Journal d'un curé de campagne


Não é preciso ter fé para saber o que é uma crise de fé, que é tantas vezes uma crise da alegria, uma incapacidade para a alegria, e uma falência da fé no mundo. Ou nas pessoas, e na possibilidade da compaixão.

Gostava de falar de Seraphita, que merecia um filme só seu, e ainda bem que ninguém o fez, que catástrofe seria abrir assim essa vida interior que Bresson conta com perfeição sem mancha em três golpes. E penso muito no alcoolismo herdado do jovem padre e no que isso diz da pobreza sórdida, do que ela tem de herança difícil de sacudir dos ossos como do coração. Mas também no que pode ter de desculpa para falências pessoais, a que nos agarramos com o alívio de uma razão para a desistência.

O Nostalghia do Tarkovsky também é trespassado de tragédia (a de se precisar de um lugar que nos aniquilaria se cedessemos à tentação de regressar; a de Domenico), mas aí ainda há uma luta pela manutenção de alguma coisa. Será exagerado chamar alegria a essa coisa, ou sequer esperança; mas mesmo a loucura de Domenico é feita de uma vontade desesperada de salvação, que é mais tarde assumida por Andrei.
Essa luta pela manutenção é a ausência mais gritante no Journal: nem o jovem padre de Ambicourt está em posição de se lembrar de qualquer traço de alegria (e alguma vez esteve? e desconfia dela, nos bailes de aldeia por exemplo, como se desconfia de um estranho que nos causa repulsa), nem o padre de Torcy ou o Dr. Delbende, por muito bem intencionados que sejam, se lembram ou acreditam que valha a pena prescrevê-la. O único vislumbre de alegria e de luta está em Seraphita, no seu gozo a fingir ternura que esconde realmente ternura, na mala atirada ao chão cujo significado talvez nem ela perceba ou esteja interessada em perceber, e que talvez por isso seja dos poucos gestos livres em todo o filme, e na maturidade, forçada pelas circunstâncias, que espantosamente a leva à compaixão e não ao embrutecimento.

Os dois filmes acabam em fracasso, mas enquanto Andrei e Domenico morrem agarrados a uma esperança que é radical e insensata, mas que é ainda um gesto, tentativa de liberdade e de agência, o que aconteceu ao padre de Ambicourt? Deixou-se levar pelo desespero? Não podia ter feito nada? Podia? Escolheu a agência (e o alívio) que pode haver na renúncia? Seria a única que lhe restava? Talvez responder a isto revele ou configure uma escolha. Talvez não haja escolha, pelo menos para alguns. Não sei.

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