“Tal singularidade da experiência está por trás de todos os encontros de Canetti com livros e poetas. Ele absorve as palavras, as frases, as estruturas sintáticas. Elas o absorvem e ele as absorve à medida que elas o absorvem. Então ele as sente em sua plenitude. E começa o mais difícil: ele precisa falar sobre aquilo. Ele próprio precisa formar palavras, frases, estruturas sintáticas em que aquilo que o absorveu pode passar a ser absorvido por outros, pelos seus leitores. Fosse ele crítico ou estudioso de literatura, tudo seria bem mais fácil. O objetivo seria determinado pela expectativa do público e o procedimento garantido pela prática corrente da crítica ou da ciência. Ele poderia seguir suas linguagens e os padrões de argumentação, submeter-se às suas regras da pesquisa e da demonstração. Estaria protegido pela convenção das disciplinas. O ímpar poderia ser aprisionado em sistemas e terminologias convencionados. Estes não estão mais em debate e oferecem ao crítico e ao cientista um acolhimento confortável em seu ofício. Canetti permanece desabrigado.”
Peter von Matt, no posfácio a Sobre os Escritores, de Elias Canetti
Não é só Canetti que permanece desabrigado. São todos os escritores, porque ao contrário dos críticos, quando falam da experiência da leitura fazem-no enquanto leitores; melhor ainda, enquanto escritores-leitores, e é esse o grande valor que nos trazem. No dia em que falem dos livros e do que leram enquanto críticos, é bem possível que não deixem só de ser leitores, mas que deixem também de ser escritores.
O próprio von Matt sabe que a partilha do escritor-leitor é mais valiosa que a do crítico, ainda que o saiba inconscientemente, apesar de si próprio. Quer queira quer não, isso transpira quando diz: “Quando o texto [de Canetti, sobre Büchner] relaciona Büchner com o vento, torna-se reflexão literária enquanto poesia pura. O leitor é tocado pela transformação, isso lhe agrada e ele passa a lidar de outra maneira com o que é dito. Passa agora a sentir enquanto pensa, e pensa melhor.” Ou como disse o próprio Canetti, com uma elegância que obviamente me deixa a mim e a Von Matt a um canto, “a humilde tarefa do poeta, no final de contas, talvez seja a mais importante: o acto de transmitir o que leu”.
Escritores leitores
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