionismo ideológico em torno da arte atingiu níveis bem parvinhos, mas não têm nada de novo, estas palermices sobre a arte, de dedo em riste e devoção beata à “verdade sociológica”. 

Marjane Satrapi (1969-2026)

Morreu Marjane Satrapi. Já seria triste, mas as circunstâncias da sua morte ainda o tornam mais. Seja como for não imagino maneira melhor de a celebrar que ver e rever Persepolis, testemunho de resistência e liberdade. 


terça-feira, 2 de junho de 2026

Les Vacances de M. Hulot




Ou só mais um dia normal em qualquer estação da CP perto de si.

Sr. Hulot & Doinel

Raramente volto ao Sr. Hulot sem voltar também a esta homenagem de Truffaut em Domicile Conjugal. O filme é simpático mas eu gosto mesmo é esta cena, da maneira como Doinel se deixa contagiar pela energia nervosa de Hulot, do humor físico tão delicioso de Léaud. Tudo em menos de 30 segundos.


Noite de Sr. Hulot

domingo, 31 de maio de 2026

Andaluzia, Beira-Baixa

Manhãs de Verão em Espanha são para ler Federico Garcia Lorca. Descobri-o na biblioteca de um tio, feita dos livros que já não lhe cabiam em casa, na casa da minha avó, e na minha cabeça a Andaluzia confunde-se com a Beira-Baixa no Verão, com a terra muito seca, as oliveiras e o sol sem misericórdia que imagino parecidos. Lia-o depois de almoço quando todos dormiam a sesta, nos cantos mais frescos da casa em silêncio, ou cá fora sob a tília na companhia das cigarras, se o calor e a luz o permitissem. Aqui, tão longe da Andaluzia como da Beira-Baixa, às vezes pelas horas do calor e com a casa na penumbra, cheira à aldeia dos meus avós no Verão, a terra seca, a azeitonas que amadurecem nas oliveiras. E quase podia imaginar um 𝘨𝘪𝘵𝘢𝘯𝘰 lá ao longe a cantar.


Candura

“Il se croyait fort honnête, et, dans son besoin d'expansion, racontait naïvement ses indélicatesses.”

Stendhal, L'éducation Sentimentale

Podia ser um português exemplar, portanto, com aquela candura do histrionismo. Não muito longe, naturalmente, do que Agustina diz aqui sobre o erotismo e a brejeirice. 

terça-feira, 26 de maio de 2026

Os usos bárbaros da ironia

“for a time, Herbert considered Miłosz the best living Polish poet, and the barbaric uses of irony are already examined in such poems as Miłosz's 'Child of Europe', written in New York in 1946. In his poems of the wars year and the aftermath, Miłosz demonstrated how to meet the bitter grief and despair of postwar Europe with unflinching intel-lectual rigour and a passionate eye, a hunger for reality as it is present in physical objects and concrete traces of human history.”

Nesta nota introdutória de Alissa Valles à colectânea de poesia de Zbigniew Herbert, encontro esta descrição bastante justa da poesia do Czesław Miłosz. E continuo a pensar no que serão os “usos bárbaros da ironia”.

segunda-feira, 25 de maio de 2026

Peter Hujar's Day, Ira Sachs


Um filme discreto e sereno, um gosto acompanhar esta conversa. E sim, o Ben Whishaw, claro que sim, mas o que eu gosto da Rebecca Hall, tão discreta, serena e convincente como este filme.

quinta-feira, 21 de maio de 2026

Clarões

Estou a ter alguma dificuldade com este The Moravian Night de Handke, custa-me entrar na sua linguagem que me parece cheia de tropeções, e não percebo se é dele ou da tradução ou de mim. Mas depois tem estas irrupções luminosas:

“Reading and a Germany [o lugar onde está nesse momento da narrativa, e conseguiu voltar a ler] in which objects said to be inanimate filled one with amazement, as if they had been resurrected after a century in an antechamber to hell devoid of form and color. Objects, meaning (...) not the omnipresent crutches, wheelchairs, ambulances, and burial racks but rather the things that blossomed in the interstices still open and probably also opened up as a result of the reading, objects that blossomed without actually blossoming, billowing, arching, asserting themselves, surviving, which included the interstices as well.”

Também ajudam as correspondências pessoais, claro. A ideia dos interstícios e das fendas é-me muito próxima. Chegou pela fotografia, cresceu com as leituras e transumâncias e ganhou contornos muitos específicos. Handke tem outra passagem sobre isto na parte inicial do livro, quando a personagem principal fica presa na beleza de um lugar esquecido:

“the debris-strewn space suddenly appeared not as empty as it had seemed at first. The huge block of stone in the farthest corner of the former farm was in reality the last intact structure of those that had once rimmed the courtyard — the sheds, the stables, the barns, the wine cellar. It was the hut where at one time the local brandy had been distilled. The stone block formed a dome that rose out of the debris, leaving an opening into a hollow space with just room enough for a still and-how could there not be one here in your Balkans — a bench, short and narrow, but nonetheless. (...) He felt carried away, knew he was carried away at the sight of that bench in the former brandy-distilling cave, shimmering in the early morning light. Carried away? Did such raptures still happen nowadays?
Being carried away was certainly not the same as losing touch with reality. To be carried away in this fashion did not mean being torn away from the world, or, as far as I am concerned, from the present. How real everything (everything?) appeared in this rapture, not only the bench, not only the structure. That was it. That is it. That will have been it. This form of being carried away whisked things into their proper place”


Eu sei exactamente ao que ele se refere, porque é a casa do forno, a das ferramentas, a casa das batatas, a adega: os anexos utilitários e desarrumados da casa dos meus avós e das casas de qualquer aldeia de agricultura de subsistência, que de tão usadas e invisíveis guardam no seu interior um tempo diferente, e muitas vezes uma luz também. E poucas vezes vi o que torna estes lugares especiais tão bem descrito como aqui. Estas correspondências chegam para continuar uma leitura surpreendentemente morosa? Veremos.


Maravilhamento & livros

“Amazement and reading”, diz Handke. Parece-me um bom programa.

quarta-feira, 20 de maio de 2026

At the gates

No primeiro livro que leio de um novo poeta, depois de ler ao acaso alguns poemas que me chamem a atenção, procuro sempre o poema que me fez pensar pela primeira vez “eu acho que gosto mesmo disto”, e comprar o livro. É a porta de entrada. Depois sim, o início.


segunda-feira, 18 de maio de 2026

O mosteiro

Deixei para último o segundo Fermor que li, Tempo de Silêncio, porque foi até agora o que menos me entusiasmou. É um livro simpático, mas talvez por se tratar de um universo que não vejo com exotismo, não foi uma experiência muito memorável. Voltei a lê-lo esta tarde (é muito pequeno, despacha-se num instante) e a impressão manteve-se.
O próprio autor parece ter alguma noção disso, porque na introdução a uma reedição, umas décadas depois da edição original, Fermor admite que talvez tenha escrito o livro no tom errado, e que à data presente talvez o tivesse escrito de outra forma, ou não o tivesse escrito. Não há nada terrivelmente errado no livro, mas há de facto uma incapacidade em se adentrar pelas razões e pelo coração da opção monástica. Curiosamente a introdução, escrita por Karen Armstrong, acaba por oferecer mais luz sobre essas razões e coração, e quase diria que vale a pena ler Tempo de Silêncio, se o tema interessar, para a ler.
O lugar onde essa falha de Fermor fica mais explícita é nesta passagem:

“Um confronto entre campeões de cada lado poderia esclarecer este enigma psicológico. Um grande mandarim da psicanálise devia enfrentar um cardeal perito em teologia, dialéctica e misticismo, que tivesse ingressado no sacro colégio depois de cinquenta anos num mosteiro cisterciense. Infelizmente, as referências dos antagonistas seriam tão diferentes e irreconciliáveis, tão incapazes de comunicação, que o desafio correria o risco de se transformar numa dupla exibição de golpes de boxe no vazio: o psicanalista desferindo golpes assassinos com a repressão da libido e do Id, enquanto o cardeal respondia com a acção de graças e o Paracleto, e reforçava a vantagem recorrendo a Pseudo-Dionísio, o Areopagita”
 
E a quem não perceba porque é que a ideia de os monges escolherem um teólogo para explicar e defender a sua opção é completamente disparatada, não sei que dizer. Talvez que façam como eu fiquei com vontade de fazer, e vão procurar antes mais livros de Armstrong. Desconfio que Tongues of Fire: An Anthology of Religious and Poetic Experience, que ela editou, é capaz de ser um bom começo.

domingo, 17 de maio de 2026

Patrick Leigh Fermor

Dos livros que já li deste escritor, o meu favorito é Tempo de Dádivas. Não falta literatura sobre o tempo imediatamente antes da Segunda Guerra Mundial, que se debruça sobre as causas e prenúncios do que se seguiu. Fermor segue um caminho diferente, e dedica-se a observar o mundo que então desaparecia, a nobreza culta e empobrecida, com uma escrita cuidada com alguma coisa de elegia, e em que é um gosto demorar-se. 
Não consigo desligar a memória dessa leitura de uma outra que lhe foi muito próxima: O Mundo: Modo de Usar, de Nicolas Bouvier. Enquanto o tom de Fermor é culto, melancólico e elegíaco, o livro de Bouvier é um daqueles relatos de aventuras que desfaz a pretensão de que turistas são os outros, que cá nós somos é Viajantes. Lê-se o relato de alguém que tem de empurrar um carro avariado estrada acima no meio de um deserto com 40 ºC à sombra, depois de semanas de dificuldades, de tal modo que quando finalmente chega ao topo cai a chorar, e temos de admitir que somos uns meninos, e que dificilmente quereríamos ser outra coisa. O tom em que fala das personagens que encontra pelo caminho também é muito diferente de Fermor, sempre com um humor delicioso, mesmo quando fala de personagens amarguradas. Os dois livros dão uma leitura paralela muito boa, e se quisesse voltar a ler um deles, provavelmente voltava a lê-los ao mesmo tempo. 
 
No ano passado li o meu terceiro Fermor, Roumeli, sobre a Grécia. É um belo livro: pastores transumantes, monges guerreiros, Meteora; Fermor fala sobre esta Grécia com um amor evidente e com um grande dom de contador de histórias, que consegue aproximar tudo do mito e do símbolo. É uma continuação de outro livro sobre a Grécia, Mani, que também quero ler. 

quinta-feira, 14 de maio de 2026

VGM

VGM cerebral e barroco, irritante e genial. É sempre difícil falar dele porque depois tenho de lutar contra a tentação de cair para dentro da sua poesia e não ler mais nada; ficar nas cadências e iterações, humor, referências, e naquela celebração que o é mesmo pelo meio da melancolia e da lucidez desapegada (e o desapego nunca é total, o interesse pelo mundo ganha sempre). 
O primeiro livro que comprei de Vasco Graça Moura foi um volume desirmanado da sua poesia completa, há muitos anos, quase dado, naquela “feira do livro” da Gare do Oriente. Não fazia ideia ao que ia. Mais tarde comprei a poesia completa na edição de dois volumes, também da Quetzal, mas foi este primeiro livro que mudou a minha relação com a poesia quando já tinha desistido de insistir, por causa de alguma poesia portuguesa pela qual não me conseguia interessar. 
Morte de Paolo e Francesca na livraria do Louvre, Nocturno de Malmö, o soneto das horas de ponta, o poema da cómoda D. José — já estava tudo ali. Acima de tudo Uma Carta no Inverno, sempre a carta no inverno: a epígrafe que me apresentou Yeats, a abertura assombrosa (“sob as bátegas de chuva lembremos a queda de Constantinopla”) de que me lembro muitas vezes e que é um consolo e um lembrete de alguma coisa muito antiga e importante. E o embalo do ritmo, da atenção que é necessária para navegar o poema, e daquela conversa em voz baixa ao crepúsculo, em frente à lareira, enquanto lá fora chove e Constantinopla cai uma e outra vez.

Revelação & linguagem

“The far greater danger, the real one, was that in such fugue states the world showed itself to him on the one hand as it never did otherwise, even approximately as whole, as a whole but on the other hand nothing more could be said to it, about it. This whole world, even when it droned, roared, and howled, as it did out there by the roundabouts, remained silent and could be greeted only with a great silence. "It" revealed itself then, silently, and that was that. It not only called for no words; words were no longer appropriate, not a single one, not even an exclamation, an Oh!”

Peter Handke, The Moravian Night


Talvez o encontro entre o impulso da escrita e este tipo de experiência que lhe resiste assim tanto seja uma definição possível de alguma poesia — sem exclusividade. Associo a ideia aos movimentos ligados à concentração formal e ao tratamento diáfano dos seus temas: os poemas curtos de Ungaretti, por exemplo. Não sei se é útil para poemas como os de Vasco Graça Moura, longos e muito ancorados na concretude. Quais prefiro? Os dois. Fascina-me tanto a depuração poética como os poemas muitos longos que vivem de grandes construções, cadências, ecos, iterações. A poesia de tamanho médio acaba por ser o meu ponto cego, onde mais facilmente me desinteresso e o risco de banalidade me parece maior.

quarta-feira, 13 de maio de 2026

Ars



Handke, Llansol & Tranströmer. A arte de recolher os tempos e de caminhar nas suas dobras.
“[he] wanted to prevent anyone from forming an image of him, from putting any image of him in circulation ever again.” 

Peter Handke, The Moravian Night

segunda-feira, 11 de maio de 2026

Rohmer

O Joelho, a Coleccionadora, essas coisas todas, mas eu gosto mesmo é do Ma Nuit Chez Maude.

Aquele

Sigo uma conta que se dedica a publicar imagens de filmes, das quais a maioria é de Rohmer. Quase caio de espanto quando publica uma imagem do Conto de Inverno. É o Rohmer de que ninguém fala, porque em vez de ser sobre jovens ricos e cultos, que fazem quem fala dos filmes sentir-me jovem, rico e culto, é sobre uma mãe solteira que vive com a mãe e namora com um cabeleireiro. Eu gosto de Rohmer, mas acho sempre piada às escolhas tácticas.


Um interior do Conto de Inverno vs. um interior do Conto de Primavera.

domingo, 10 de maio de 2026

La Grazia, Paolo Sorrentino


Já tinha acontecido com La Grande Belezza e voltou a acontecer com La Grazia: desconfio que me vou aborrecer com o exagero e a caricatura, e acabo rendida. Gostei muito.

Portas da Cidade

Na cidade
biblioteca concreta da
memória, da razão, do negócio
da explicação dos milagres
entra pelos museus
concretização de uma vontade
de listas, catálogos, ordenações
onde se constrói uma navegação
possível e nunca sensata do caos
e a beleza concede
argumentos e consolo
irónica e perplexa com
tanta solenidade.
Na cidade, domínio do monumento
em que o corpo se sustenta
nos desenhos da calçada
e nos reflexos das montras
em suspensão
de óperas e escapes
de horas de ponta
entra pelas catedrais
onde se transfigura
a loucura culta da interpretação
no ritmo iluminado e repetido
das abóbodas e do canto
e o sagrado
encontra a linguagem
da pedra e do pigmento
que repercute
os seus breves clarões.

sábado, 9 de maio de 2026

Presciência acidental parte 948

“E manhã após manhã, por toda a imensa cidade húmida e triste e nas colónias de barracas de caixotes nos terrenos dos subúrbios, jovens estavam a acordar para mais um dia vazio sem trabalho a ser passado como melhor pudessem imaginar: a vender atacadores de botas, a mendigar, a jogar dados no átrio do Centro de Emprego, dando voltas pelos urinóis, abrindo portas de carros, ajudando a carregar caixotes nos mercados, na má-língua, a mandriar, a roubar, à escuta de dicas sobre apostas das corridas, a partilhar pedaços de pontas de cigarro apanhadas na sarjeta, a cantar canções folclóricas, a troco de umas moedas, em pátios e nas carruagens de metro, entre estações. Depois do Ano Novo nevou, mas a neve não se manteve no chão, por isso não podiam ganhar dinheiro a varrê-la. Os lojistas batiam com as moedas no balcão com receio dos falsificadores. O astrólogo de Fräulein Schroeder previu o fim do mundo.”

Christopher Isherwood,
Mr Norris Muda de Comboio


“O astrólogo da senhoria previu o fim do mundo” parece mesmo uma frase de quem escreve do lado de cá e sabe o que foi a Segunda Guerra, usada para pôr na boca do narrador uma premonição acidental. O livro de Isherwood é de 1935. Talvez tenha havido uma premonição acidental, sim.

Presciência acidental parte 947, ou as rimas da história, etc.

“Foi descoberto o Documento Hessen, mas ninguém se importou verdadeiramente. Havia escândalos a mais. O público exausto tinha sido alimentado com surpresas a ponto de apanhar uma indigestão.”

Christopher Isherwood, Mr Norris Muda de Comboio

sexta-feira, 8 de maio de 2026

Leituras



Releio Mr. Norris Muda de Comboio, de Christopher Isherwood, que tinha lido há tantos anos que já não me lembrava de nada. É daquelas leituras que mistura em quantidades justas ser interessante e bem escrito, e ser leve e muito fácil de ler — um livro bom para alturas de preguiça mental, mas em que não se quer pôr em risco o hábito da leitura. 
(Já se sabe é que ler em edições portuguesas é sempre um risco, em termos de qualidade de edição e tradução, e aqui não foi excepção, apesar de geralmente ter bastante boa impressão da Quetzal. Quando cheguei a “[ela era] dura como unhas”, já nem me indignei, era tão óbvia desde a primeira página a tradução literal do inglês, palavra por palavra. Pelo menos não é uma (má) tradução de uma tradução, como acontece tantas vezes em Portugal com línguas menos comuns, sem que a edição tenha a probidade de o indicar. Em pelos menos dois livros da Dubravka Ugrešić, publicados pela Cavalo de Ferro, é muito óbvio que a tradução portuguesa é feita sobre a tradução inglesa. Enfim.)

quinta-feira, 7 de maio de 2026

La Chimera, Alice Rohrwacher



Dizer que um filme é felliniano devia ser sinal inequívoco de um pastiche insuportável, ou de falta de imaginação de quem descreve. Não descarto a minha falta de imaginação, e no entanto: que belo filme.

sábado, 18 de abril de 2026

Silly like us

You were silly like us; your gift survived it all:
The parish of rich women, physical decay,
Yourself. Mad Ireland hurt you into poetry.

W. H. Auden, excerto de “In Memory of W. B. Yeats”


A melhor descrição de um dos meus poetas favoritos por outro do meus poetas favoritos. Gosto muito que este poema refira a patetice de Yeats, porque gosto de poetas frágeis, com algum tipo de “falha fatal” que o talento ou o génio não conseguem disfarçar, embora não sejam distorcidos ou diminuídos por ela. Não sei porquê, especialmente porque dificilmente perdoaria a mesma fragilidade num autor de prosa.Talvez (também) por reacção a uma poesia portuguesa contemporânea de pose muito desarrumada mas que na verdade não tem um cabelo fora do lugar e tem — evidentemente — tudo o é importante lido e visto e ouvido desde os dezasseis anos, e se esquece que uma pose de sofisticação descuidada é fraco substituto quer para a perfeição formal quer para o rasgo, que têm o brilho de um clarão. Em comparação com essa pose os poemas trapalhões, um pouco adolescentes, inadvertidamente cândidos, nunca me parecem assim tão maus.
Viés também, naturalmente, de uma admiradora da perfeição formal e da contenção poética perfeitamente ciente de que só poemas adolescentes estariam ao seu alcance. Quantas opiniões literárias não passam de auto-justificações.

domingo, 12 de abril de 2026

Year Zero

O Year Zero não é só um dos grandes álbuns de NIN. É a enésima prova de algo que já referi aqui: a presciência num artista não acontece quando tenta prever o futuro, mas quando se interessa profundamente pelo seu tempo. Reznor pensava mesmo que estava a fazer um álbum sobre George W. Bush.

sexta-feira, 10 de abril de 2026

Via Ferrata

Fiz a minha primeira via ferrata completa, ainda doente e com poucas horas de sono, e tendo em conta que nunca mais tinha feito escalada desde a pandemia, estou bem contentinha por ainda ter os dentes todos e o nariz intacto. E os braços nem me traíram no extra-prumo. Venha mais escalada, de preferência com os amigos de sempre em cantos (na verdade nada) secretos da Arrábida, em noites que só acabam com o nascer-do-sol.

quinta-feira, 9 de abril de 2026

Noite dentro

A parte boa de fazer viagens muito longas de noite é a oportunidade para ouvir álbuns feitos para viagens muito longas de noite. Tom Waits, Morphine, Twinemen, o segundo de Dead Combo, Portishead, Massive Attack, The Fragile dos NIN, etc. Enquanto houver estrada há banda sonora.

quarta-feira, 8 de abril de 2026

Papoilas

As primeiras tinham de ser ali, vistas do comboio, naquele prado de erva muito verde e alta, com um minúsculo bosque de pinheiros mansos no meio e ladeado de pomares e laranjais.

domingo, 5 de abril de 2026

Noites boas



Amigos que são quase família. Ainda não foi o regresso às aventuras nocturnas pela Arrábida, mas não me estou a queixar desta noite de conversa num café-livraria. Tinha tantas saudades das minhas pessoas, das nossas coisas.

sexta-feira, 3 de abril de 2026

quarta-feira, 1 de abril de 2026

Somewhere a strange and shrewd To-morrow goes to bed, 
Planning a test for men from Europe; no one guesses 
Who will be most ashamed, who richer, and who dead. 

W. H. Auden, excerto de “The Ship” (Janeiro 1938)


Ler os poemas de Auden escritos por volta destes anos é uma perturbação e um consolo.

sábado, 28 de março de 2026

Ao molho



Ler sobre Veneza numa “taberna viking” que serve comida “alemã” num pueblo espanhol.

Primavera



Sábado, céu azul, nuvens altas e um vento largo a varrer tudo, depois de tantos, tantos meses de Inverno pesado e sem luz. Leituras lentas com significados que ecoam. O tempo pela Páscoa é especial.

sexta-feira, 27 de março de 2026

Leituras



Versões físicas do Auden e da História de Veneza do Norwich que leio há meses. Um Sebald que ainda não li. Desta fornada ainda falta a colectânea do Zbigniew Herbert.

quinta-feira, 26 de março de 2026



Toki Alai, a casa de Llansol em Colares entre 1985 e 1994 & Solaris, Andrei Tarkovsky.

terça-feira, 24 de março de 2026

Evangelhos de uma monja apócrifa

Cartografia

“Entre Lisboa, Mucifal, o descontínuo da Bélgica, faço o possível por não engolir a minha cartografia.” E para não me deixar devorar por ela. Também eu, Llansol, também eu.

Llansol, a minha Isabôl

De regresso ao maravilhamento e à frustração. Foi com ela que aprendi uma das minhas expressões favoritas para o meu instinto mais antigo: a manutenção do fulgor no quotidiano. A independência e hermetismo do universo de Llansol são o seu maior triunfo (como se diria em inglês: “she's entirely her own person”), mas também o maior obstáculo, e a leitura torna-se pesada e sem rumo com facilidade. Poucos universos e linguagens me são tão próximos (talvez ainda mais que os de Borges e Woolf), mas já aprendi que um livro de Llansol se lê em duas vezes,de preferência com meio ano entre cada metade da leitura. Até porque me bastam duas páginas do seu Livro de Horas para começar a falar em Llansolês, e depois é esquisito para toda a gente.


domingo, 15 de março de 2026

Antecipação & Domingos

Não é só o facto de não estar sentada, neste domingo solarengo, no meu canto do costume na esplanada daquele salão de chá escondido num vale da serra, com um dos gatos do lugar a ronronar-me no colo, entre livros, cadernos, os jornais do fim-de-semana e um café com natas. É que o salão fechou, o que complica esta mistura de nostalgia e antecipação do regresso a um lugar querido, que geralmente era um bom embalo para tardes de domingo assim.

terça-feira, 10 de março de 2026

Tudo, nesta passagem

“The "canon" contains seven poems about Julian the Apostate quite a few considering the brevity (three years) of Julian's reign as emperor. There must be some reason for Cavafy's interest in Julian, and Keeley's interpretation does not seem adequate. Julian was brought up as a Christian, but when he took the throne he tried to re-establish paganism as the state religion. Although the very idea of a state religion suggests Julian's Christian streak, he went about the matter in a quite different fashion: he did not persecute the Christians, nor did he try to convert them. He merely deprived Christianity of state support and sent his sages to dispute publicly with Christian priests.
In these verbal sparring matches, the priests were often losers, partly because of dogmatic contradictions in the teachings of that time and partly because the priests were usually less prepared for a debate than their opponents, since they simply assumed their Christian dogma to be superior. At any rate, Julian was tolerant of what he called "Galileanism," whose Trinity he regarded as a backward blend of Greek polytheism and Judaic monotheism. The only thing Julian did which could be viewed as persecution was to demand the return of certain pagan temples seized by Christians during the rule of Julian's predecessors and to forbid Christian proselytizing in the schools. "Those who vilify the gods should not be allowed to teach youths and interpret the works of Homer, Hesiod, Demosthenes, Thucydides and Herodotus, who worshipped those gods. Let them, in their own Galilean churches, interpret Matthew and Luke."
Not yet having their own literature and, on the whole, not having much with which to counter Julian's arguments, the Christians attacked him for the very tolerance with which he treated them, calling him Herod, a carnivorous scarecrow, an arch-liar who, with devilish cunning, does not persecute openly and so deceives the simpleminded. What-ever it was that Julian was really after, Cavafy evidently was interested in the way this Roman emperor handled the problem. Cavafy, it seems, saw Julian as a man who tried to preserve the two metaphysical possibilities, not by making a choice, but by creating links between them that would make the best of both. This is surely a rational attitude for one to take on spiritual issues, but Julian was after all a politician. His attempt was a heroic one, considering both the scope of the problem and its possible outcomes.”

Joseph Brodsky, Less Than One

Concentração poética

“Every poet loses in translation, and Cavafy is not an exception. What is exceptional is that he also gains. He gains not only because he is a fairly didactic poet, but also because, starting as early as 1900-1910, he began to strip his poems of all poetic paraphernalia-rich imagery, similes, metric flamboyance, and, as already mentioned, rhymes. This is the economy of maturity”

Joseph Brodsky, Less Than One


“This is the economy of maturity”. Tenho pelo menos um poeta favorito que é o contrário de tudo isto, e no entanto a ideia da concentração e despojamento poéticos fascinam-me sempre.

Half self-portrait, half mask

“Half self-portrait, half mask” diz Brodsky, falando de Anna Akhmatova. Mas há algum auto-retrato que não o seja? Já lá dizia o Yeats, etc., mas isto parece-me mais básico, anterior às teorias de um poeta muito bom e muito pateta.

sexta-feira, 6 de março de 2026

Transumância do espírito

“Memory, I think, is a substitute for the tail that we lost for good in the happy process of evolution. It directs our movements, including migration.”

Joseph Brodsky, Less Than One


Gostei muito desta ligação entre memória e migrações. Se pudesse fazia vida de transumância do espírito, a pastorear memórias colectivas, arquitecturas, lugares interiores, livros, músicas, por essa Europa fora. (Não me perguntem exactamente o que quero dizer com isto, quando souber aviso.)

Sabiam

“If somebody sold himself out, it wasn’t for the sake of goods or comfort: there were none. He was selling out because of inner want and he knew that himself.”

Joseph Brodsky, Less Than One


Este “and he knew that himself” é que me parece extraordinário.

domingo, 1 de março de 2026

Thou

Tenho uma versão inglesa das Confissões (tradução de F. J. Sheede) e decidi dar uma vista de olhos. Má ideia fazê-lo depois de ter visto os Monty Python & The Holy Grail, porque ao primeiro “art thou” o Santo Agostinho começou a falar neste tom.


sexta-feira, 27 de fevereiro de 2026

“Por que me terei feito representar no meio dos homens, à luz do dia? Parece-me que não tinha nada com isso. Adiante.” Eu faço a mesma pergunta muitas vezes, Beckett.

Releituras paralelas


Vão ser umas semanas interessantes.

terça-feira, 24 de fevereiro de 2026

Slava Ukraini



Fotografia de Louisa Gouliamaki, Revolução da Dignidade, 20 de Fevereiro de 2014. Mais um ano em que volto a esta imagem como a uma esperança. Slava Ukraini.

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2026

Bruegel, O Combate entre o Carnaval e a Quaresma



Ver o "Caçadores na Neve" foi uma emoção maior, porque como acontece com tanta gente, é dos meus quadros favoritos. Mas este quadro é contagiante. Não interessa se o humor e alegria são intencionais ou não; estão lá, e são uma maravilha.

terça-feira, 10 de fevereiro de 2026

Agustina

É provavelmente uma ideia abusiva, até porque estou a inventar auto-biografia onde não tenho razão para a supor, mas pergunto-me se o percurso de Amélia, no final de O Sermão do Fogo, tem alguma coisa que ver com a própria Agustina. É descrito o caminho interior de quem percebe que a facilidade em espreitar o coração dos outros, as motivações e medos escondidos, não é afinal nenhuma via-rápida para a sabedoria, mas pode bem ser uma via-rápida para mesquinhez. E que é preciso aprender a sair do outro lado dessa armadilha: o lado da graça (concedida e aceite), a escolha de um humanismo que prescinde da superioridade moral e do “direito” à mesquinhez e sobranceria que essa capacidade de visão justificaria. Não sei se é a história de uma vocação do olhar até chegar à escrita mas, talvez com algum romantismo, imagino que poderia ser. 

Presciência


“Limitava-se agora a escolher uma clientela rara, de psicopatas e melancólicos, gente minada pelo vício da informação e que fazia até do sofrimento o pânico da ociosidade; gente que parecia de repente espantada da realidade dos seus gestos e mesteres e que vivia a inventar mudanças, no amor, na alegria ou na cultura. Nunca a pequena sala da Brouillard, com os seus lambris de madeira escura e o papel verde-cinza, fora tão frequentada. Mulheres e homens de aparência fria e elegante vinham ali falar-lhe seriamente, não deles próprios, porém dum caso insolúvel e penoso do qual se diziam juízes. E o que era ao mesmo tempo macabro e irrisório era que esse caso não existia naqueles moldes apaixonados, mas era, no entanto, profundamente apetecido no seu hermetismo por aqueles que o narravam e se julgavam seus protagonistas. Eram amores temíveis e obscuros, perseguições quase masoquistas, tremendas alucinações da vontade fraca, impotente, marcada; um homem novo, que desistira da vida monástica, infligia agora nos outros uma espécie de evangelização secular, pois temia ter frustrado a sua carreira, na qual a sensualidade de converter, de guiar alguém, era o que o chamava. Esse desejo indiscriminado de ter adeptos, amigos vencidos, amantes submetidos, exterminava a alma do europeu, que, subitamente, se via no meio duma disponibilidade técnica e moral da qual não sabia o que fazer. A Brouillard estudava esses sintomas e achava uma diferença capital entre tais consulentes e os antigos, que eram gente o mais das vezes empenhada em factos e que acreditava no pecado. Isto dava-lhes uma consciência do mal que era quase sempre factor primordial da sua inteligência. Mas não se podia dizer que esses visitantes de sólida aparência, com algo de estatuário no movimento, eram os mesmos. Eram tão vulneráveis que não resistiam ao mais leve esforço para decidir até entre dois espectáculos, duas mulheres, duas listas; tudo lhes parecia igualmente compensador e indiferente, e, uma vez senhores duma consciência fictícia, artificial consciência que a Brouillard lograva insuflar-lhes por choques sucessivos de privação ou admissão dos sentimentos —, tornavam-se criaturas incorrigíveis e só com um único objectivo: não perder o excitante, o espelho da sua realidade.”

Agustina Bessa-Luís, O Sermão do Fogo


Já em 1962 Agustina fala dos viciados da trepidação. Como sempre um bom escritor não se torna presciente por tentar prever o futuro mas por se interessar profundamente pelo seu tempo.

quinta-feira, 29 de janeiro de 2026

Caminhos



Criar um diagrama destes para falar das parábolas de Kafka não é distrair-se e enganar-se no caminho, é escolher um atalho que é óbvio que não vai dar a lado nenhum, que não pode ir dar a lado nenhum, e depois insistir. (A primeira pessoa a dizer “mas por isso mesmo é tão kafkiano, não é?” leva com um ovo podre.)

quarta-feira, 28 de janeiro de 2026

Solidão

Leio alguns comentários à frase, atribuída a Chekhov, que diz “se tens medo da solidão, não cases.” As pessoas indignadas porque vêem nisto um ataque ao casamento e as pessoas felizes porque vêem nisto um ataque ao casamento acham que são inimigas figadais. São engraçadas, as pessoas.

sexta-feira, 23 de janeiro de 2026

Patriotismo

 “The would-be assassins, who had been unwise enough to confide their business to a couple of patriotic prostitutes of the Merceria, were immediately arrested”


Para além da companhia aos serões, do conhecimento que chega com o ritmo de uma história contada em frente à lareira por um tio de quem se gosta muito, outra das delícias da História de Veneza do Norwich é seu humor subtil, largado nos momentos certos. Vou sentir falta disto quando acabar.

terça-feira, 20 de janeiro de 2026

Rembrandt van Rijn, An Old Woman Reading (1655)

Escrita evocativa

“Ainda não conhecia videntes, nem o vitreator de Santa Maria, nem ouvira interromper-se, tão súbita quanto suavemente, a nota aguda da torre de vigia, em memória daquele que, atingido pelas setas dos tártaros, não pôde continuar a avisar do que se ia seguir”

João Bénard da Costa, Crónicas: Imagens Proféticas e Outras, vol. III 

Em Bénard da Costa costumo ligar mais ao conteúdo que à linguagem, porque me parece que ele gosta demasiado de se ver escrevendo — mas que frase. Podia ser o começo de um conto de Borges, cheio de antiguidades e de intuições fantásticas.

Sismógrafos

“No mesmo ano, em França, Max Ophuls filmou outro balouço eterno. Coincidências a mais? Ou filmes e realizadores que são como sismógrafos?”

João Bénard da Costa, Crónicas: Imagens Proféticas e Outras, vol III

Que saudades de escritores, realizadores, artistas que sejam sismógrafos e não padres em homilia ou imbecis inchados.

“Nas palavras do poeta Mario Luzi, aquilo que só no Ocidente definimos como místico, transfigura-se na suprema representação do vasto território comum à iluminação poética e à religiosa.
Ousadamente, Tolentino Mendonça escolheu este livro sobre contos de fadas e tapetes voadores; sobre Masaccio e sobre Carpaccio; sobre William Carlos Williams e sobre John Donne; sobre Borges e sobre Tchekov; sobre Gottfried Benn e sobre Ezra Pound; e rigorosa-mente sobre «o sabor máximo de cada palavra»; para encabeçar uma colecção de escritos teológicos. Saberá compreendê-lo aquele que souber o que é a experiência poética e o que é a experiência religiosa.”


João Bénard da Costa, Crónicas: Imagens Proféticas e Outras, vol III (acerca da publicação de Cristina Campo em Portugal)

“Schiva, umbratile e solitaria”, diz João Bénard da Costa.

Pérsia

Ainda não é desta, pois não, meu pobre Irão, valente, nobre e abandonado? Guardo esta imagem, como guardo outra semelhante da Ucrânia. E espero, como esperamos todos, sabendo o que esperamos, mas não como lá chegar.


quarta-feira, 14 de janeiro de 2026

Journal d'un curé de campagne


Não é preciso ter fé para saber o que é uma crise de fé, que é tantas vezes uma crise da alegria, uma incapacidade para a alegria, e uma falência da fé no mundo. Ou nas pessoas, e na possibilidade da compaixão.

Gostava de falar de Seraphita, que merecia um filme só seu, e ainda bem que ninguém o fez, que catástrofe seria abrir assim essa vida interior que Bresson conta com perfeição sem mancha em três golpes. E penso muito no alcoolismo herdado do jovem padre e no que isso diz da pobreza sórdida, do que ela tem de herança difícil de sacudir dos ossos como do coração. Mas também no que pode ter de desculpa para falências pessoais, a que nos agarramos com o alívio de uma razão para a desistência.

O Nostalghia do Tarkovsky também é trespassado de tragédia (a de se precisar de um lugar que nos aniquilaria se cedessemos à tentação de regressar; a de Domenico), mas aí ainda há uma luta pela manutenção de alguma coisa. Será exagerado chamar alegria a essa coisa, ou sequer esperança; mas mesmo a loucura de Domenico é feita de uma vontade desesperada de salvação, que é mais tarde assumida por Andrei.
Essa luta pela manutenção é a ausência mais gritante no Journal: nem o jovem padre de Ambicourt está em posição de se lembrar de qualquer traço de alegria (e alguma vez esteve? e desconfia dela, nos bailes de aldeia por exemplo, como se desconfia de um estranho que nos causa repulsa), nem o padre de Torcy ou o Dr. Delbende, por muito bem intencionados que sejam, se lembram ou acreditam que valha a pena prescrevê-la. O único vislumbre de alegria e de luta está em Seraphita, no seu gozo a fingir ternura que esconde realmente ternura, na mala atirada ao chão cujo significado talvez nem ela perceba ou esteja interessada em perceber, e que talvez por isso seja dos poucos gestos livres em todo o filme, e na maturidade, forçada pelas circunstâncias, que espantosamente a leva à compaixão e não ao embrutecimento.

Os dois filmes acabam em fracasso, mas enquanto Andrei e Domenico morrem agarrados a uma esperança que é radical e insensata, mas que é ainda um gesto, tentativa de liberdade e de agência, o que aconteceu ao padre de Ambicourt? Deixou-se levar pelo desespero? Não podia ter feito nada? Podia? Escolheu a agência (e o alívio) que pode haver na renúncia? Seria a única que lhe restava? Talvez responder a isto revele ou configure uma escolha. Talvez não haja escolha, pelo menos para alguns. Não sei.

segunda-feira, 12 de janeiro de 2026

Eram o tipo de pessoa culta e sofisticada que tem o bom gosto de ter tudo o que é importante lido, visto e visitado desde os dezasseis, e todas as relações lhes sabiam a pouco até se descobrirem um ao outro. Foi tão grande o entusiasmo, o brilho nos olhos, o orgulho da perfeição assim reforçada, até perceberem que não tinham nada, absolutamente nada, que pudessem descobrir a dois.
“Se te apetecia podias ter pedido o último gomo da laranja”, diz ele, generoso como sempre. Respondo-lhe que faz parte da minha filosofia de vida que nunca se fica com o último bocado de comida de outra pessoa, a não ser que seja oferecido por vontade espontânea, sem qualquer tipo de pressão explícita ou implícita ou sentido constrangido de obrigação, ou quando a falta de interesse no resto do prato não deixa sinal de dúvida possível. Ele diz-me que sempre fui muito séria com a comida. Digo que não sou séria, sou Walseriana
Tem graça, saiu bem, mas depois admito que imagino Robert Walser exactamente como o tipo de pessoa que se deliciaria a roubar a minha última batata frita. Mas continuo a dizer que não sou séria com a comida. Sou só uma lambareira com príncipios.

Buddies

O Tempo di Viaggio tem tanta coisa boa, mas do que mais gostei foi aquela dinâmica inesperada de “buddy movie”, com Tarkovsky no papel de “straight man” e Tonino Guerra no de “funny man”. Uma pequena maravilha.

Transumância

Diz Austerlitz no romance de Sebald: 

“...there is something illusionistic and illusory about the relationship of time and space as we experience it in travelling, which is why whenever we come home from elsewhere we never feel quite sure if we have really been abroad”. 

Austerlitz
é dos meus livros favoritos, mas eu funciono de maneira quase oposta e quando venho de viagem é o mundo do regresso que me parece irreal, e essa sensação mantém-se por muito tempo. Não sei, aliás, se algumas vez desaparece ou se só se acalma; e para o conseguir tenho de me pôr em movimento outra vez nos dias seguintes, uma errância de uma tarde pelas ruas da cidade mais próxima, uma caminhada pela serra, algum tempo junto ao mar quando ele está perto, qualquer coisa que permita uma travagem suave. Neste assunto vou mais pelo Tarkovsy em Tempo di Viaggio: 

“The things that I saw yesterday seem as if I saw them a week ago. About our journey that was a month ago, I feel as if it was just a moment ago.”


(Lembrei-me do Tempo di Viaggio por causa da Teresa.)
 

domingo, 11 de janeiro de 2026



O Cavalo de Turim de Béla Tarr + Perfil de Ancião de D. Carlos I.
That fall from grace
Knocked me on my knees
Don't tell anyone
That's what I wanted
The God of change
Knocked me on my knees
Don't tell anyone
That's what I wanted


Pontiac 87, Protomartyr

sexta-feira, 9 de janeiro de 2026

Manhã

Esta coluna de chuva que vinda do horizonte toma o mar é irmã das colunas de fogo do Antigo Testamento. Sobre o areal as nuvens abrem. O mar ruge, indiferente a tudo, consumido por perguntas sem resposta, como um filósofo com insónias que não sossegaram com a chegada da manhã.

Ermida de Santo Estêvão


Creio que o sagrado reconhece os lugares que lhe constroem, mas é também aquilo que se esquiva ou que escolhe aparecer de surpresa. E se imagino que goste da câmara azul do barroco que está para lá da porta interior de madeira, acho que é neste átrio de paredes brancas e pedra clara que dorme a sua sesta de gato enquanto nos espera; e é nas sombras e luz que aí se desenham, no ramo de flores simples que alguém deixou no chão e cujo significado desconheço e me comove, que me comovo. No interior da ermida a luz guarda a sombra azul trabalhada. No exterior é o azul, de cenho franzido em contemplação e dúvida, que rodeia uma arquitectura, na capela como no resto da ilha, que é um grito de branca alegria mediterrânea plantado no Atlântico.

quarta-feira, 7 de janeiro de 2026

Journey of the Magi

A cold coming we had of it,
Just the worst time of the year
For a journey, and such a long journey:
The ways deep and the weather sharp,
The very dead of winter.’
And the camels galled, sore-footed, refractory,
Lying down in the melting snow.
There were times we regretted
The summer palaces on slopes, the terraces,
And the silken girls bringing sherbet.
Then the camel men cursing and grumbling
And running away, and wanting their liquor and women,
And the night-fires going out, and the lack of shelters,
And the cities hostile and the towns unfriendly
And the villages dirty and charging high prices:
A hard time we had of it.
At the end we preferred to travel all night,
Sleeping in snatches,
With the voices singing in our ears, saying
That this was all folly.

Then at dawn we came down to a temperate valley,
Wet, below the snow line, smelling of vegetation;
With a running stream and a water-mill beating the darkness,
And three trees on the low sky,
And an old white horse galloped away in the meadow.
Then we came to a tavern with vine-leaves over the lintel,
Six hands at an open door dicing for pieces of silver,
And feet kicking the empty wine-skins,
But there was no information, and so we continued
And arrived at evening, not a moment too soon
Finding the place; it was (you may say) satisfactory.

All this was a long time ago, I remember,
And I would do it again, but set down
This set down
This: were we led all that way for
Birth or Death? There was a Birth, certainly,
We had evidence and no doubt. I had seen birth and death,
But had thought they were different; this Birth was
Hard and bitter agony for us, like Death, our death.
We returned to our places, these Kingdoms,
But no longer at ease here, in the old dispensation,
With an alien people clutching their gods.
I should be glad of another death.

T. S. Eliot

domingo, 4 de janeiro de 2026

Fanny e Alexander



Este Natal decidi ver um episódio de Fanny e Alexander por noite até à Consoada. Foi uma boa decisão. É um conto de fadas que nunca se afasta do fantasma do mal, mas foi a coisa certa para aqueles dias. Porque há formas de lidar com essa presença que não passam nem pela desistência nem pelo vício da indignação. A manutenção da alegria, em que insisto tanto, também é isto: parar perante imagens e rostos que nos falam, guardar silêncio, deixar espaço para o maravilhamento.

sexta-feira, 2 de janeiro de 2026

“I remarked that sitting there amidst her papers she resembled the angel in Dürer's Melancholia, steadfast among the instruments of destruction”

W. G. Sebald, The Rings of Saturn