quinta-feira, 14 de maio de 2026

VGM

VGM cerebral e barroco, irritante e genial. É sempre difícil falar dele porque depois tenho de lutar contra a tentação de cair para dentro da sua poesia e não ler mais nada; ficar nas cadências e iterações, humor, referências, e naquela celebração que o é mesmo pelo meio da melancolia e da lucidez desapegada (e o desapego nunca é total, o interesse pelo mundo ganha sempre). 
O primeiro livro que comprei de Vasco Graça Moura foi um volume desirmanado da sua poesia completa, há muitos anos, quase dado, naquela “feira do livro” da Gare do Oriente. Não fazia ideia ao que ia. Mais tarde comprei a poesia completa na edição de dois volumes, também da Quetzal, mas foi este primeiro livro que mudou a minha relação com a poesia quando já tinha desistido de insistir, por causa de alguma poesia portuguesa pela qual não me conseguia interessar. 
Morte de Paolo e Francesca na livraria do Louvre, Nocturno de Malmö, o soneto das horas de ponta, o poema da cómoda D. José — já estava tudo ali. Acima de tudo Uma Carta no Inverno, sempre a carta no inverno: a epígrafe que me apresentou Yeats, a abertura assombrosa (“sob as bátegas de chuva lembremos a queda de Constantinopla”) de que me lembro muitas vezes e que é um consolo e um lembrete de alguma coisa muito antiga e importante. E o embalo do ritmo, da atenção que é necessária para navegar o poema, e daquela conversa em voz baixa ao crepúsculo, em frente à lareira, enquanto lá fora chove e Constantinopla cai uma e outra vez.

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