Ermida de Santo Estêvão

 

O sagrado reconhece os seus lugares, mas é também aquilo que se esquiva ou que escolhe aparecer de surpresa — como abrir uma gaveta em busca de tesoura ou fita-cola e encontrar lá dentro um remoinho de vento que veio do deserto. E se aceita os monumentos que lhe construímos, é nos átrios que dorme a sua sesta de gato enquanto nos espera. Gosto muito do interior da capela de Santo Estêvão, que está para lá daquela porta de madeira, mas é na luz e sombra da parede branca e da pedra clara do átrio, no espaço de silêncio que se configura, no ramo de flores simples que alguém deixou no chão e cujo significado desconheço e me comove, que me comovo. Pelas vidraças da porta exterior vemos este átrio de luz que precede a câmara azul do barroco do espírito; no exterior esse mesmo azul imenso e cerebral, de cenho franzido em contemplação e dúvida, rodeia uma arquitectura que é, na capela como no resto da ilha, um grito de alegria mediterrânea plantado no Atlântico.
 

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