sábado, 25 de novembro de 2017

A Casa Velha

A Casa Velha | The Old House
A Casa Velha | The Old House
A Casa Velha | The Old House
Pergulho | Março 2008

A Casa Velha

A Casa Velha | The Old House
Untitled
Untitled
Pergulho | Março 2008

A Casa Velha

Untitled


Apesar de não haver voyerismo na intenção, há sempre um certo prazer de transgressão ao entrar pela primeira vez numa casa abandonada, a antecipação perante os tesouros, escondidos ao comum mortal, que posso estar prestes a descobrir e a revelar, eu própria feita arquitecta nas ruínas, trave-mestra da sua transfiguração em algo com significado novamente, por umas horas.
Esse prazer secreto, sussurrado, desvanece-se no segundo em que os pés trespassam o umbral de uma casa que seja nossa. O primeiro impacto não é o de um silêncio sagrado por se pisar o chão das raízes, não é um assombro - é apenas a desolação das paredes inúteis, das madeiras podres e do lixo profanador.
Fotografar as ruínas de uma casa, colar-me até, às suas paredes com um egocentrismo que admito, não me tem, facto, grande voyerismo. É a minha maneira de fazer memória, é a minha tentativa de dar voz às paredes feitas inúteis e silenciosas pela decadência e pelo esquecimento. Há, isso admito-o, um certo narcisismo, um prazer de me proclamar agente dessa "ressurreição de um minuto", de me fazer agente de vida, nem que seja numa ontologia de ruínas, do que já só tem existência por oposição ao que já foi e não voltará a ser. Mas sim, e para minha defesa, considero-o, acima de tudo, uma homenagem vinda talvez desta minha sede de raízes que me corre no sangue.
E no entanto, isso não atenua o sentimento de culpa, de profanação, ao fotografar a casa onde a minha mãe e os seus 9 irmãos e irmãs nasceram e viveram, que testemunhou a vida amarga e séria da minha avó, a história da minha família, pela parte do meu avô materno, por pelo menos quatro gerações. Há pouco consolo em saber que as fotografias que tirei encontram, pelo menos uma vez, o seu destinatário e a possibilidade real de fazer memória e honrar uma história e quem a viveu e vive, inclusivamente eu.
Dito isto, é impossível sacudir a sensação de que estas imagens, mais que quaisquer outras que já tirei, ficam muito aquém do testemunho que pretendem ser, do silêncio, solenidade e carinho que gostaria de lhes imprimir. É verdade que tive muito pouco tempo, que estava acompanhada, que o medo de cair pelo soalho podre era muito, e que acima de tudo, fotografar a ruína da casa em que a minha mãe nasceu, com ela presente foi, no mínimo, difícil.
Mas o que me custou mais não foi propriamente a ruína da casa (já anunciada e adivinhada) mas a decadência e falta de amor deixada pelo último inquilino, os restos de comida, as roupas e cobertores a apodrecer como ninhos de ratos, os objectos domésticos deixados para trás como que por um fugitivo, o lixo a sair pelos cantos mais sagrados: a cozinha, coração da família numa casa demasiado exígua e vergada de trabalho para ter sala de estar, e a cantareira, nicho com o cântaro de barro com água fresca e o púcaro de alumínio amolgado, omnipresentes, acarinhados e usados até na época dos frigoríficos.
Quero esvaziá-la, a casa velha, extirpar-lhe todo aquele lixo, sacrílego pela forma inevitável e impertinente com que se anuncia, como se nos dissesse que a casa agora lhe pertence, a esse reino em que as coisas se extinguem sem memória, quando a degradação se torna banal.Custa-me tirar-lhe os últimos vestígios de vida, do quotidiano que faz permanência nos gestos fugazes e nos objectos do dia-a-dia; é como tirar-lhe, a ela e a mim, o coração, condená-la a viver mais tempo (espero que sem a porcaria apodreça um pouco mais devagar), mas naquela espécie de imortalidade que só têm as coisas desprovidas de vida. - Mas acima de tudo que ela se aguente o mais possível. Eu ainda não perdi a esperança romântica de um dia vir a ter meios para a recuperar, nem que só reste deitar as ruínas abaixo e reconstruí-la quase de raiz.

(O texto é de 2008. A Casa Velha foi recuperada por familiares o ano passado, e eu não podia estar mais grata*)



A Casa Velha | The Old House

Em busca do invisível | Looking for the invisible

Pergulho | Maio 2016

Em busca do invisível | Looking for the invisible

Pergulho | Maio 2016

Em busca do invisível | Looking for the invisible

looking for the (almost) invisible
Pergulho | Maio 2016

quarta-feira, 15 de novembro de 2017

National Portrait Gallery

National Portrait Gallery | London
Londres | Abril 2017




Ainda em relação à National Portrait Gallery, tenho de destacar este conjunto de retratos de reis e rainhas inglesas. Gostei imenso deles, mas quanto mais olhava para os quadros mais me parecia que havia uma quantidade anormalmente grande de retratos com os olhos nitidamente tortos! Seria intencional? Havia assim tantos reis vesgos? A informação junto da obra não referia nada acerca da questão e ainda por cima visitei o museu sozinha, pelo que tive de me conter para não puxar um desconhecido pela manga só para lhe perguntar se via o mesmo que eu.
Achei muita piada a esta sobreposição de solenidade com humor, e quando cheguei a casa tentei encontrar mais informação. O site do museu tem uma página bastante completa acerca da obra, que terá sido realizada entre 1590 e 1610, por vários autores; e junta os retratos de um desses pintores num grupo chamado "The 'Crooked Eye' Group". Eu acho que há mais retratos com olhos tortos fora desse grupo, mas ainda assim deixo a explicação fornecida pelo site, onde é também possível ver os retratos em tamanho grande:

"In both images the king is depicted with slightly crooked eyes. There is no documentary evidence that he looked like this in reality. Instead, it is likely that this design was ultimately based on a forward-facing image of the king in a medieval manuscript illustration in which his eyes were depicted in this way unintentionally. King John’s eyes are also slightly crooked, possibly because the artist found it difficult to paint a face in a half-profile position."

National Portrait Gallery | Londres

National Portrait Gallery | London
National Portrait Gallery | London
National Portrait Gallery | London
National Portrait Gallery | London
National Portrait Gallery | London
National Portrait Gallery | London
Londres | Abril 2017




Desconfiava que este ia ser dos um dos meus museus favoritos em Londres e assim foi. Gosto muito de retratos e sabia que ia encontrar aqui alguns que faziam parte da minha lista; além disso gostei muito do próprio espaço, tanto pela sua decoração e organização interior, como pelo facto de ser bastante mais sossegado que outros museus da cidade. Tive pena que as fotografias de Virginia Woolf que queria muito ver estivessem numa ala em reconstrução (há algum museu em Londres que não tenha permanentemente alas em reconstrução, ou sou só mesmo eu que tenho azar?), mas tive algumas boas surpresas para recompensar, quadros que não conhecia e de que gostei muito. Saí com a sensação de que, se algum dia acabar por viver em Londres, a National Portrait Gallery vai ser um dos meus abrigos. Até lá, conto os dias para voltar, nem que seja de passagem.

segunda-feira, 13 de novembro de 2017

Ariadne

Ariadne, Alice, Rainha de Copas, Sophia, Severa. São personagens, palavras e imagens, que habitam comigo há mais de dez anos, com muita adolescência tardia, inquietação, pseudo-poesia foleira e noites sem dormir. São as minhas reconstruções e efabulações. É altura de perder a vergonha e, foleiro ou não, tentar fazer alguma coisa com isto.


Agosto 2006

Ariadne em Naxos

Ariadne ficou esquecida em Naxos
quando perdemos a crença luminosa
da nossa adolescência
Quando, como Teseu, futilmente
acreditámos ter morto o terror
de sombras do Labirinto e do Minotauro.

Fizemo-nos adultos
e o instinto inato para a tragédia
foi consumado.

The holiness of empire

"What is the holiness of empire?
It is to know collapse."

The Fall of Rome: A Traveller’s Guide (excerto), Anne Carson

quinta-feira, 9 de novembro de 2017

Amor como em Casa

Regresso devagar ao teu
sorriso como quem volta a casa. Faço de conta que
não é nada comigo. Distraído percorro
o caminho familiar da saudade,
pequeninas coisas me prendem,
uma tarde num café, um livro. Devagar
te amo e às vezes depressa,
meu amor, e às vezes faço coisas que não devo,
regresso devagar a tua casa,
compro um livro, entro no
amor como em casa.


Manuel António Pina

O restaurante Grego da Caparica

Depois de um dia refém do sem-sentido, o nosso restaurante grego na Caparica numa noite já deserta, em que o nevoeiro torna as luzes difusas e assombra as montras de boias e toalhas. O rugir do mar e o cheiro a sal que se cola à pele lembraram-me Invernos passados no Baleal; se há muitos anos aprendi aí que a solidão não invalida a ternura, aprendo agora que ter uma Casa não tem de destruir as viagens interiores que requerem solidão. Calor, ausência, solidão, ternura, sempre me acompanharam, e a cada regresso à  praia fora de época, as ondas relembram-me essa linguagem de inquietação e de dança.

sexta-feira, 20 de outubro de 2017

Abrigos

Abrigos espalhados pelos caminhos da transumância, abertos a quem os souber reconhecer: um espelho pousado no chão, à espera de lugar definitivo; uma luz nova na entrada, mais quente, que faz com que chegar a casa seja chegar a casa; as primeiras chuvas, os vestidos com collants e os pijamas mais quentes; livros que se devoram em quarenta e oito horas; fotografias que nos transportam aos momentos felizes em que foram tiradas; rajadas de escrita depois de anos sem escrever; canções que se redescobrem exactamente quando faziam falta.

quinta-feira, 19 de outubro de 2017

O quase e a Casa

(O que são os auto-retratos, se não tentativas de tornar um "quase" suportável? Pequenas mitologias e efabulações que permitem lidar com as insuficiências, e dão a sensação de que o nosso lugar no mundo e a imagem que passamos não estão completamente fora do nosso controlo. Hoje li uma passagem de Beckett que dizia "E inventam-se escuridões" e pensei que sim, inventamos escuridões pequeninas, manejáveis, pequenas epopeias a que controlamos o fim, como forma de fazer frente à escuridão maior que são o caos e o sem-sentido, e esse medo fininho de que não haja um lugar onde nos reconheçam, e a que se possa chamar Casa.)

Outubro 2017

quinta-feira, 5 de outubro de 2017

Cafés & leituras de Outono

Ir ao Brown's, em plena Baixa, tem mais de wishful thinking que outra coisa qualquer: eu gosto muito da decoração interior, que é das minhas favoritas em Lisboa, e me dá vontade de escolher uma mesa de canto e ficar ali algum tempo perdida num livro, com um chá e um doce; na teoria, sinto-me ali muito bem. Só que a música geralmente está tão alta que tenho vontade de nem entrar, e o melhor que se pode esperar dos empregados é que, num dia bom, sejam antipáticos. Quando o café foi transformado em restaurante dei o caso como perdido, uma dica de que não valia a pena continuar a tentar. Mas esta semana precisava de fazer tempo antes de um compromisso, estava por ali, e tinha comigo um livro que estava mesmo a pedir um chá e uma mesa de canto; foi a meio da tarde, o Brown's estava vazio, e a música estava um pouco menos alta que o costume (ou seja, seria possível ignorá-la, com os meus ascultadores no máximo); arrisquei e não foi uma má aposta. O livro em questão é "O Homem Sem Qualidades", numa tradução inglesa da Picador (que me custou €22, volume completo, por contraste com os €30 euros pedidos por cada um dos três volumes da edição portuguesa, mas enfim, isso é toda uma outra história). Será a minha grande-leitura-de-Outono. 
Costumo ter dois picos de leitura durante o ano: uma lista de leitura para as férias do Verão, quando a cabeça mais livre me permite despachar mais livros decentes num par de semanas que em vários meses, e uma grande-leitura-de-Outono, quando escolho um clássico longo, que leio algures entre Outubro e Dezembro, dependendo da disponibilidade horária e mental. Foi assim que li o "Guerra em Paz", e o "Ulysses", por exemplo, e tenho um carinho especial por esses momentos de leitura, que geralmente acontecem em serões e fins de semana de chuva e ronha, com um exagero de mantas e litros de chá à mistura. Gosto muito dessa sensação de "cair" para dentro de um livro e esquecer-me de que existe mundo lá fora, e acho que isso é mais fácil quando chega o tempo frio, e a casa parece mais apetecível e acolhedora; sinto-me sempre feliz quando me lembro dessas leituras passadas, desde a companhia que a série, mais leve, do "Harry Potter" me fez num momento de maior solidão, há muitos anos, até ao gozo que tive em cair para dentro do "Guerra e Paz", de tal modo que apagava a luz para dormir, mas acabava sempre por ir buscar o tablet recém-adquirido para, mesmo no escuro, poder ler "só mais um bocadinho". Este ano, devido à carga de trabalho acrescida com o mestrado, não consegui ler durante o Verão, e por isso acho que este ritual do tempo frio ainda vai saber melhor. 
Ainda estou muito no começo do "Homem Sem Qualidades", mas é um daqueles casos em que ao fim de uma dúzia de páginas já sabia que ia gostar muito deste livro. Para já estou fascinada com as descrições do "ar dos tempos", da sociedade, dos indivíduos: são ricas, perspicazes e de uma ironia fina. Mas o que mais surpreende não é só o facto de haver ali tanto que ainda hoje se aplica, tendo em conta que o livro é muito focado na descrição e crítica de uma época e contexto específicos (os últimos anos do Império Austro-Húngaro), e que foi escrito ainda antes da Segunda Guerra Mundial; mais que isso, há fenómenos, características, modos de pensar, que Musil pareceu perceber muito antes de eles se materializarem completamente, de tal modo que certas passagens, lidas hoje, parecem quase prescientes.

A date with my book
Lisboa | Outubro 2017

Cafés & música

Fábrica Lisboa
Fábrica Lisboa
Lisboa | Setembro 2017



Como tornar melhor um dia que tinha tudo para correr bem e não correu: o cadeirão vermelho no canto, junto da máquina de escrever, chá, um caderno e música bem alta nos ouvidos.

terça-feira, 3 de outubro de 2017

Olhares

Brassaï | Rue Quincampoix, Paris (1932)

Olhares

Francesca Woodman

Olhares

Elisabeth Moss, fotografada por Yelena Yemchuk | Violet, issue 8, 2017

sábado, 23 de setembro de 2017

Museu de História Natural | Londres

Abril 2017



Vi o Museu de História Natural de Londres quase à corrida, no fim do dia, pouco antes de fechar. Não liguei muito aos dinossauros, e não pude ver, entre uma quantidade considerável de secções que por algum motivo estavam encerradas, o famoso Hintz Hall. Por tudo isto, e porque as expectativas eram altas, a visita desiludiu um pouco, e fiquei com a sensação de que me escapou alguma coisa. Quero voltar com mais tempo e todas as secções abertas, para ver se a minha opinião se mantém ou não.
Ainda assim, eu gosto muito dos museus com ar antigo, que parecem não ter mudado nada desde o fim do século XIX, como se fizessem eles mesmos parte da colecção. E por isso gostei muito da ala de taxidermia do Museu: não só é aquela que mantém mais esse ar antigo, como essa sensação é acentuada pela estranheza, que é também o fascínio, dos animais a meio caminho entre a impressão de vida e a petrificação, como se fossem uma espécie de fotografia. Tudo parece suspenso no tempo, e eu gosto dessa ilusão de que, se ficar também eu muito quieta e esperar por um momento com menos gente, talvez consiga espreitar o passado.

terça-feira, 12 de setembro de 2017

Playlist | Setembro

Belle & Sebastian - We Were Beautiful (single)
Broken Social Scene - Hug of Thunder
Death From Above 1979 - Outrage! Is Now
Grizzly Bear - Painted Ruins
Hercules & Love Affair - Omnion
Iron & Wine - Beast Epic
LCD Soundsystem - American Dream
Liars - TFCF
Nine Inch Nails - Not The Actual Events (EP)
Nine Inch Nails - Add Violence (EP)
The Horrors - V (singles)
The National - Sleep Well Beast
The New Pornographers - Whiteout Conditions
Queens of the Stone Age - Villains
The Shins - Heartworms
Spoon - Hot Thoughts

(em actualização)

Eu colecciono Bibliotecas | National Art Library

I collect libraries | National Art Library
Abril 2017


National Art Library, no Museu Victoria & Albert, Londres.

terça-feira, 22 de agosto de 2017

Olhares

Ilse Bing, Greta Garbo Poster, Paris, 1932

Coluna que sustentas com a tua solidão

"As fórmulas mais belas de saudação que conheço são as trocadas entre os padres do deserto. Aqueles anacoretas, exploradores de silêncios abissais, tinham como ideal tornarem-se irreversivelmente estranhos ao modo comum de atravessar a terra, e viver exactamente "como um homem que não existe". Mas eles, que comunicavam por monossílabos e gestos para não ferir a ciência sagrada do silêncio, nas ocasiões em que se encontravam faziam-no com solenidade máxima: "Ave, guardião da manhã, montanha inacessível"; "Ave, coluna que sustentas com a tua solidão o inteiro universo"."

José Tolentino Mendonça na revista do Expresso (19.08.2017)

Oriente

"On a toujours besoin d'un Orient qui soit un ailleurs"
André Vauchez, Les Laiques Au Moyen Age

Ainda (e sempre) as traduções

"As traduções, em geral, envelhecem mais depressa do que os originais."
Mário Santos no Ípsilon 18.08.2017


Basta ler qualquer tradução portuguesa que tenha umas boas décadas em cima para perceber o quanto isto é verdade. Por outro lado, nunca deixa de me espantar a quantidade de obras clássicas que tiveram edição e tradução portuguesas nas décadas 50 e 60, que nunca conheceram uma reedição até hoje. Não são só as traduções que envelhecem.

domingo, 20 de agosto de 2017

quinta-feira, 17 de agosto de 2017

LCD Soundsystem | Tonite

"And you're getting older
I promise you this
You're getting older
And there's improvements 
Unless you're such a winner
That the future's a nightmare
And there's nothing I can do
Nothing anyone can do about this

And oh, I'm offering you a chance to get even
But oh, you know very well the dialect of negation
Sure enemies haunt you with spit and derision
But friends are the ones who can put you in exile
But that's not right
(...)
And luck is always better than skill at things
We're flying blind
Oh good gracious
I sound like my mom"

Diógenes em busca do homem (detalhe)

Pieter Van Mol

Etty Hilesum, aforismos acidentais

"Tudo é coincidência ou nada é coincidência. Se eu acreditasse na primeira hipótese, não conseguiria viver, mas ainda não estou convencida da última."

"Ó Deus, dá-me de manhãzinha menos pensamentos e mais água fria e ginástica."

Diário 1941-1943 (Assírio & Alvim)

segunda-feira, 31 de julho de 2017

Eu colecciono Bibliotecas | Camões


Lisboa | Julho 2017


Biblioteca Camões, em Lisboa.

A Biblioteca

Biblioteca Camões | Julho 2017

gente perdida

"Se a vida fizesse sentido, não havia filmes. Nem livros. Não sabemos onde moramos e, por vezes, um filme ou um livro dão-nos a impressão de estarmos em casa. Os filmes e os livros de que gosto são os de homens ou mulheres perdidos. Gente que não sabe encontrar o caminho para casa ou nem sequer sabe já o que seja uma casa."

Manuel S. Fonseca | "Nunca Saí do Liceu", no blogue Escrever é Triste

terça-feira, 11 de julho de 2017

Que luto

"Fica, aliás, uma interrogação perturbante: depois dos acontecimentos que dilaceraram (e dilaceram) o país, que luto nos querem fazer viver quando, entre a tragédia e a festa, já não há diferença mediática de linguagem?"

João Lopes, no Sound+Vision.

sábado, 8 de julho de 2017

sexta-feira, 30 de junho de 2017

Cidades Invisíveis

Alexander Brodsky e Ilya Utkin



Descobri os trabalhos de Alexander Brodsky e Ilya Utkin a partir de um pequeno quadro, isolado e com pouco destaque, perdido numa sala do enorme museu Victoria & Albert, em Londres. Nos últimos anos este tipo de trabalhos, que constroem arquitecturas impossíveis através da repetição e sobreposição algo delirante de diferentes elementos, tornou-se comum, tanto em ilustração como em fotografia, e eu tendo a gostar quase sempre dos resultados. Ainda assim, poucas vezes vi o conceito aplicado de uma forma tão brilhante. Mais tarde ou mais cedo vou ter uma impressão na minha parede, e isto entrou directamente para a minha lista de desejos.

quinta-feira, 29 de junho de 2017

Bill Callahan | All thoughts are prey to some beast

An eagle came over the horizon
And shook the branches with its sight
The softer thoughts: starlings, finches, and wrens
The softer thoughts, they all took flight

(...)

All thoughts are prey to some beast

All thoughts are prey to some beast
 Sweet desire and soft thoughts, return to me

quarta-feira, 28 de junho de 2017

Elevador

Lisboa | Junho 2017


"Há a procura deliberada do excepcional e há aquilo que aparece inesperadamente e que só se revela quando a fotografia foi revelada. As maneiras como isto acontece não têm importância e se uma irrupção não procurada é talvez mais bela e mais intensa, também é bom que o fotógrafo pára-raios saia para a rua com a esperança de a encontrar; qualquer provocação de forças não legisláveis alcança alguma vez a sua recompensa, embora possa acontecer de surpresa e, inclusivamente, como pavor."
"Janelas Para O Insólito", in Papéis Inesperados, Julio Cortázar

Entrei no prédio atraída pelas portas vermelhas; encontrei as silhuetas de luz e sombra do velho elevador. Creio que tive a minha recompensa - embora tenha voado para fora do edifício assim que ouvi uma chave girar numa porta.

quarta-feira, 21 de junho de 2017

Serendipity



"Which makes me think of a 1920s in which nobody minded when people vanished or transformed into birds."
Neil Gaiman, acerca desta fotografia.


"Tende-se a pensar na fotografia como um documento ou como uma composição artística; ambas as finalidades se confundem às vezes numa só: o documento é belo ou o seu valor estético contém um valor histórico ou cultural. Entre essa dupla proposta ou intenção desliza algumas vezes o insólito como o gato que salta para um palco em plena representação, ou como aquele pardalinho que uma vez, quando eu era jovem, sobrevoou prolongadamente a cabeça de Yehudi Menuhin que tocava Mozart num teatro em Buenos Aires. (Afinal de contas não tão insólito quanto isso; Mozart é a prova perfeita de que o homem pode fazer aliança com o pássaro)."
"Janelas Para O Insólito", in Papéis Inesperados, Julio Cortázar

sexta-feira, 9 de junho de 2017

Romantismo

"Da minha parte, sou sensível também às circunstâncias culturais dos textos, e até às empíricas. Imagino, com comoção, a extracção do barro às margens do Eufrates, para que nele se pudessem inscrever narrativas. Imagino essas placas, inscritas com arcanos e palavras capazes de sustentar o universo humano, a secar ao sol ou a cozer nos fornos em que também se fazia o pão. Tudo isso me faz pensar num assombro que emanaria da palavra escrita e que já não estamos em condições, talvez, de determinar. Serei talvez vítima da ilusão que costuma confundir o mais antigo com o mais primordial. Mas ao ler os textos mesopotâmicos, em especial o Gilgamesh, sinto-me sempre (talvez ingenuamente) à espera de surpreender os passos perdidos dessa seriedade abismal sem a qual a literatura não poderia ter vindo à existência."

Francisco Luís Parreira, em entrevista ao Ípsilon acerca da sua tradução para Português do Gilgamesh (02.06.2017) 

segunda-feira, 5 de junho de 2017

Consciência

"Alguma divulgação bem intencionada costuma proclamar que o poema de Gilgamesh é o texto mais antigo do mundo. Não é (e qual seja é impossível de determinar). É, no entanto, a narrativa que os mais antigos leitores do mundo mais se preocuparam em preservar e copiar. (...)
Mais importante do que isso, é talvez o facto de se constituir como o primeiro texto centrado numa personagem, isto é, um centro de conflito entre o desejo e a ordem objectiva do mundo. Trata-se de uma figura para a qual a morte própria constitui o acontecimento primordial da sua existência."

Francisco Luís Parreira, em entrevista ao Ípsilon acerca da sua tradução para Português do Gilgamesh (02.06.2017)

Leitores

"Esta edição ambiciona servir simultaneamente o leitor leigo e o especialista. São conciliáveis?

A resposta é um sim enfático. Um especialista é apenas um leitor leigo mais tenaz (ou menos parcial). Estão ambos abrangidos por uma velha máxima aristotélica que todos os dias encontro comprovada: todos os homens desejam naturalmente saber. Nem sempre encontro comprovação de que esse desejo se queira relacionado com livros, é certo, mas não custa nada tentar."

Francisco Luís Parreira, em entrevista ao Ípsilon acerca da sua tradução para Português do Gilgamesh (02.06.2017)

Tradução I

"Não existindo um texto de partida pacífica e definitivamente estabelecido, esta não é uma simples tradução. O que procurou alcançar com as opções editoriais feitas?

(...) Para responder à sua pergunta: procurei, antes de mais, a melhor articulação possível de fontes que provêm de lugares, línguas e até milénios diferentes, e que são incompletas e, muitas vezes, mudas quanto ao seu lugar e relevância. "Melhor" significa aqui: inteligível quanto à narrativa e correspondendo a uma aproximação ideal das intenções do compilador babilónio." 

Francisco Luís Parreira, em entrevista ao Ípsilon acerca da sua tradução para Português do Gilgamesh (02.06.2017)

Tradução II

"(...)  dê-se por favor aos suplício de imaginar uma versão em prosa das Elegias do Duíno ou do Cimitière Marin. Chamar-lhe-ia tradução? Parece-me que soluções desse tipo padecem de dois pecados: orçam por cima a boa-fé do leitor e acumulam capital autoral na pessoa do tradutor, que desse modo se deixa equiparar a uma espécie de paraíso fiscal da poesia."

Francisco Luís Parreira, em entrevista ao Ípsilon acerca da sua tradução para Português do Gilgamesh (02.06.2017)

Erudição

"Contrariando uma tendência de anos recentes, exemplificável com algumas traduções de Homero feitas por Frederico Lourenço, optou por uma tradução e por uma edição ostensivamente eruditas. Porquê?
 
(...) Mas permita-me que conteste a sua ideia de uma tendência recente, tal como a descreve. Estou inclinado a supor que essa tendência pertence mais ao foco mediático do que aos factos. Acabei de ler, por exemplo, uma edição recente, da Gulbenkian, dos Textos da Literatura Egípcia do Império Médio, da autoria de Telo Ferreira Canhão, e recordo como exemplo de como ler e editar um texto a edição dos professores Mário Jorge de Carvalho e Nuno Ferro do maravilhoso texto de Kierkegaard, Adquirir a sua Alma na Paciência, na Assírio & Alvim.
São traduções eruditas, no sentido que evoca, e relativamente recentes; apesar de extraordinárias, e de se aprender mais com elas do que com um trimestre inteiro de edição industrial, creio que nenhuma delas mereceu qualquer menção na crítica impressa. Espero entretanto que a tendência de que fala não resulte na depreciação do que é "erudito". Embora não tenha um amor excessivo a essa palavra, assinalo que certos textos, para se revelarem, precisam de uma conversa prévia ou periférica e de alguém que se coloque em situação de iniciá-la. Eu, por exemplo, ainda hoje não sei que canção cantaram as sereias a Ulisses e bem gostaria que houvesse alguém a dizer-mo."

Francisco Luís Parreira, em entrevista ao Ípsilon acerca da sua tradução para Português do Gilgamesh (02.06.2017)

quarta-feira, 3 de maio de 2017

My Brightest Diamond | Soirée de Poche #46


"It’s so hard, it’s so heavy
To be hungry, to be happy

It’s so light, it’s so easy just to be


(...)

Be brave dear one
Be changed or be undone

Be brave dear one

Be changed, be changed, be changed

Changed"

terça-feira, 11 de abril de 2017

Elementos de Botânica

Old botany books
Old botany books
Old botany books
Old botany books
Pergulho | Janeiro 2009




Nesta biblioteca especial.

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