Apesar de não haver voyeurismo na intenção há sempre um certo prazer de transgressão ao entrar pela primeira vez numa casa abandonada, a antecipação perante os tesouros escondidos aos menos atentos que posso estar prestes a descobrir e revelar, eu própria feita arquitecta nas ruínas, trave-mestra da sua transfiguração em algo que tenha novamente significado.
Esse prazer desvanece-se no segundo em que os pés trespassam o umbral de uma casa que seja nossa. O primeiro impacto não é o de um silêncio sagrado por se pisar o chão das raízes, não é o assombro - é apenas a desolação das paredes inúteis, das madeiras podres e do lixo profanador.
Fotografar as ruínas de uma casa, colar-me às suas paredes, é uma maneira de fazer memória, tentativa de dar voz às paredes feitas inúteis e silenciosas pela decadência e pelo esquecimento. Há, isso admito-o, alguma vaidade, o prazer de ser agente dessa pequena ressureição, nem que seja numa ontologia de ruínas, do que já só tem existência por oposição ao que já foi e não voltará a ser.
Mas isso não atenua o sentimento de culpa e profanação ao fotografar a casa onde a minha mãe e os seus muitos irmãos e irmãs nasceram e viveram, que testemunhou a vida amarga e séria da minha avó, a história da minha família, pela parte do meu avô materno, por pelo menos quatro gerações. Há pouco consolo em saber que as fotografias que tirei encontram desta vez o seu destinatário e têm a possibilidade de fazer memória e honrar uma história e quem a viveu e vive, inclusivamente eu. E é impossível sacudir a sensação de que estas imagens, mais que quaisquer outras que já tirei, ficam muito aquém do testemunho que pretendem ser, do silêncio, solenidade e carinho que gostaria de lhes imprimir. É verdade que tive muito pouco tempo, que estava acompanhada, que o medo de cair pelo soalho podre era muito, e que fotografar a ruína da casa em que a minha mãe nasceu com ela presente foi difícil.
Mas o que me custou mais não foi propriamente a ruína da casa (já anunciada e adivinhada) mas a decadência e falta de amor deixada pelo último inquilino, os restos de comida, as roupas e cobertores a apodrecer como ninhos de ratos, os objectos domésticos deixados para trás como por um fugitivo, o lixo a sair pelos cantos mais sagrados: a cozinha, coração da família numa casa demasiado exígua e vergada ao trabalho para ter sala de estar, e a cantareira, nicho com o cântaro de barro com água fresca e o púcaro de alumínio amolgado, acarinhados e usados até na época da água canalizada e dos frigoríficos.
Quero esvaziá-la e extirpar-lhe todo o lixo, sacrílego na maneira impertinente com que nos diz que a casa já não nos pertence, mas a esse reino em que as coisas se extinguem sem memória, quando a degradação se torna banal. Custa-me tirar-lhe os últimos vestígios de vida, do quotidiano que faz permanência nos gestos fugazes e nos objectos do dia-a-dia; é como tirar-lhe o coração, condená-la a viver mais tempo (espero que sem a porcaria apodreça um pouco mais devagar), mas naquela espécie de imortalidade que só têm as coisas desprovidas de vida. Mas seja, para que ela se aguente o mais possível. Ainda não perdi a esperança romântica de um dia a recuperar, nem que só reste deitar as ruínas abaixo e reconstruí-la pedra a pedra.


Sem comentários:
Enviar um comentário