Notícias do reininho

Muita gente compreensivelmente cansada, farta da mistura de indiferença e cretinices nas reacções à depressão Kristin, desabafa “nunca viveram no campo, não fazem ideia”. Explica um bocado mas não explica tudo. Leiria só é campo para quem acha que fora de Lisboa, Portugal é uma “bad land”.
E se fosse tudo campo? É preciso criar galinhas para perceber a tragédia de um incêndio ou catástrofe natural? Quem diz barbaridades é porque está farto de ter de fingir que esta insignificância lhes interessa.
Quanto ao silêncio era o que mais faltava haver obrigação de se pronunciar sobre o que quer que seja.Mas é curioso o caso dos viciados no FOMO e na titilação, para quem a vida é o que acontece nos intervalos das redes sociais, que vivem das coceguinhas que as tragédias ou a coragem dos outros lhes dão, de olhos postos em todos os micro assuntos na esperança de serem os primeiros a dizer algo que pegue e gere aplausos. Para eles não há fait divers demasiado pequeno para uma opinião rápida, peremptória e definitiva - a não ser tudo o que caia nesse ângulo cego que começa no lado de fora de Lisboa e acaba onde começam os Estados Unidos e o resto da Europa. Mas faz sentido. Se são sempre os primeiros a disparar onde é fácil ou consensual, também são mestres a esperar para ver como sopra o vento, em relação a assuntos que lhes possam chispar a pátina. Se amanhã tudo isto ainda não tiver tido o bom gosto de desaparecer e perceberem que afinal há dividendos a ganhar, aí sempre terão sido os primeiros a ter a opinião certa, as soluções, o nível requerido de empatia pela tragédia dos outros. E será sua a indignação mais justa e exemplar acerca do abandono do interior, e da indiferença insuportável das elites, que são sempre os outros, pois claro.

Olhares



Auto-retrato de Carlos Relvas. Percursor de Fernando Lemos?

Senso



Estes planos em que não vemos a crinolina nem o espartilho, e no seu robe lilás Alida Valli mais parece uma musa Pré-Rafaelita em quadro medievalista que uma dama veneziana do século XIX.

Nostalgia

No mesmo dia esta frase do Mark Carney, e Alida Valli que em Senso repete “já não estamos em Veneza, não estamos em Veneza!” tentando acreditar que é tudo uma questão de nostalgia, vista como um erro de paralaxe que se resolve com um passo para o lado. De resto evito o Nostalghia, porque já não sei se o tenho como iluminação ou sintoma, uma insistência já um pouco fútil.

Olhares



René Groebli, da série "The Eye of Love"

Olhares


Ferdinando Scianna para Dolce Gabbana (1987).

Portas da Cidade

Na cidade
biblioteca concreta da
memória, da razão, do negócio
da explicação dos milagres
entra pelos museus
concretização de uma vontade
de listas, catálogos, ordenações
onde se constrói uma navegação
possível e nunca sensata do caos
e a beleza concede
argumentos, consolo,
cumplicidade
irónica e perplexa com
tanta adoração.
Na cidade
domínio do monumento
em que o corpo se sustenta
nos desenhos da calçada
e nos reflexos das montras
em suspensão
de óperas e escapes
de horas de ponta
entra pelas catedrais
onde se transfigura
a loucura culta da interpretação
no ritmo iluminado e repetido
das abóbodas e do canto
e o sagrado (que pertence
antes de mais à alegria do corpo)
encontra a linguagem
da pedra e do pigmento
que repercute
os seus breves clarões.

Patriotismo

 “The would-be assassins, who had been unwise enough to confide their business to a couple of patriotic prostitutes of the Merceria, were immediately arrested”


Para além da companhia aos serões, do conhecimento que chega com o ritmo de uma história contada em frente à lareira por um tio de quem se gosta muito, outra das delícias da História de Veneza do Norwich é seu humor subtil, largado nos momentos certos. Vou sentir falta disto quando acabar.
“Nostalgia is not a strategy”, diz Mark Carney (que andou a estudar os discursos do Obama, especialmente o ritmo das suas pausas). Não tem razão, mas tem toda a razão. Ou tem toda a razão, mas não tem razão nenhuma. Ando a tentar decidir.

O Convento, Manoel de Oliveira

O Convento, Manoel de Oliveira