sábado, 3 de setembro de 2022

Raízes Imaginárias (II)

Procuro lugares riscados do mapa
ou só uma cidade que exista na fenda,
entre o êxtase ignorante dos turistas
e a burguesia mal escondida
dos donos da poesia que rosnam
aos clientes indignos na Feira do Livro.
Procuro um silêncio de frestas,
do livro pousado no colo
no autocarro para os subúrbios,
da migração necessária
para um lugar um pouco menos errado,
o silêncio do alívio provisório
da poesia imatura aos quarenta
de finalmente ver o mar ao fim de dois
anos e não ser capaz de mergulhar
porque está frio e nublado
e ficar enrolada na toalha, esquecida de ler
porque o mar está frio mas ainda
me embala e não se quebrou
o meu conluio com as gaivotas.

*

O meu corpo não foi riscado do mapa
desde sempre existiu nas fendas
que alegria e morte introduzem no mundo,
o meu corpo desde sempre existiu.
Estendo a mão para as
frestas por onde entra o silêncio
que um dia cobrirá a criação
e por onde não sabemos
se a luz entra ou se extingue.

quinta-feira, 1 de setembro de 2022

Feira do Livro de Lisboa

A poesia passeia pela Feira do Livro mas não se demora. Retira-se em silêncio quando o homem desempregado baixa os olhos de vergonha, na banca da editora intelectual e alternativa cujos livros aparecem bem cotados todos os fins-de-semana nos suplementos culturais dos jornais de boa estirpe, porque demorou tanto tempo e afinal só compra um livro, dividido e humilhado entre os tantos que gostava de levar, enquanto o livreiro chiquemente alternativo o olha com desprezo, como se morar na margem certa e citar Pasolini onde o ouçam fosse razão suficiente para a altivez burguesa com que olha o homem que cheira a Cruz-de-Pau, a callcenter, a Fertagus ou Soflusa. Ou talvez só então apareça, mas não onde a anunciam; segue  no bolso do homem desempregado, nos seus olhos baixos que se iluminam no barco ou no comboio, longe da feira, quando abre o livro novo no colo.