Olhares



Auto-retrato de Carlos Relvas. Percursor de Fernando Lemos?

Senso



Estes planos em que não vemos a crinolina nem o espartilho, e no seu robe lilás Alida Valli mais parece uma musa Pré-Rafaelita em quadro medievalista que uma dama veneziana do século XIX.

Nostalgia

No mesmo dia esta frase do Mark Carney, e Alida Valli que em Senso repete “já não estamos em Veneza, não estamos em Veneza!” tentando acreditar que é tudo uma questão de nostalgia, vista como um erro de paralaxe que se resolve com um passo para o lado. De resto evito o Nostalghia, porque já não sei se o tenho como iluminação ou sintoma, uma insistência já um pouco fútil.

Olhares



René Groebli, da série "The Eye of Love"

Olhares


Ferdinando Scianna para Dolce Gabbana (1987).

Portas da Cidade

Na cidade
biblioteca concreta da
memória, da razão, do negócio
da explicação dos milagres
entra pelos museus
concretização de uma vontade
de listas, catálogos, ordenações
onde se constrói uma navegação
possível e nunca sensata do caos
e a beleza concede
argumentos, consolo,
cumplicidade
irónica e perplexa com
tanta adoração.
Na cidade
domínio do monumento
em que o corpo se sustenta
nos desenhos da calçada
e nos reflexos das montras
em suspensão
de óperas e escapes
de horas de ponta
entra pelas catedrais
onde se transfigura
a loucura culta da interpretação
no ritmo iluminado e repetido
das abóbodas e do canto
e o sagrado (que pertence
antes de mais à alegria do corpo)
encontra a linguagem
da pedra e do pigmento
que repercute
os seus breves clarões.

Patriotismo

 “The would-be assassins, who had been unwise enough to confide their business to a couple of patriotic prostitutes of the Merceria, were immediately arrested”


Para além da companhia aos serões, do conhecimento que chega com o ritmo de uma história contada em frente à lareira por um tio de quem se gosta muito, outra das delícias da História de Veneza do Norwich é seu humor subtil, largado nos momentos certos. Vou sentir falta disto quando acabar.
“Nostalgia is not a strategy”, diz Mark Carney (que andou a estudar os discursos do Obama, especialmente o ritmo das suas pausas). Não tem razão, mas tem toda a razão. Ou tem toda a razão, mas não tem razão nenhuma. Ando a tentar decidir.

O Convento, Manoel de Oliveira

O Convento, Manoel de Oliveira

O Convento, Manoel de Oliveira

“Saio sempre dessa livraria com a mesma dificuldade com que saio de um museu, ou de um templo. Felizmente, em frente, há a melhor gelateria”, diz Bénard da Costa, e como eu o compreendo.

My Rembrandt, Oeke Hoogendijk

My Rembrandt, Oeke Hoogendijk

My Rembrandt, Oeke Hoogendijk



O filme já teria valido a pena pela descoberta deste quadro, que entra directamente para a lista dos meus favoritos. De resto o mais interessante foi o paralelismo entre as personagens do dinheiro velho, velhos simpáticos e com quem é fácil simpatizar, e cujo entusiasmo e brilho nos olhos, quando falam sobre as obras que têm, é contagiante, e o americano artificial e superficial, que das obras só fala com tiradas superficiais, e que tem mesmo ar de não ver nelas mais que um vanity project. Esses velhos adoráveis europeus que têm as obras fechadas nas suas mansões, esse terrível arrivista americano que faz questão de as ter onde o público lhes tenha acesso. Pois.

Escrita evocativa

“Ainda não conhecia videntes, nem o vitreator de Santa Maria, nem ouvira interromper-se, tão súbita quanto suavemente, a nota aguda da torre de vigia, em memória daquele que, atingido pelas setas dos tártaros, não pôde continuar a avisar do que se ia seguir”

João Bénard da Costa, Crónicas: Imagens Proféticas e Outras, vol. III 

Em Bénard da Costa costumo ligar mais ao conteúdo que à linguagem, já que por norma me parece que ele gosta demasiado de se ver escrevendo — mas que frase. Podia ser o começo de um conto de Borges, cheio de antiguidades e de intuições fantásticas.

Sismógrafos

“No mesmo ano, em França, Max Ophuls filmou outro balouço eterno. Coincidências a mais? Ou filmes e realizadores que são como sismógrafos?”

João Bénard da Costa, Crónicas: Imagens Proféticas e Outras, vol III

Que saudades de escritores, realizadores, artistas que sejam sismógrafos e não padres em homilia ou imbecis inchados.

“Nas palavras do poeta Mario Luzi, aquilo que só no Ocidente definimos como místico, transfigura-se na suprema representação do vasto território comum à iluminação poética e à religiosa.
Ousadamente, Tolentino Mendonça escolheu este livro sobre contos de fadas e tapetes voadores; sobre Masaccio e sobre Carpaccio; sobre William Carlos Williams e sobre John Donne; sobre Borges e sobre Tchekov; sobre Gottfried Benn e sobre Ezra Pound; e rigorosa-mente sobre «o sabor máximo de cada palavra»; para encabeçar uma colecção de escritos teológicos. Saberá compreendê-lo aquele que souber o que é a experiência poética e o que é a experiência religiosa.”


João Bénard da Costa, Crónicas: Imagens Proféticas e Outras, vol III (acerca da publicação de Cristina Campo em Portugal)

“Schiva, umbratile e solitaria”, diz João Bénard da Costa, acerca de Cristina Campo.

Pérsia

Ainda não é desta, pois não, meu pobre Irão, valente, nobre e abandonado? Guardo esta imagem, como guardo outra semelhante da Ucrânia. E espero, como esperamos todos, sabendo o que esperamos, mas não como lá chegar.


Notícias do reininho

“Isto de não ser o povo português inclinado à violência, intrigava Luís Matias. Ele achava que a realidade era muito diferente. Há uma violência em surdina, que se alimenta de pequenos factos, de permanentes mudanças de humor, de trajectos breves entre o bem e o mal.”

“tinha uma cultura afectiva e que se manifestava pela alteração do humor (...). Todo o dia aconteciam coisas, a intriga crescia entre as pessoas e depois explodia em decisões que pareciam absurdas e eram apenas consequências duma lenta convulsão de sentimentos. Os empregados despediam-se por um motivo aparentemente insignificante, mas havia por dentro dos factos um trajecto de paixões que, insatisfeitas, se traduziam em tentativas de novas experiências e alianças que as prometiam. 
— Ingrato! dizia, atirando os óculos para cima da mesa, Afonso do Barral. Referia-se ao seu caseiro, cujos avós já tinham passado pelas terras com iguais desaforos e combinações de ódio e fidelidade. De repente, tudo mudava. Iam-se os caseiros embora e as filhas despediam-se com lágrimas, esquecendo os favores e os laços de padrinhos e afilhados. E porquê, meu Deus? Dona Lai, Rufino de solteira, clamava pedindo justiça a todos os ventos. Porque a deixavam meninas que ela criara com pão doce e fraldas quentes? Ninguém lhe respondia. Era o mesmo que invectivar os céus silenciosos e as nuvens errantes. A ordem das coisas impunha esse constante movimento de erro e perdão, de variantes feitas à lógica mais comum. A cólera produzia um desfecho que permitia outros negócios da vontade; as pessoas não duravam muito tempo se fossem estáveis na felicidade, justas no juízo, firmes nos objectivos. Pelo menos, o que verificava Luís Matias era que tudo mudava no mundo mais parado que ele conhecia”

Agustina Bessa-Luís, Ordens Menores


Quando descobri Agustina pela primeira vez, foi uma revelação e o tipo de paixão que me levou a ler vários livros dela num período curto. Mas depois de anos sem a ler, tenho tido dificuldade com releituras e livros novos, de tal modo que nem incluí o regresso a “Ordens Menores”, o meu preferido, nas minhas leituras favoritas de 2025. Erro meu, já que me tenho lembrado tanto de tantas passagens deste livro, com tanta insistência, nos últimos dias.

Journal d'un curé de campagne


Não é preciso ter fé para saber o que é uma crise de fé, que é tantas vezes uma crise da alegria, uma incapacidade para a alegria, e uma falência da fé no mundo. Ou nas pessoas, e na possibilidade da compaixão.

Gostava de falar de Seraphita, que merecia um filme só seu, e ainda bem que ninguém o fez, que catástrofe seria abrir assim essa vida interior que Bresson conta com perfeição sem mancha em três golpes. E penso muito no alcoolismo herdado do jovem padre e no que isso diz da pobreza sórdida, do que ela tem de herança difícil de sacudir dos ossos como do coração. Mas também no que pode ter de desculpa para falências pessoais, a que nos agarramos com o alívio de uma razão para a desistência.

O Nostalghia do Tarkovsky também é trespassado de tragédia (a de se precisar de um lugar que nos aniquilaria se cedessemos à tentação de regressar; a de Domenico), mas aí ainda há uma luta pela manutenção de alguma coisa. Será exagerado chamar alegria a essa coisa, ou sequer esperança; mas mesmo a loucura de Domenico é feita de uma vontade desesperada de salvação, que é mais tarde assumida por Andrei.
Essa luta pela manutenção é a ausência mais gritante no Journal: nem o jovem padre de Ambicourt está em posição de se lembrar de qualquer traço de alegria (e alguma vez esteve? e desconfia dela, nos bailes de aldeia por exemplo, como se desconfia de um estranho que nos causa repulsa), nem o padre de Torcy ou o Dr. Delbende, por muito bem intencionados que sejam, se lembram ou acreditam que valha a pena prescrevê-la. O único vislumbre de alegria e de luta está em Seraphita, no seu gozo a fingir ternura que esconde realmente ternura, na mala atirada ao chão cujo significado talvez nem ela perceba ou esteja interessada em perceber, e que talvez por isso seja dos poucos gestos livres em todo o filme, e na maturidade, forçada pelas circunstâncias, que espantosamente a leva à compaixão e não ao embrutecimento.

Os dois filmes acabam em fracasso, mas enquanto Andrei e Domenico morrem agarrados a uma esperança que é radical e insensata, mas que é ainda um gesto, tentativa de liberdade e de agência, o que aconteceu ao padre de Ambicourt? Deixou-se levar pelo desespero? Não podia ter feito nada? Podia? Escolheu a agência (e o alívio) que pode haver na renúncia? Seria a única que lhe restava? Talvez responder a isto revele ou configure uma escolha. Talvez não haja escolha, pelo menos para alguns. Não sei.

Eram o tipo de pessoa culta e sofisticada que tem o bom gosto de ter tudo o que é importante lido, visto e visitado desde os dezasseis, e todas as relações lhes sabiam a pouco até se descobrirem um ao outro. Foi tão grande o entusiasmo, o brilho nos olhos, o orgulho da perfeição assim reforçada, até perceberem que não tinham nada, absolutamente nada, que pudessem descobrir a dois.
“Se te apetecia podias ter pedido o último gomo da laranja”, diz ele, generoso como sempre. Respondo-lhe que faz parte da minha filosofia de vida que nunca se fica com o último bocado de comida de outra pessoa, a não ser que seja oferecido por vontade espontânea, sem qualquer tipo de pressão explícita ou implícita ou sentido constrangido de obrigação, ou quando a falta de interesse no resto do prato não deixa sinal de dúvida possível. Ele diz-me que sempre fui muito séria com a comida. Digo que não sou séria, sou Walseriana
Tem graça, saiu bem, mas depois admito que imagino Walser exactamente como o tipo de pessoa que se deliciaria a roubar a minha última batata frita. Mas continuo a dizer que não sou séria com a comida. Sou só uma lambareira com príncipios.

Buddies

O Tempo di Viaggio tem tanta coisa boa, mas do que mais gostei foi aquela dinâmica inesperada de “buddy movie”, com Tarkovsky no papel de “straight man” e Tonino Guerra no de “funny man”. Uma pequena maravilha.

Transumância

Diz Austerlitz no romance de Sebald: 

“...there is something illusionistic and illusory about the relationship of time and space as we experience it in travelling, which is why whenever we come home from elsewhere we never feel quite sure if we have really been abroad”. 

Austerlitz
é dos meus livros favoritos, mas eu funciono de maneira quase oposta e quando venho de viagem é o mundo do regresso que me parece irreal, e essa sensação mantém-se por muito tempo. Não sei, aliás, se algumas vez desaparece ou se só se acalma; e para o conseguir tenho de me pôr em movimento outra vez nos dias seguintes, uma errância de uma tarde pelas ruas da cidade mais próxima, uma caminhada pela serra, algum tempo junto ao mar quando ele está perto, qualquer coisa que permita uma travagem suave. Neste assunto vou mais pelo Tarkovsy em Tempo di Viaggio: 

“The things that I saw yesterday seem as if I saw them a week ago. About our journey that was a month ago, I feel as if it was just a moment ago.”


(Lembrei-me do Tempo di Viaggio por causa da Teresa.)
 


O Cavalo de Turim de Béla Tarr e Perfil de Ancião de D. Carlos I.
That fall from grace
Knocked me on my knees
Don't tell anyone
That's what I wanted
The God of change
Knocked me on my knees
Don't tell anyone
That's what I wanted


Pontiac 87, Protomartyr

Manhã

Esta coluna de chuva que, vinda do horizonte, toma o mar, é irmã das colunas de fogo do Antigo Testamento. Sobre o areal as nuvens abrem. O mar ruge, indiferente a tudo, consumido por perguntas sem resposta, como um filósofo com insónias que não sossegaram com a chegada da manhã.

Ermida de Santo Estêvão


Creio que o sagrado reconhece os lugares que lhe constroem, mas é também aquilo que se esquiva ou que escolhe aparecer de surpresa. E se imagino que, tal como eu, goste da câmara azul do barroco que está para lá da porta interior de madeira, acho que é neste átrio de paredes brancas e pedra clara que dorme a sua sesta de gato enquanto nos espera; e é nas sombras e luz que aí se configuram, no ramo de flores simples que alguém deixou no chão e cujo significado desconheço e me comove, que me comovo. No interior da ermida a luz guarda o azul trabalhado. No exterior é o azul, de cenho franzido em contemplação e dúvida, que rodeia uma arquitectura, na capela como no resto da ilha, que é um grito de alegria mediterrânea plantado no Atlântico.

Journey of the Magi

A cold coming we had of it,
Just the worst time of the year
For a journey, and such a long journey:
The ways deep and the weather sharp,
The very dead of winter.’
And the camels galled, sore-footed, refractory,
Lying down in the melting snow.
There were times we regretted
The summer palaces on slopes, the terraces,
And the silken girls bringing sherbet.
Then the camel men cursing and grumbling
And running away, and wanting their liquor and women,
And the night-fires going out, and the lack of shelters,
And the cities hostile and the towns unfriendly
And the villages dirty and charging high prices:
A hard time we had of it.
At the end we preferred to travel all night,
Sleeping in snatches,
With the voices singing in our ears, saying
That this was all folly.

Then at dawn we came down to a temperate valley,
Wet, below the snow line, smelling of vegetation;
With a running stream and a water-mill beating the darkness,
And three trees on the low sky,
And an old white horse galloped away in the meadow.
Then we came to a tavern with vine-leaves over the lintel,
Six hands at an open door dicing for pieces of silver,
And feet kicking the empty wine-skins,
But there was no information, and so we continued
And arrived at evening, not a moment too soon
Finding the place; it was (you may say) satisfactory.

All this was a long time ago, I remember,
And I would do it again, but set down
This set down
This: were we led all that way for
Birth or Death? There was a Birth, certainly,
We had evidence and no doubt. I had seen birth and death,
But had thought they were different; this Birth was
Hard and bitter agony for us, like Death, our death.
We returned to our places, these Kingdoms,
But no longer at ease here, in the old dispensation,
With an alien people clutching their gods.
I should be glad of another death.

T. S. Eliot

Fanny e Alexander



Este Natal decidi ver um episódio de Fanny e Alexander por noite até à Consoada. Foi uma boa decisão. É um conto de fadas que nunca se afasta do fantasma do mal, mas foi a coisa certa para aqueles dias. Porque há formas de lidar com essa presença que não passam nem pela desistência nem pelo vício da indignação. A manutenção da alegria, em que insisto tanto, também é isto: parar perante imagens e rostos que nos falam, guardar silêncio, deixar espaço para o maravilhamento.

O cerco / a leitora




"I would have waited six months and then read books, letters, slept in blankets and have been my own archaeologist for this lost bit of civilization – this attic ghost"

Francesca Woodman

O cerco / a leitora



Como um viajante retido num cerco.
“I remarked that sitting there amidst her papers she resembled the angel in Dürer's Melancholia, steadfast among the instruments of destruction”

W. G. Sebald, The Rings of Saturn