“A maioria dos místicos não é percebida como poetas — diferentemente do que ocorre com os persas. Eles falam mais de animais e também de meninos. Sua caligrafia é mais entrelaçada, seu exagero mais terreno, suas parábolas são cálidas como o hálito dos amantes e, ao mesmo tempo, ilimitadas como a vida cotidiana. Falta-lhes a cordura de uma existência monacal. Sente-se que são andarilhos e que silenciaram muito e que começaram a falar com paixão, subitamente, depois de um longo silêncio. São sábios, porém sua dicção é exuberante. Eles balbuciam e falam de uma maneira maravilhosa. Têm algo de acrobatas.”
Elias Canetti, Sobre os Escritores
Esta passagem faz-me querer ser um bocadinho Persa. E a Grécia, Roma, o Cristianismo, o Judaísmo, claro, mas às vezes acho que nos esquecemos demasiado da influência da Pérsia, e de toda a Mesopotâmia e do Médio Oriente, na história que depois nos fez. Por coincidência, no mesmo dia em que comentava isto com alguém, leio esta passagem na introdução de Frederico Lourenço à sua tradução da Odisseia.
“No entanto, esta figura a quem nós atribuímos o estatuto de homem grego por excelência começa por nem sequer ter um nome grego: Odusseus pertence ao número de palavras gregas que, no seu sufixo, revelam uma origem pré-helénica. Como se não bastasse o nome de Odisseu não ser originalmente grego, muita da sua história proveio de paragens do mundo semítico. Em The East Face of Helicon (Oxford, 1997), Martin West ofereceu uma análise comparativa entre o enredo da Odisseia e narrativas épicas do Próximo Oriente, aduzindo semelhanças curiosas entre a epopeia grega e textos hititas, sumérios e acádicos. Também no seu comentário à Odisseia, Roger Dawe aponta, a propósito de diversos passos, pontos de contacto sugestivos entre o texto homérico e as suas possíveis matrizes orientais.”
Elias Canetti, Sobre os Escritores
Esta passagem faz-me querer ser um bocadinho Persa. E a Grécia, Roma, o Cristianismo, o Judaísmo, claro, mas às vezes acho que nos esquecemos demasiado da influência da Pérsia, e de toda a Mesopotâmia e do Médio Oriente, na história que depois nos fez. Por coincidência, no mesmo dia em que comentava isto com alguém, leio esta passagem na introdução de Frederico Lourenço à sua tradução da Odisseia.
“No entanto, esta figura a quem nós atribuímos o estatuto de homem grego por excelência começa por nem sequer ter um nome grego: Odusseus pertence ao número de palavras gregas que, no seu sufixo, revelam uma origem pré-helénica. Como se não bastasse o nome de Odisseu não ser originalmente grego, muita da sua história proveio de paragens do mundo semítico. Em The East Face of Helicon (Oxford, 1997), Martin West ofereceu uma análise comparativa entre o enredo da Odisseia e narrativas épicas do Próximo Oriente, aduzindo semelhanças curiosas entre a epopeia grega e textos hititas, sumérios e acádicos. Também no seu comentário à Odisseia, Roger Dawe aponta, a propósito de diversos passos, pontos de contacto sugestivos entre o texto homérico e as suas possíveis matrizes orientais.”
Traduções da Odisseia há muitas, e de grandes estudiosos, interpretações de filósofos também proliferam, essa dica de Lourenço é uma entre muitas. Só o tema do "retorno à casa paterna" é recorrente, mas todas as grandes civilizações tiveram a sua narrativa fundadora, é natural que haja muitos pontos de contacto se são povos próximos; histórias fundadoras chinesas ou sul-americanas são radicalmente diferentes.
ResponderEliminarO nome, Odysséus, pode ter origens ancestrais indo-europeias, mas é só um nome. Porque o tipo de herói manhoso e vingativo, a aventura guerreira de Tróia (histórica) e os episódios de Calypso e Polifemo (fantasiosos) são totalmente exclusivos da Odisseia, não estão presentes em nenhuma outra narrativa. E sobretudo, o mais importante, a relação com os deuses. Em nenhum outro mito fundador os deuses intervêm com os homens de igual para igual, com os mesmos defeitos e virtudes, conflituando entre eles, cometendo erros grosseiros... não há nada que se compare desde os sumérios ao cristianismo, passando pelas sagas viking.
Por isso não acredito mesmo nada em "semelhanças curiosas entre a epopeia grega e textos hititas, sumérios e acádicos". Que o nome já venha daí, é possível; a narrativa, não.
Já a 'nossa' narrativa bíblica, essa sim pode ter influências orientais. Por exemplo, a gravidez de Maria: num dos mitos Chineses também fica grávida de uma divindade a que será mãe do fundador da Dinastia reinante. Entre os Citas, de crença mais naturalista, é o deus-rio, ou rio-deus, que será pai do Rei dos Citas. Muitas semelhanças certamente se podem descobrir. Agora que a narrativa (não o nome) da Odisseia tenha semelhanças com alguma coisa suméria ou hitita...
Ah, admiro também a civilização persa tanto como a Egípcia ou a Romana.