sexta-feira, 12 de junho de 2026
Rocamadour
Gosto sempre de aldeias históricas, de Óbidos às aldeias francesas que são todas “a aldeia mais bonita de França.” Já se sabe que são turísticas, o horror. A pressão turística, a kitschificação e o falso típico são uma praga, mas ainda existem lugares que capitalizam o que existe sem fabricar pitoresco para se fazerem artificialmente interessantes. E garanto que Gamla Stan, “a ilha antiga” nessa Estocolmo nórdica, sofisticada e europeíssima, não tem menos tourist traps que estas aldeias-postal. Não gosto de mares de gente nem de lugares reduzidos à caricatura, mas também não gosto do teatro de antipatia contra o bonito e encantador, do atractivo tratado como um crime ou uma falta de gosto. Rocamadour, então.
Cathédrale Saint-Étienne de Cahors
Às vezes quando estou rabujenta ou triste lembro-me destes frescos, ou daqueles na Catedral de Saint-Lizier que também vão passar por aqui, vou buscar estas fotografias, abro-as no tamanho original e fico a passear nesta abóbada. E como acontece com o Tio Patinhas, funciona.
quinta-feira, 11 de junho de 2026
Cahors
Chegámos demasiado cansados a Cahors, num início de Setembro, depois de três viagens de carro de dia inteiro (Madrid - Lisboa, Lisboa - Madrid e Madrid - Cahors) num espaço de sete dias. Também não ajudou que no ano anterior tivéssemos visitado a zona dos Hautes-Pyrénées, impressionante e muito verde, e com a sorte de um bom tempo excepcional. Quando finalmente chegámos, finalmente de férias, a Cahors, pareceu-nos tudo muito seco e sem glória, especialmente com o tempo feio e carregado que nos esperava, e a cidadezinha também não impressionou. Mesmo assim guardo esta memória das margens do rio Lot ao longo da cidade. Gosto muito destas zonas onde a vegetação nas margens de um rio se torna muito densa e mergulha na água sem margens, porque nasce aí um verde-escuro que tem uma qualidade própria de silêncio.
De resto aproveitámos as manhãs de chuva (bem melhores que as tardes cinzentas e abafadas) para descansar. Acordava muito cedo e sentava-me no páteo, abrigada sob o alpendre, a ver chover e a remoer a semana demasiado cheia e um pouco alucinada que precedera estas férias, antes de voltar para a cama mais um bocado. Sabia bem o fresco da chuva na pele, o bule de chá sobre a mesa, o primeiro casaco de malha quente e fofinha e os primeiros sinais de Outono nos carvalhos que rodeavam a casa. Sabia bem também essa indulgência de férias e de França, de comer coisas disparatadas ao pequeno-almoço. Foi o começo da história de amor com o Paris-Brest, com demasiados Paris-Brest, entre demasiados canelés de Bordeaux, e demasiados palets bretons, e é uma sorte ter resistido, mesmo no fim das férias, àquela caixinha gloriosa que tinha 80% chantilly e 20% profiteroles, e olhem que não eram poucos profiteroles. Mas já lá voltamos.
De resto aproveitámos as manhãs de chuva (bem melhores que as tardes cinzentas e abafadas) para descansar. Acordava muito cedo e sentava-me no páteo, abrigada sob o alpendre, a ver chover e a remoer a semana demasiado cheia e um pouco alucinada que precedera estas férias, antes de voltar para a cama mais um bocado. Sabia bem o fresco da chuva na pele, o bule de chá sobre a mesa, o primeiro casaco de malha quente e fofinha e os primeiros sinais de Outono nos carvalhos que rodeavam a casa. Sabia bem também essa indulgência de férias e de França, de comer coisas disparatadas ao pequeno-almoço. Foi o começo da história de amor com o Paris-Brest, com demasiados Paris-Brest, entre demasiados canelés de Bordeaux, e demasiados palets bretons, e é uma sorte ter resistido, mesmo no fim das férias, àquela caixinha gloriosa que tinha 80% chantilly e 20% profiteroles, e olhem que não eram poucos profiteroles. Mas já lá voltamos.
Gesto & silêncio
“O «gesto» que se substitui à palavra como suporte de significação, o silêncio que se sobrepõe ao ruído da linguagem”
João Barrento, na introdução a Parábolas e Fragmentos (colectânea de textos curtos de Kafka)
É sobre a escrita de Kafka mas podia ser sobre outras coisas. Isto, esta primazia do gesto no silêncio.
João Barrento, na introdução a Parábolas e Fragmentos (colectânea de textos curtos de Kafka)
É sobre a escrita de Kafka mas podia ser sobre outras coisas. Isto, esta primazia do gesto no silêncio.
La Sagrada Família
Tenho tantas dúvidas em relação ao espectáculo que se seguiu à bênção da Torre de Jesus Cristo, na Sagrada Família em Barcelona. Tem demasiado de “espectáculo imersivo”, de actuação no intervalo da Super Bowl. E no entanto o momento em que a torre se acende de cima abaixo é realmente bonito, eu emocionei-me, e como nos fazem falta momentos de celebração assim, que não sejam à volta da bola, de performances serôdias sobre coisa nenhuma. Independentemente de tudo o resto e de todas as controvérsias, a Sagrada
Família é um feito da vontade, e da vontade de celebração e de beleza. Diz Kafka, no conto “O Novo Advogado”, que “ninguém, mesmo ninguém, é capaz de conduzir homens até à Índia. Já naquela época as portas da Índia eram inalcançáveis, mas a espada do rei apontava na sua direcção. Hoje, as portas foram deslocadas para outros lugares, mais longe e mais altos; ninguém aponta a direcção”. É verdade que já poucos apontam para alguma coisa há muito tempo, mas hoje é ainda mais trágico porque as portas nunca foram tão acessíveis e conhecidas.
Desculpo a emoçãozinha, em nome da emoção maior e justa que está subjacente. Ainda mais quando me dá uma desculpa para voltar à minha fotografia favorita que lá tirei, no topo de uma das torres. Não perguntem, eu também não sei. O universo atirou-me isto para o colo e eu fotografei e segui, que já havia gente atrás a empurrar.
quarta-feira, 10 de junho de 2026
terça-feira, 9 de junho de 2026
quinta-feira, 4 de junho de 2026
Um visitante
Tenho alguns cartazes de teatro e exposições emoldurados. Há dias mudei três para um lugar onde estão frequentemente na minha linha de visão e percebi que fico muitas vezes com o olhar preso nesta imagem. O poster é notável e fiquei curiosa com este animal, que pensei que fosse uma espécie de pelicano. Chama-se bico-de-sapato, pode chegar a ter um metro e meio de altura e
eu acho que veio de um filme do Miyazaki. O que tenho aqui é muito grande, a sua cabeça roça o tecto, e ouço muitas vezes os seus passos lentos noutras partes da casa. Quando passa pela porta da divisão onde eu estiver olha-me por algum tempo com uma benevolência que o seu aspecto não faria prever e continua as suas deambulações. Às vezes ouve música clássica.
Dedo em riste
“Cette image, intitulée Une bonne famille, avait fait les délices des bourgeois, mais l'affliction des patriotes. Pellerin, d'un ton vexé comme s'il en était l'auteur, répondit que toutes les opinions se valaient; Sénécal protesta. L'art devait exclusivement viser à la moralisation des masses! Il ne fallait reproduire que des sujets poussant aux actions vertueuses; les autres étaient nuisibles.
— Mais ça dépend de l'exécution! cria Pellerin. Je peux faire des chefs-d'œuvre!
— Tant pis pour vous, alors! on n'a pas le droit...
— Comment?
— Non! monsieur, vous n'avez pas le droit de m'intéresser à des choses que je réprouve! Qu'avons-nous besoin de laborieuses bagatelles, dont il est impossible de tirer aucun profit, de ces Vénus, par exemple, avec tous vos paysages? Je ne vois pas là d'enseignement pour le peuple! Montrez-nous ses misères, plutôt! enthousias-mez-nous pour ses sacrifices! Eh!”
Flaubert, L'éducation Sentimentale
A contemporaneidade é antiga, parte 782. Não há nada de novo no dedo em riste, na devoção seminarista à “verdade sociológica” da arte. E aquele “vous n'avez pas le droit de m'intéresser à des choses que je réprouve” diz mais sobre os fundos dessa devoção que muitos tratados.
— Mais ça dépend de l'exécution! cria Pellerin. Je peux faire des chefs-d'œuvre!
— Tant pis pour vous, alors! on n'a pas le droit...
— Comment?
— Non! monsieur, vous n'avez pas le droit de m'intéresser à des choses que je réprouve! Qu'avons-nous besoin de laborieuses bagatelles, dont il est impossible de tirer aucun profit, de ces Vénus, par exemple, avec tous vos paysages? Je ne vois pas là d'enseignement pour le peuple! Montrez-nous ses misères, plutôt! enthousias-mez-nous pour ses sacrifices! Eh!”
Flaubert, L'éducation Sentimentale
A contemporaneidade é antiga, parte 782. Não há nada de novo no dedo em riste, na devoção seminarista à “verdade sociológica” da arte. E aquele “vous n'avez pas le droit de m'intéresser à des choses que je réprouve” diz mais sobre os fundos dessa devoção que muitos tratados.
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