Confia no texto (I)

Voltei a ouvir duas tolices muito próprias dos reininhos chãos: “há coisas que se não forem lidas até aos dezasseis ou dezoito já não vale a pena ler” e “se não for no original é melhor nem ler”. Queria escrever sobre isto mas só me saem resmunguices genéricas e moralismos pífios sobre tontos que não conseguem apreciar coisas se não lhes puderem pôr barreiras à entrada, inultrapassáveis para a maioria da população, porque se não se sentirem especiais fica-lhes um vazio nervoso que nada cura (muito menos a literatura, assim acessível perde muito o brilho). 
Depois na introdução de Sobre Escritores, uma compilação brasileira de textos de Elias Canetti, a tradutora Kristina Michahelles conta que quando se sentiu assoberbada pelo trabalho e chegou a considerar alguns termos e trechos intraduzíveis, uma amiga, tradutora experiente, disse-lhe: “Confia no texto”. É isto, na elegância de três palavras — na elegância do texto. 

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