Notícias do reininho

“Isto de não ser o povo português inclinado à violência, intrigava Luís Matias. Ele achava que a realidade era muito diferente. Há uma violência em surdina, que se alimenta de pequenos factos, de permanentes mudanças de humor, de trajectos breves entre o bem e o mal.”

“tinha uma cultura afectiva e que se manifestava pela alteração do humor (...). Todo o dia aconteciam coisas, a intriga crescia entre as pessoas e depois explodia em decisões que pareciam absurdas e eram apenas consequências duma lenta convulsão de sentimentos. Os empregados despediam-se por um motivo aparentemente insignificante, mas havia por dentro dos factos um trajecto de paixões que, insatisfeitas, se traduziam em tentativas de novas experiências e alianças que as prometiam. 
— Ingrato! dizia, atirando os óculos para cima da mesa, Afonso do Barral. Referia-se ao seu caseiro, cujos avós já tinham passado pelas terras com iguais desaforos e combinações de ódio e fidelidade. De repente, tudo mudava. Iam-se os caseiros embora e as filhas despediam-se com lágrimas, esquecendo os favores e os laços de padrinhos e afilhados. E porquê, meu Deus? Dona Lai, Rufino de solteira, clamava pedindo justiça a todos os ventos. Porque a deixavam meninas que ela criara com pão doce e fraldas quentes? Ninguém lhe respondia. Era o mesmo que invectivar os céus silenciosos e as nuvens errantes. A ordem das coisas impunha esse constante movimento de erro e perdão, de variantes feitas à lógica mais comum. A cólera produzia um desfecho que permitia outros negócios da vontade; as pessoas não duravam muito tempo se fossem estáveis na felicidade, justas no juízo, firmes nos objectivos. Pelo menos, o que verificava Luís Matias era que tudo mudava no mundo mais parado que ele conhecia”

Agustina Bessa-Luís, Ordens Menores


Quando descobri Agustina pela primeira vez, foi uma revelação e o tipo de paixão que me levou a ler vários livros dela num período curto. Mas depois de anos sem a ler, tenho tido dificuldade com releituras e livros novos, de tal modo que nem incluí o regresso a “Ordens Menores”, o meu preferido, nas minhas leituras favoritas de 2025. Erro meu, já que me tenho lembrado tanto de tantas passagens deste livro, com tanta insistência, nos últimos dias.

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