Deixei para último o segundo Fermor que li, Tempo de Silêncio, porque foi até agora o que menos me entusiasmou. É um livro simpático, mas talvez por se tratar de um universo que não vejo com exotismo, não foi uma experiência muito memorável. Voltei a lê-lo esta tarde (é muito pequeno, despacha-se num instante) e a impressão manteve-se.
O próprio autor parece ter alguma noção disso, porque na introdução a uma reedição, umas décadas depois da edição original, Fermor admite que talvez tenha escrito o livro no tom errado, e que à data presente talvez o tivesse escrito de outra forma, ou não o tivesse escrito. Não há nada terrivelmente errado no livro, mas há de facto uma incapacidade em se adentrar pelas razões e pelo coração da opção monástica. Curiosamente a introdução, escrita por Karen Armstrong, acaba por oferecer mais luz sobre essas razões e coração, e quase diria que vale a pena ler Tempo de Silêncio, se o tema interessar, para a ler.
O lugar onde essa falha de Fermor fica mais explícita é nesta passagem:
“Um confronto entre campeões de cada lado poderia esclarecer este enigma psicológico. Um grande mandarim da psicanálise devia enfrentar um cardeal perito em teologia, dialéctica e misticismo, que tivesse ingressado no sacro colégio depois de cinquenta anos num mosteiro cisterciense. Infelizmente, as referências dos antagonistas seriam tão diferentes e irreconciliáveis, tão incapazes de comunicação, que o desafio correria o risco de se transformar numa dupla exibição de golpes de boxe no vazio: o psicanalista desferindo golpes assassinos com a repressão da libido e do Id, enquanto o cardeal respondia com a acção de graças e o Paracleto, e reforçava a vantagem recorrendo a Pseudo-Dionísio, o Areopagita”
“Um confronto entre campeões de cada lado poderia esclarecer este enigma psicológico. Um grande mandarim da psicanálise devia enfrentar um cardeal perito em teologia, dialéctica e misticismo, que tivesse ingressado no sacro colégio depois de cinquenta anos num mosteiro cisterciense. Infelizmente, as referências dos antagonistas seriam tão diferentes e irreconciliáveis, tão incapazes de comunicação, que o desafio correria o risco de se transformar numa dupla exibição de golpes de boxe no vazio: o psicanalista desferindo golpes assassinos com a repressão da libido e do Id, enquanto o cardeal respondia com a acção de graças e o Paracleto, e reforçava a vantagem recorrendo a Pseudo-Dionísio, o Areopagita”
E a quem não perceba porque é que a ideia de os monges escolherem um teólogo para explicar e defender a sua opção é completamente disparatada, não sei que dizer. Talvez que façam como eu fiquei com vontade de fazer, e vão procurar antes mais livros de Armstrong. Desconfio que Tongues of Fire: An Anthology of Religious and Poetic Experience, que ela editou, é capaz de ser um bom começo.
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