Portas da Cidade
biblioteca concreta da
memória, da razão, do negócio
da explicação dos milagres
entra pelos museus
concretização de uma vontade
de listas, catálogos, ordenações
onde se constrói uma navegação
possível e nunca sensata do caos
e a beleza concede
argumentos e consolo
irónica e perplexa com
tanta solenidade.
Na cidade, domínio do monumento
em que o corpo se sustenta
nos desenhos da calçada
e nos reflexos das montras
em suspensão
de óperas e escapes
de horas de ponta
entra pelas catedrais
onde se transfigura
a loucura culta da interpretação
no ritmo iluminado e repetido
das abóbodas e do canto
e o sagrado
encontra a linguagem
da pedra e do pigmento
que repercute
os seus breves clarões.
Nostalgia
Patriotismo
“The would-be assassins, who had been unwise enough to confide their business to a couple of patriotic prostitutes of the Merceria, were immediately arrested”
My Rembrandt, Oeke Hoogendijk
Escrita evocativa
“Ainda não conhecia videntes, nem o vitreator de Santa Maria, nem ouvira interromper-se, tão súbita quanto suavemente, a nota aguda da torre de vigia, em memória daquele que, atingido pelas setas dos tártaros, não pôde continuar a avisar do que se ia seguir”
João Bénard da Costa, Crónicas: Imagens Proféticas e Outras, vol. III
Em Bénard da Costa costumo ligar mais ao conteúdo que à linguagem, já que por norma me parece que ele gosta demasiado de se ver escrevendo — mas que frase. Podia ser o começo de um conto de Borges, cheio de antiguidades e de intuições fantásticas.
Sismógrafos
João Bénard da Costa, Crónicas: Imagens Proféticas e Outras, vol III
Que saudades de escritores, realizadores, artistas que sejam sismógrafos e não padres em homilia ou imbecis inchados.
“Nas palavras do poeta Mario Luzi, aquilo que só no Ocidente definimos como místico, transfigura-se na suprema representação do vasto território comum à iluminação poética e à religiosa.
Ousadamente, Tolentino Mendonça escolheu este livro sobre contos de fadas e tapetes voadores; sobre Masaccio e sobre Carpaccio; sobre William Carlos Williams e sobre John Donne; sobre Borges e sobre Tchekov; sobre Gottfried Benn e sobre Ezra Pound; e rigorosa-mente sobre «o sabor máximo de cada palavra»; para encabeçar uma colecção de escritos teológicos. Saberá compreendê-lo aquele que souber o que é a experiência poética e o que é a experiência religiosa.”
João Bénard da Costa, Crónicas: Imagens Proféticas e Outras, vol III (acerca da publicação de Cristina Campo em Portugal)



