“Quem escreve é, antes de mais, um leitor,” terá dito Heinrich Böll. Já antes trouxe aqui um princípio possível da escrita e este parece-me outro. Alguém que se deixa fascinar por aquilo que o acto da leitura faz em si e começa a perguntar como é que esses mecanismos funcionam. Debruça-se sobre a escrita nos autores e livros a cujo encantamento não resiste, para perceber aquilo que se passa dentro de si mesmo, e essa atenção acaba por exceder o domínio estrito da leitura. Não sei onde está depois o ponto exacto em que se passa para o lado da escrita, mas acho que é possível que esse salto às vezes se dê. Também é possível que esteja a complicar demasiado e que um escritor seja antes de mais um leitor porque escrever é outra maneira de continuar e aprofundar o fascínio, seja ele o que for para cada um, que está no centro da sua pulsão para a leitura.
Também não sei porque é que algumas pessoas interessadas pelos mecanismos da escrita e da leitura dão o salto para a escrita e outras para a crítica literária. São impulsos diferentes, quase sempre contraditórios, e seria boa ideia encontrar um nome diferente para a crítica literária feita por escritores, porque é essencialmente diferente da “crítica”. Talvez a diferença esteja no osso de tudo isto: que os escritores afinal não criticam enquanto escritores, mas ainda enquanto leitores, e um crítico encartado não. Existem mas são poucos. Harold Bloom é um deles, e é por isso que permanece, apesar de todos os anticorpos que cria: a sua paixão muito exagerada por certos autores, os ângulos cegos em relação a outros, a atitude que alguns consideram snob e demasiado reverente são provas de um leitor apaixonado.
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