É provavelmente uma ideia abusiva, até porque estou a inventar auto-biografia onde não tenho razão para a supor, mas pergunto-me se o percurso de Amélia, no final de O Sermão do Fogo, tem alguma coisa que ver com a própria Agustina. É descrito o caminho interior de quem percebe que a facilidade em espreitar o coração dos outros, as motivações e medos escondidos, não é afinal nenhuma via-rápida para a sabedoria, mas pode bem ser uma via-rápida para mesquinhez. E que é preciso aprender a sair do outro lado dessa armadilha: o lado da graça (concedida e aceite), a escolha de um humanismo que prescinde da superioridade moral e do “direito” à mesquinhez e sobranceria que essa capacidade de visão justificaria. Não sei se é a história de uma vocação do olhar até chegar à escrita mas, talvez com algum romantismo, imagino que poderia ser. Seja como for volto sempre àquela frase de Agustina numa entrevista: “Eu não queria o êxito fácil, as opiniões, os favores, agasalho da tertúlia e o calor da insubordinação, dos injustiçados e dos paladinos da razão. Eu só queria escrever, entrar no coração das pessoas e beber-lhes o sangue, avançando sempre, criando enredos e fazendo saltar os personagens das páginas. Há pouca gente que perceba que escrever é uma espécie de danação em que às vezes se tem o encontro com Deus.”
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