quinta-feira, 4 de junho de 2026

Dedo em riste

“Cette image, intitulée Une bonne famille, avait fait les délices des bourgeois, mais l'affliction des patriotes. Pellerin, d'un ton vexé comme s'il en était l'auteur, répondit que toutes les opinions se valaient; Sénécal protesta. L'art devait exclusivement viser à la moralisation des masses! Il ne fallait reproduire que des sujets poussant aux actions vertueuses; les autres étaient nuisibles.
— Mais ça dépend de l'exécution! cria Pellerin. Je peux faire des chefs-d'œuvre!
— Tant pis pour vous, alors! on n'a pas le droit...
— Comment?
— Non! monsieur, vous n'avez pas le droit de m'intéresser à des choses que je réprouve! Qu'avons-nous besoin de laborieuses bagatelles, dont il est impossible de tirer aucun profit, de ces Vénus, par exemple, avec tous vos paysages? Je ne vois pas là d'enseignement pour le peuple! Montrez-nous ses misères, plutôt! enthousias-mez-nous pour ses sacrifices! Eh!”


Flaubert, L'éducation Sentimentale


A contemporaneidade é antiga, parte 782. Não há nada de novo no dedo em riste, na devoção seminarista à “verdade sociológica”. E Flaubert nem precisava de ter escrito o resto do diálogo: aquele “vous n'avez pas le droit de m'intéresser à des choses que je réprouve”, diz mais sobre os fundos dessa devoção que muitos tratados.

Marjane Satrapi (1969-2026)

Morreu Marjane Satrapi. Já seria triste, mas as circunstâncias da sua morte ainda o tornam mais. Seja como for não imagino maneira melhor de a celebrar que ler e rever Persepolis, testemunho de resistência e liberdade. 

terça-feira, 2 de junho de 2026

Sr. Hulot & Doinel

Ontem vi Les Vacances de M. Hulot. E raramente volto ao Sr. Hulot sem voltar também a esta homenagem de Truffaut em Domicile Conjugal. O filme é simpático mas eu gosto mesmo é desta cena, da maneira como Doinel se deixa contagiar pela energia nervosa de Hulot, do humor físico tão delicioso de Léaud. Tudo em menos de 30 segundos.


domingo, 31 de maio de 2026

Andaluzia, Beira-Baixa

Manhãs de Verão em Espanha são para ler Federico Garcia Lorca. Descobri-o na biblioteca de um tio, feita dos livros que já não lhe cabiam em casa, na casa da minha avó, e na minha cabeça a Andaluzia confunde-se com a Beira-Baixa no Verão, com a terra muito seca, as oliveiras e o sol sem misericórdia que imagino parecidos. Lia-o depois de almoço quando todos dormiam a sesta, nos cantos mais frescos da casa em silêncio, ou cá fora sob a tília na companhia das cigarras, se o calor e a luz o permitissem. Aqui, tão longe da Andaluzia como da Beira-Baixa, às vezes pelas horas do calor e com a casa na penumbra, cheira à aldeia dos meus avós no Verão, a terra seca, a azeitonas que amadurecem nas oliveiras. E quase podia imaginar um gitano lá ao longe a cantar.


Candura

“Il se croyait fort honnête, et, dans son besoin d'expansion, racontait naïvement ses indélicatesses.”

Flaubert, L'éducation Sentimentale


Podia ser um português exemplar, portanto, com aquela candura do histrionismo. Não muito longe do que Agustina diz aqui sobre o erotismo e a brejeirice, aliás.

terça-feira, 26 de maio de 2026

Os usos bárbaros da ironia

“for a time, Herbert considered Miłosz the best living Polish poet, and the barbaric uses of irony are already examined in such poems as Miłosz's 'Child of Europe', written in New York in 1946. In his poems of the wars year and the aftermath, Miłosz demonstrated how to meet the bitter grief and despair of postwar Europe with unflinching intel-lectual rigour and a passionate eye, a hunger for reality as it is present in physical objects and concrete traces of human history.”

Nesta nota introdutória de Alissa Valles à colectânea de poesia de Zbigniew Herbert, encontro esta descrição bastante justa da poesia do Czesław Miłosz. E continuo a pensar no que serão os “usos bárbaros da ironia”.

segunda-feira, 25 de maio de 2026

Peter Hujar's Day, Ira Sachs


Um filme discreto e sereno, um gosto acompanhar esta conversa. E sim, o Ben Whishaw, claro que sim, mas o que eu gosto da Rebecca Hall, tão discreta, serena e convincente como este filme.

quinta-feira, 21 de maio de 2026

Clarões

Estou a ter alguma dificuldade com este The Moravian Night de Handke, custa-me entrar na sua linguagem que me parece cheia de tropeções, e não percebo se é dele ou da tradução ou de mim. Mas depois tem estas irrupções luminosas:

“...in which objects said to be inanimate filled one with amazement, as if they had been resurrected after a century in an antechamber to hell devoid of form and color. (...) not the omnipresent crutches, wheelchairs, ambulances, and burial racks but rather the things that blossomed in the interstices still open and probably also opened up as a result of the reading, objects that blossomed without actually blossoming, billowing, arching, asserting themselves, surviving, which included the interstices as well.”

Também ajudam as correspondências pessoais, claro. A ideia dos interstícios e das fendas é-me muito próxima. Chegou pela fotografia, cresceu com as leituras e transumâncias e ganhou contornos muitos específicos. Handke tem outra passagem sobre isto na parte inicial do livro, quando a personagem principal fica presa na beleza de um lugar esquecido:

“the debris-strewn space suddenly appeared not as empty as it had seemed at first. The huge block of stone in the farthest corner of the former farm was in reality the last intact structure of those that had once rimmed the courtyard — the sheds, the stables, the barns, the wine cellar. It was the hut where at one time the local brandy had been distilled. The stone block formed a dome that rose out of the debris, leaving an opening into a hollow space with just room enough for a still and-how could there not be one here in your Balkans — a bench, short and narrow, but nonetheless. (...) He felt carried away, knew he was carried away at the sight of that bench in the former brandy-distilling cave, shimmering in the early morning light. Carried away? Did such raptures still happen nowadays?
Being carried away was certainly not the same as losing touch with reality. To be carried away in this fashion did not mean being torn away from the world, or, as far as I am concerned, from the present. How real everything (everything?) appeared in this rapture, not only the bench, not only the structure. That was it. That is it. That will have been it. This form of being carried away whisked things into their proper place”


Eu sei exactamente ao que ele se refere, porque é a casa do forno, a das ferramentas, a casa das batatas, a adega: os anexos utilitários e desarrumados da casa dos meus avós e das casas de qualquer aldeia de agricultura de subsistência, que de tão usadas e invisíveis guardam no seu interior um tempo diferente, e muitas vezes uma luz também. E poucas vezes vi o que torna estes lugares especiais tão bem descrito como aqui. Estas correspondências chegam para continuar uma leitura surpreendentemente morosa? Veremos.


Maravilhamento & livros

“Amazement and reading”, diz Handke. Parece-me um bom programa.

quarta-feira, 20 de maio de 2026

At the gates

No primeiro livro que leio de um novo poeta, depois de ler ao acaso alguns poemas que me chamem a atenção, procuro sempre o poema que me fez pensar pela primeira vez “eu acho que gosto mesmo disto”, e comprar o livro. É a porta de entrada. Depois sim, o início.


segunda-feira, 18 de maio de 2026

Monástico

Deixei para último o segundo Fermor que li, Tempo de Silêncio, porque foi até agora o que menos me entusiasmou. É um livro simpático, mas talvez por se tratar de um universo que não vejo com exotismo, não foi uma experiência muito memorável. Voltei a lê-lo esta tarde (é muito pequeno, despacha-se num instante) e a impressão manteve-se.
O próprio autor parece ter alguma noção disso, porque na introdução a uma reedição, umas décadas depois da edição original, Fermor admite que talvez tenha escrito o livro no tom errado, e que à data presente talvez o tivesse escrito de outra forma, ou não o tivesse escrito. Não há ali nada terrivelmente errado, mas há de facto uma incapacidade em se adentrar pelas razões e pelo coração da opção monástica. Curiosamente a introdução, escrita por Karen Armstrong, acaba por oferecer mais luz sobre essas razões e coração, e quase diria que vale a pena ler Tempo de Silêncio, se o tema interessar, para a ler.
O lugar onde essa falha de Fermor fica mais explícita é nesta passagem:

“Um confronto entre campeões de cada lado poderia esclarecer este enigma psicológico. Um grande mandarim da psicanálise devia enfrentar um cardeal perito em teologia, dialéctica e misticismo, que tivesse ingressado no sacro colégio depois de cinquenta anos num mosteiro cisterciense. Infelizmente, as referências dos antagonistas seriam tão diferentes e irreconciliáveis, tão incapazes de comunicação, que o desafio correria o risco de se transformar numa dupla exibição de golpes de boxe no vazio: o psicanalista desferindo golpes assassinos com a repressão da libido e do Id, enquanto o cardeal respondia com a acção de graças e o Paracleto, e reforçava a vantagem recorrendo a Pseudo-Dionísio, o Areopagita”
 
E a quem não perceba porque é que a ideia de os monges escolherem um teólogo para explicar e defender a sua opção é completamente disparatada, não sei que dizer. Talvez que façam como eu fiquei com vontade de fazer, e vão procurar antes mais livros de Armstrong. Desconfio que Tongues of Fire: An Anthology of Religious and Poetic Experience, que ela editou, é capaz de ser um bom começo.