Portas da Cidade

Na cidade
biblioteca concreta da
memória, da razão, do negócio
da explicação dos milagres
entra pelos museus
concretização de uma vontade
de listas, catálogos, ordenações
onde se constrói uma navegação
possível e nunca sensata do caos
e a beleza concede
argumentos e consolo
irónica e perplexa com
tanta solenidade.
Na cidade, domínio do monumento
em que o corpo se sustenta
nos desenhos da calçada
e nos reflexos das montras
em suspensão
de óperas e escapes
de horas de ponta
entra pelas catedrais
onde se transfigura
a loucura culta da interpretação
no ritmo iluminado e repetido
das abóbodas e do canto
e o sagrado
encontra a linguagem
da pedra e do pigmento
que repercute
os seus breves clarões.

Nostalgia

No mesmo dia esta frase do Mark Carney, e Alida Valli que em Senso repete “já não estamos em Veneza, não estamos em Veneza!” tentando acreditar que é tudo uma questão de nostalgia, vista como um erro de paralaxe que se resolve com um passo para o lado. De resto evito o Nostalghia, porque já não sei se o tenho como iluminação ou sintoma, uma insistência já um pouco fútil.

Patriotismo

 “The would-be assassins, who had been unwise enough to confide their business to a couple of patriotic prostitutes of the Merceria, were immediately arrested”


Para além da companhia aos serões, do conhecimento que chega com o ritmo de uma história contada em frente à lareira por um tio de quem se gosta muito, outra das delícias da História de Veneza do Norwich é seu humor subtil, largado nos momentos certos. Vou sentir falta disto quando acabar.
“Nostalgia is not a strategy”, diz Mark Carney (que andou a estudar os discursos do Obama, especialmente o ritmo das suas pausas). Não tem razão, mas tem toda a razão. Ou tem toda a razão, mas não tem razão nenhuma. Ando a tentar decidir.
“Saio sempre dessa livraria com a mesma dificuldade com que saio de um museu, ou de um templo. Felizmente, em frente, há a melhor gelateria”, diz Bénard da Costa, e como eu o compreendo.

My Rembrandt, Oeke Hoogendijk

My Rembrandt, Oeke Hoogendijk



O filme já teria valido a pena pela descoberta deste quadro, que entra directamente para a lista dos meus favoritos. De resto o mais interessante foi o paralelismo entre as personagens do dinheiro velho, velhos simpáticos e com quem é fácil simpatizar, e cujo entusiasmo e brilho nos olhos, quando falam sobre as obras que têm, é contagiante, e o americano artificial e superficial, que das obras só fala com tiradas superficiais, e que tem mesmo ar de não ver nelas mais que um vanity project. Esses velhos adoráveis europeus que têm as obras fechadas nas suas mansões, esse terrível arrivista americano que faz questão de as ter onde o público lhes tenha acesso. Pois.

Escrita evocativa

“Ainda não conhecia videntes, nem o vitreator de Santa Maria, nem ouvira interromper-se, tão súbita quanto suavemente, a nota aguda da torre de vigia, em memória daquele que, atingido pelas setas dos tártaros, não pôde continuar a avisar do que se ia seguir”

João Bénard da Costa, Crónicas: Imagens Proféticas e Outras, vol. III 

Em Bénard da Costa costumo ligar mais ao conteúdo que à linguagem, já que por norma me parece que ele gosta demasiado de se ver escrevendo — mas que frase. Podia ser o começo de um conto de Borges, cheio de antiguidades e de intuições fantásticas.

Sismógrafos

“No mesmo ano, em França, Max Ophuls filmou outro balouço eterno. Coincidências a mais? Ou filmes e realizadores que são como sismógrafos?”

João Bénard da Costa, Crónicas: Imagens Proféticas e Outras, vol III

Que saudades de escritores, realizadores, artistas que sejam sismógrafos e não padres em homilia ou imbecis inchados.

“Nas palavras do poeta Mario Luzi, aquilo que só no Ocidente definimos como místico, transfigura-se na suprema representação do vasto território comum à iluminação poética e à religiosa.
Ousadamente, Tolentino Mendonça escolheu este livro sobre contos de fadas e tapetes voadores; sobre Masaccio e sobre Carpaccio; sobre William Carlos Williams e sobre John Donne; sobre Borges e sobre Tchekov; sobre Gottfried Benn e sobre Ezra Pound; e rigorosa-mente sobre «o sabor máximo de cada palavra»; para encabeçar uma colecção de escritos teológicos. Saberá compreendê-lo aquele que souber o que é a experiência poética e o que é a experiência religiosa.”


João Bénard da Costa, Crónicas: Imagens Proféticas e Outras, vol III (acerca da publicação de Cristina Campo em Portugal)

“Schiva, umbratile e solitaria”, diz João Bénard da Costa.