Sou demasiado preciosista com traduções, irrito-me com facilidade. Mas no debate sobre se vale a pena ler más traduções quando são o que se tem, ou sobre aquela ideia de que se não for no original nem vale a pena ler, estou do lado da leitura a todo o custo. Hoje sinto-me justificada:
“To assume that every recombination of elements is necessarily inferior to its original form is to assume that draft nine is necessarily inferior to draft H — for there can only be drafts. The concept of the "definitive text" corresponds only to religion or exhaustion.
The superstition about the inferiority of translations — coined by the well-known Italian adage — is the result of absentmindedness. There is no good text that does not seem invariable and definitive if we have turned to it a sufficient number of times. Hume identified the habitual idea of causality with that of temporal succession. Thus a good film, seen a second time, seems even better; we tend to take as necessity that which is no more than repetition. With famous books, the first time is actually the second, for we begin them already knowing them. The prudent common phrase "rereading the classics" is the result of an unwitting truth. I do not know if the statement "In a place in La Mancha, whose name I don't wish to recall, there lived not long ago a nobleman who kept a lance and shield, a grey hound and a skinny old nag" would be considered good by an impartial divinity; I only know that any modification would be sacrilegious and that I cannot conceive of any other beginning for the Quixote. Cervantes, I think,ignored this slight superstition and perhaps never noted that particular paragraph. I, in contrast, can only reject any divergence.”
“To assume that every recombination of elements is necessarily inferior to its original form is to assume that draft nine is necessarily inferior to draft H — for there can only be drafts. The concept of the "definitive text" corresponds only to religion or exhaustion.
The superstition about the inferiority of translations — coined by the well-known Italian adage — is the result of absentmindedness. There is no good text that does not seem invariable and definitive if we have turned to it a sufficient number of times. Hume identified the habitual idea of causality with that of temporal succession. Thus a good film, seen a second time, seems even better; we tend to take as necessity that which is no more than repetition. With famous books, the first time is actually the second, for we begin them already knowing them. The prudent common phrase "rereading the classics" is the result of an unwitting truth. I do not know if the statement "In a place in La Mancha, whose name I don't wish to recall, there lived not long ago a nobleman who kept a lance and shield, a grey hound and a skinny old nag" would be considered good by an impartial divinity; I only know that any modification would be sacrilegious and that I cannot conceive of any other beginning for the Quixote. Cervantes, I think,ignored this slight superstition and perhaps never noted that particular paragraph. I, in contrast, can only reject any divergence.”
Jorge Luis Borges, “The Homeric Versions” (aqui)
Talvez uma das qualidades dos textos literários a que reconhecemos valor, e pelas quais lhes reconhecemos valor, seja a elasticidade: essa resistência que aguenta uma quantidade extraordinária de carga interpretativa (e logo de tradução) sem se perder. Não é a ambiguidade da má literatura, mole e sem carácter, é um centro inamovível que aguenta pressões.
Mas eu sou suspeita, porque esta abordagem de Borges valida as minhas reticências contra uma ideia da literatura que a baseia antes de mais na linguagem, e ainda mais quando a tem como uma vaca sagrada. É porque a rigidez da linguagem enquanto sistema não é o seu centro, que tem resistência. Uma literatura com a linguagem no seu centro parte; uma literatura que tenha outra coisa* no seu centro dobra com os ventos e regressa à sua forma original.
É por isso, aliás, que a poesia é tão difícil de definir e de dominar: para nenhuma outra forma de literatura é tão fundamental que esse centro seja concentrado e definitivo, mas nenhuma outra é tão dependente do formalismo da linguagem, nenhuma pôs sobre ela tanto peso. A poesia é a forma literária mais concentrada e no entanto aquela está sempre mais perto de se partir.
*Quando souber dizer o quê de forma justa, ou mais provável, quando encontrar o escritor que já o disse muito melhor que eu, aviso.
Mas eu sou suspeita, porque esta abordagem de Borges valida as minhas reticências contra uma ideia da literatura que a baseia antes de mais na linguagem, e ainda mais quando a tem como uma vaca sagrada. É porque a rigidez da linguagem enquanto sistema não é o seu centro, que tem resistência. Uma literatura com a linguagem no seu centro parte; uma literatura que tenha outra coisa* no seu centro dobra com os ventos e regressa à sua forma original.
É por isso, aliás, que a poesia é tão difícil de definir e de dominar: para nenhuma outra forma de literatura é tão fundamental que esse centro seja concentrado e definitivo, mas nenhuma outra é tão dependente do formalismo da linguagem, nenhuma pôs sobre ela tanto peso. A poesia é a forma literária mais concentrada e no entanto aquela está sempre mais perto de se partir.
*Quando souber dizer o quê de forma justa, ou mais provável, quando encontrar o escritor que já o disse muito melhor que eu, aviso.
Desculpas antecipadas pelo extenso comentário. É que este post desafiou-me, fiquei a cismar em frenesim.
ResponderEliminarTexto admirável esse de Borges. E concordo consigo , Inês, no essencial, eu li a 'Ilha do Tesouro' traduzida e é um dos meus livros mais amados, quero lá saber se bem ou mal traduzido... e as 'Alices' de Carroll, também, essas que têm um requinte máximo no uso da língua e ganham 300% em ser lidas no original. É verdade que as grandes grandes obras de literatura - Odisseia, 20 000 Léguas Submarinas, Anna Karenina, O Jogo das Contas de Vidro, Vagabonds, Colette, A Invenção de Morel, O Golpe de Misericórdia, O Deserto dos Tártaros, Os Infinitos - valem pelo imaginário que criam em nós para sempre, mais do que pela qualidade estritamente literária, ao contrário dos Saramagos. Mas Borges - e logo Borges ! - não, não, a sua escrita sofisticada é tão valiosa como a narrativa, o imaginário, o génio evocativo. A prosa de Borges é poético-filosófica, justamente, como a de John Banville, e portanto, se a Inês quiser, sempre em risco de se partir (eu discordo).
Actualmente há dois extremos: a literatura ligeira ou de aeroporto, tipo Dan Brown ou Kate Atkinson, que é dobrável mas não parte, e também não presta. E a escrita refinada, requintada, criativa, que pode dar imenso gosto ler - os 'artífices da língua' como Ferrante, Erpenbeck, Olga Tokarczuk, Lobo Antunes - mas depressa se esquecem por falta de força ficcional, são 'chatos'. John Barnes in between, Banville o último génio absoluto.
Recentemente, foi 'Orkney' de Amy Sackville que me deu um imenso prazer ler pela prosa imaginativa, trabalhada, costurada, mas ao serviço de uma ... história, sim, uma história ! Com emoção e evocação, personagens intensos e instáveis, incoerências. Como antigamente. E não me sairá mais da lembrança.
Não peça desculpa, se não quisesse gerar conversas as minhas notas ficavam no caderno :)
EliminarNão sei se temos opiniões assim tão divergentes. Não é por nada que uma das citações que mais gostei de aqui trazer foi esta da Agustina:
«Uma das primeiras coisas que impressiona num romance é realmente o bem escrito. E o bem escrito deriva de um carácter; se uma pessoa é autoritária imediatamente quer escrever bem. E essa autoridade transmite-se ao leitor, sem dúvida nenhuma. O escritor denuncia essa autoridade no escrever bem, exige de si próprio escrever bem, e ao mesmo tempo intima a aceitarem esse bem escrito.»
É este "bem escrito" que geralmente me convence que estou perante textos extraordinários, quase mais que o conteúdo ou a história; é no entrosamento perfeito entre escrita / prosa e conteúdo (como em Borges), de tal modo que é difícil destrinçar as duas coisas, que está o génio na escrita. Percebo que pode parecer contraditório com o que disse no meu post, mas para mim não é. O meu problema é com uma ideia virtuosa e vazia de "A Linguagem", que me faz pensar em arabescos virtuosos e vazios de quem tanto prazer em se ver manipular a forma com mestria que escurece ou esquece o conteúdo, ou com "exercícios de escrita" de quem acha que se pode aprender a "Escrever" (sempre assim pensado com maiúsculas e frémito) num curso de escrita criativa; não me importa se é um membro venerável do OuLiPo, ou uma escritora medíocre muito querida por um NYT qualquer, que acha que papaguear um Joseph Brodsky que nunca leu (e que até acha que devia ser "cancelado") e dizer que "sempre esteve muito em casa n'A Linguagem" lhe dá uma legitimidade pré-estabelecida, que pode substituir e poupá-la ao único juízo que interessa - o estético.
A escrita em si, a qualidade da prosa, importa mesmo muito; mas o "escrever bem" Agustiniano, capaz de se impôr com autoridade junto do leitor, não vem porque Borges ou Agustina estão ao serviço d'A Linguagem, mas porque a linguagem está ao serviço do que os levou a escrever: uma ideia, uma personagem, uma imagem, uma intuição de qualquer coisa que só vêem com clareza quando pegam na caneta para o perceber, o que for. A escrita excepcional nasce de uma fidelidade obsessiva ao que fez pegar na caneta, e que não se satisfaz com menos que o melhor que o escritor consiga, que o obriga a superar-se para fazer justiça a isso. Para mim é essa a autoridade da boa prosa.
Concordo que a prosa de Borges é "poético-filosófica", mas que um texto seja poético não faz dele poesia, que é uma coisa muito específica. Essa sim está sempre em perigo de ruir. A qualidade poética (eu costumo chamar-lhe evocativa, mas acho que estamos a falar da mesma coisa) de Borges, dos seus textos não, nunca, concordo consigo. Mas não parte exactamente porque são textos escritos por quem seguiu as suas paixões com tanta obsessão e dedicação que virou a linguagem sem pudores as vezes que foi preciso até chegar à boa forma, e isso não se consegue com pinças nem com Linguagem com maiúsculas.
(E agora sou eu que tenho de pedir desculpas pela resposta pouco económica e muito trapalhona, mas ainda está para nascer o dia em que eu saiba fazer isto de outra maneira.)
Tanta verborreia e ainda me esqueci de dizer que gostei muito da sua catalogação de alguns escritores recentes, com a qual concordo bastante. Especialmente com os "artífices da língua", acerca dos quais creio que estamos a dizer coisas não muito diferentes. Talvez incluísse na mesma categoria algum do Sebald. De quem gosto muito, de quem quero sempre gostar muito, que é um gosto acompanhar enquanto se lê, mas em que acho sempre que faltou qualquer coisa quando acabo de ler. Excepto no Austerlitz, onde se realizou completamente, e que deixa tudo o que escreveu antes (pelo menos do que já li) para trás, por muito.
EliminarMuito curto: além d' A Linguagem, há outra tendência de hoje que é a dos 'Afectos'. Os media e os institucionalizados adoram a escrita dos sentimentos intensos, hiperbólicos, sobrepostos ao racional - o maldito racional -, páginas e páginas de confissões íntimas e relacionamentos pessoais e sociais até à exaustão. Pode estar até 'bem' ahah escrito, não cumpre os mínimos. Muitos latinos neste pacote.
ResponderEliminarEssa então ainda é pior, sem dúvida. De uma mediocridade constrangedora. Americanos e ingleses fortíssimos nessa onda também.
Eliminar"A escrita excepcional nasce de uma fidelidade obsessiva ao que fez pegar na caneta", pronto está tudo dito, e a Inês diz como ninguém, nada trapalhona não senhora. Não deixa de ser necessário que haja capacidade para transmitir essa fidelidade obsessiva de modo não, digamos, enfim, convencional. Não quer dizer que nãp pode haver obra prima em escrita convencional, linear, pontuada, escorreita, etc, pode sim. O que me pode levar a uma ligeira, ligeiríssima discordância consigo - é mais contraponto que discordância - é que eu aprecio e valorizo muito que essa escrita não seja convencional, mas sim única, pessoal, surpreendente, por outra palavras - intraduzível !! Lá estamos nós na poesia. Gosto de prosa quebrável, Inês. Absolva-me.
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