Yvette Guilbert



Os retratos de Toulouse-Lautrec conduziram-me a La Goulue, Yvette Guilbert, Aristide Bruant, Valentin le Desossé, mas não conheço as suas biografias a fundo, e sabia pouco sobre Yvette Guilbert. As representações da boémia e do submundo do pintor têm sempre bastante de caricatura, especialmente quando retrata mulheres, mas sabê-lo não me preparou para a surpresa do contraste entre os seus desenhos de Yvette e os retratos feitos por outros artistas. Sabia que ela era conhecida pelas actuações brejeiras e atrevidas, mas não que o seu apelo específico vinha de um contraste tão forte com um ar virginal. Mesmo depois de conhecer mais sobre ela e de ver bastantes fotografias, como conciliar a figura icónica desenhada e repetida por Lautrec, de ar sacana e sabedor, cabelo ralo e aqueles braços enluvados que não devem nada aos braços e ombros nus de Virginie Gautreau, com o retrato de Joseph Granié? É tão palpável, impõe-se tanto, aquele gingar de ancas entre os dois braços de veludo negro e as mãos de estátua profana, que quase vemos o movimento ritmado e ouvimos a canção. Toulouse-Lautrec foi longe de mais com a caricatura, ao perder o contraste que era a força de Yvette? Ou retratou exactamente o que queria retratar, com uma verdade que, como qualquer boa arte, deixa para trás a realidade quando esta se torna lastro inútil? Não sei, mas deu-me uma bela surpresa. E ainda hoje me arrependo de não ter comprado, na loja do museu, o pin das luvas negras de Yvette.


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