“Por que me terei feito representar no meio dos homens, à luz do dia? Parece-me que não tinha nada com isso. Adiante.” Eu faço a mesma pergunta muitas vezes, Beckett.
sexta-feira, 27 de fevereiro de 2026
terça-feira, 24 de fevereiro de 2026
Slava Ukraini
Fotografia de Louisa Gouliamaki, Revolução da Dignidade, 20 de Fevereiro de 2014. Mais um ano em que volto a esta imagem como a uma esperança. Slava Ukraini.
segunda-feira, 16 de fevereiro de 2026
Bruegel, O Combate entre o Carnaval e a Quaresma
Ver o "Caçadores na Neve" foi uma emoção maior, porque como acontece com tanta gente, é dos meus quadros favoritos. Mas este quadro é contagiante. Não interessa se o humor e alegria são intencionais ou não; estão lá, e são uma maravilha.
terça-feira, 10 de fevereiro de 2026
Agustina
É provavelmente uma ideia abusiva, até porque estou a inventar auto-biografia onde não tenho razão para a supor, mas pergunto-me se o percurso de Amélia, no final de O Sermão do Fogo, tem alguma coisa que ver com a própria Agustina. É descrito o caminho interior de quem percebe que a facilidade em espreitar o coração dos outros, as motivações e medos escondidos, não é afinal nenhuma via-rápida para a sabedoria, mas pode bem ser uma via-rápida para mesquinhez. E que é preciso aprender a sair do outro lado dessa armadilha: o lado da graça (concedida e aceite), a escolha de um humanismo que prescinde da superioridade moral e do “direito” à mesquinhez e sobranceria que essa capacidade de visão justificaria. Não sei se é a história de uma vocação do olhar até chegar à escrita mas, talvez com algum romantismo, imagino que poderia ser. Seja como for volto sempre àquela frase de Agustina numa entrevista: “Eu não queria o êxito fácil, as opiniões, os favores, agasalho da tertúlia e o calor da insubordinação, dos injustiçados e dos paladinos da razão. Eu só queria escrever, entrar no coração das pessoas e beber-lhes o sangue, avançando sempre, criando enredos e fazendo saltar os personagens das páginas. Há pouca gente que perceba que escrever é uma espécie de danação em que às vezes se tem o encontro com Deus.”
Presciência
“Limitava-se agora a escolher uma clientela rara, de psicopatas e melancólicos, gente minada pelo vício da informação e que fazia até do sofrimento o pânico da ociosidade; gente que parecia de repente espantada da realidade dos seus gestos e mesteres e que vivia a inventar mudanças, no amor, na alegria ou na cultura. Nunca a pequena sala da Brouillard, com os seus lambris de madeira escura e o papel verde-cinza, fora tão frequentada. Mulheres e homens de aparência fria e elegante vinham ali falar-lhe seriamente, não deles próprios, porém dum caso insolúvel e penoso do qual se diziam juízes. E o que era ao mesmo tempo macabro e irrisório era que esse caso não existia naqueles moldes apaixonados, mas era, no entanto, profundamente apetecido no seu hermetismo por aqueles que o narravam e se julgavam seus protagonistas. Eram amores temíveis e obscuros, perseguições quase masoquistas, tremendas alucinações da vontade fraca, impotente, marcada; um homem novo, que desistira da vida monástica, infligia agora nos outros uma espécie de evangelização secular, pois temia ter frustrado a sua carreira, na qual a sensualidade de converter, de guiar alguém, era o que o chamava. Esse desejo indiscriminado de ter adeptos, amigos vencidos, amantes submetidos, exterminava a alma do europeu, que, subitamente, se via no meio duma disponibilidade técnica e moral da qual não sabia o que fazer. A Brouillard estudava esses sintomas e achava uma diferença capital entre tais consulentes e os antigos, que eram gente o mais das vezes empenhada em factos e que acreditava no pecado. Isto dava-lhes uma consciência do mal que era quase sempre factor primordial da sua inteligência. Mas não se podia dizer que esses visitantes de sólida aparência, com algo de estatuário no movimento, eram os mesmos. Eram tão vulneráveis que não resistiam ao mais leve esforço para decidir até entre dois espectáculos, duas mulheres, duas listas; tudo lhes parecia igualmente compensador e indiferente, e, uma vez senhores duma consciência fictícia, artificial consciência que a Brouillard lograva insuflar-lhes por choques sucessivos de privação ou admissão dos sentimentos —, tornavam-se criaturas incorrigíveis e só com um único objectivo: não perder o excitante, o espelho da sua realidade.”
Agustina Bessa-Luís, O Sermão do Fogo
Já em 1962 Agustina fala dos viciados da trepidação. Como sempre, um bom escritor não se torna presciente por tentar prever o futuro mas por se interessar profundamente pelo seu tempo.
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