"Eu conheço-me apenas de vista, atenção.
Sou uma pessoa que, se me vir na rua, atravesso para o outro lado."
Ricardo Araújo Pereira no Governo Sombra
Eu conheço-me apenas de vista
com a imprecisão de um reflexo
numa montra, com a perplexidade
de quem enfrenta um espelho hostil
numa noite de insónia.
Estranho-me a cada amigo
que se perdeu ou que perdi
a cada traço de alegria
a que renunciei
por cansaço ou sofreguidão
e mesmo nas minhas fotografias mais felizes
em que mais quero acreditar
que ainda sou eu, não sei se sou
Sure enemies haunt you
with spit and derision
but friends are the ones
who can put you in exile
canta o James Murphy
trovador do desencanto
que se lava em euforias tristes
e cada amigo que se perde
é um espelho com o qual
se quebrou uma aliança
São névoa e cacos
a minha obsessão com a biografia
a loucura com que acredito
que efabular-me
me pode salvar do mundo
do meu medo do mundo
Resta-me então a viagem
que talvez não chegue mas ajuda
e a generosidade inesperada
de quem me acena do outro lado do rio
à beira do qual todos esperamos
um sinal, um vento favorável,
ou simplesmente o som da água que corre
quando já desistimos de caminhar
Sozinha num comboio sento-me
de frente para a paisagem
até o meu rosto se fundir com o seu
e é aà que me reconheço
e nos meus olhos parece haver ainda
um rasgo do riso que nos libertou
do paraÃso e da perfeição
Pouso na mesinha do comboio
a máquina fotográfica
a primeira caneta que o meu pai me deu
(ou que lhe roubei, e ele sorriu)
o pequeno desenho feito à mão
que alguém me ofereceu
E acredito que se me cruzar comigo
fotografando as ruas desta cidade antiga
talvez pense "eu conheço esta cara"
e lhe sorria, e isso chegue.
(Com um abraço para a PatrÃcia, claro.)
Vieira da Silva (autorretrato, 1932) e uma tonta.
Que mais poderia eu fazer numa exposição sobre o retrato português que não fingir que também sei jogar este jogo? Sim, podia calar-me, mas por mais adepta que seja do silêncio, vamos ser francos: este dia serviu muito para me lembrar que calar-me não é opção, que ainda não me rendi. Ainda agora reentrei nos labirintos de uma criação que não tenha medo da própria voz; só agora começo a descortinar um caminho em que talvez seja possÃvel equilibrar a minha tendência para ensimesmar (sempre a autobiografia), com o recém-descoberto gosto de pegar naquilo que, no mundo, me deixa perplexa, e tentar escavar até ao osso. Joguemos, então.
Não sei se posso dizer em boa justiça que seja tÃmida, mas sou extremamente reservada. Tenho medo do confronto e da exposição, e lido mal com a minha própria transparência (curiosamente esta é uma experiência que tenho repetidamente: metade do mundo diz-me que sou das pessoas mais fechadas e difÃceis de ler que conhece, a outra metade maravilha-se com a minha transparência). No dia a dia isto leva-se, e não inibe a minha curiosidade, a minha sede de mundo; mas nas fases difÃceis transforma-se com facilidade numa atitude defensiva, e isso quer dizer que por vezes preciso de um esforço consciente e constante para não hostilizar aquilo que é diferente e que, como tal, é sentido como potencialmente desestabilizante.
Nunca percebi a obsessão com o novo e o diferente, mas também sei que o desprezo pelo diferente - geralmente ancorado ou no medo ou na sobranceria - costuma ser uma via-rápida para a mesquinhez. E por isso dou graças por aquelas pessoas, momentos ou experiências que têm o condão de me dar vontade de pisar terreno desconhecido. Hoje aconteceu-me com mais um Tiny Desk Concert, de uma banda que pertence a uma famÃlia de géneros musicais / estilos / estéticas para a qual geralmente tenho pouca paciência, e que acabo por desconsiderar com facilidade. Mas há coisas que são contagiantes e que vão directas ao coração. Quando acabei de ver os Tank and the Bangas, não estava só consideravelmente mais feliz, mas também um bocadinho mais crente na existência de pessoas com o condão - e a vontade - de espalhar felicidade. E isso é um grande antÃdoto contra o medo do mundo.

