terça-feira, 10 de fevereiro de 2026

Presciência

“Limitava-se agora a escolher uma clientela rara, de psicopatas e melancólicos, gente minada pelo vício da informação e que fazia até do sofrimento o pânico da ociosidade; gente que parecia de repente espantada da realidade dos seus gestos e mesteres e que vivia a inventar mudanças, no amor, na alegria ou na cultura. Nunca a pequena sala da Brouillard, com os seus lambris de madeira escura e o papel verde-cinza, fora tão frequentada. Mulheres e homens de aparência fria e elegante vinham ali falar-lhe seriamente, não deles próprios, porém dum caso insolúvel e penoso do qual se diziam juízes. E o que era ao mesmo tempo macabro e irrisório era que esse caso não existia naqueles moldes apaixonados, mas era, no entanto, profundamente apetecido no seu hermetismo por aqueles que o narravam e se julgavam seus protagonistas. Eram amores temíveis e obscuros, perseguições quase masoquistas, tremendas alucinações da vontade fraca, impotente, marcada; um homem novo, que desistira da vida monástica, infligia agora nos outros uma espécie de evangelização secular, pois temia ter frustrado a sua carreira, na qual a sensualidade de converter, de guiar alguém, era o que o chamava. Esse desejo indiscriminado de ter adeptos, amigos vencidos, amantes submetidos, exterminava a alma do europeu, que, subitamente, se via no meio duma disponibilidade técnica e moral da qual não sabia o que fazer. A Brouillard estudava esses sintomas e achava uma diferença capital entre tais consulentes e os antigos, que eram gente o mais das vezes empenhada em factos e que acreditava no pecado. Isto dava-lhes uma consciência do mal que era quase sempre factor primordial da sua inteligência. Mas não se podia dizer que esses visitantes de sólida aparência, com algo de estatuário no movimento, eram os mesmos. Eram tão vulneráveis que não resistiam ao mais leve esforço para decidir até entre dois espectáculos, duas mulheres, duas listas; tudo lhes parecia igualmente compensador e indiferente, e, uma vez senhores duma consciência fictícia, artificial consciência que a Brouillard lograva insuflar-lhes por choques sucessivos de privação ou admissão dos sentimentos —, tornavam-se criaturas incorrigíveis e só com um único objectivo: não perder o excitante, o espelho da sua realidade.”

Agustina Bessa-Luís, O Sermão do Fogo


Já em 1962 Agustina fala dos viciados da trepidação. Como sempre, um bom escritor não se torna presciente por tentar prever o futuro mas por se interessar profundamente pelo seu tempo.

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