Dos livros que já li deste escritor, o meu favorito é Tempo de Dádivas. Não falta literatura sobre o tempo imediatamente antes da Segunda Guerra Mundial, que se debruça sobre as causas e prenúncios do que se seguiu. Fermor segue um caminho diferente, e dedica-se a observar o mundo que então desaparecia, a nobreza culta e empobrecida, com uma escrita cuidada com alguma coisa de elegia, e em que é um gosto demorar-se.
Não consigo desligar a memória dessa leitura de uma outra que lhe foi muito próxima: O Mundo: Modo de Usar, de Nicolas Bouvier. Enquanto o tom de Fermor é culto, melancólico e elegíaco, o livro de Bouvier é um daqueles relatos de aventuras que desfaz a pretensão de que turistas são os outros, que cá nós somos é Viajantes. Lê-se o relato de alguém que tem de empurrar um carro avariado estrada acima no meio de um deserto com 40 ºC à sombra, depois de semanas de dificuldades, de tal modo que quando finalmente chega ao topo cai a chorar, e temos de admitir que somos uns meninos, e que dificilmente quereríamos ser outra coisa. O tom em que fala das personagens que encontra pelo caminho também é muito diferente de Fermor, sempre com um humor delicioso, mesmo quando fala de personagens amarguradas. Os dois livros dão uma leitura paralela muito boa, e se quisesse voltar a ler um deles, provavelmente voltava a lê-los ao mesmo tempo.
No ano passado li o meu terceiro Fermor, Roumeli, sobre a Grécia. É um belo livro: pastores transumantes, monges guerreiros, Meteora; Fermor fala sobre esta Grécia com um amor evidente e com um grande dom de contador de histórias, que consegue aproximar tudo do mito e do símbolo. É uma continuação de outro livro sobre a Grécia, Mani, que também quero ler.
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