Attic

"I would have waited six months and then read books, letters, slept in blankets and have been my own archaeologist for this lost bit of civilization – this attic ghost"

Francesca Woodman, nos seus diários

Inverno

Aguardo
o trabalho impessoal das neves
o silêncio que desloca
a consciência para fora de si
como uma mochila demasiado pesada
que se deixa cair dos ombros com alívio.
Num lugar alto da montanha
onde um riacho vindo dos picos
se cruza com a curva da estrada
vi amoras ainda vermelhas sobre a neve ⁠
ajoelhei-me no manto branco temporão
sob o qual ainda se distinguia
a manta morta do Outono
e agradeci ao Anjo que veio para me derrotar.

Raízes Imaginárias (II)

Procuro lugares riscados do mapa
ou só uma cidade que exista nas fendas
entre o êxtase ignorante dos turistas
e a burguesia mal escondida
dos donos da poesia que rosnam
aos clientes indignos na Feira do Livro.
Procuro um silêncio de frestas,
do livro pousado no colo
no autocarro para os subúrbios,
da migração necessária
para um lugar um pouco menos errado,
o silêncio do alívio provisório,
da poesia imatura aos quarenta.
De finalmente ver o mar ao fim de dois
anos e não ser capaz de mergulhar
porque está frio e nublado
e ficar enrolada na toalha, esquecida de ler
porque o mar está frio mas ainda
me embala e não se quebrou
o meu conluio com as gaivotas.
*
O meu corpo não foi riscado do mapa
desde sempre existiu nas fendas
que alegria e morte introduzem no mundo
o meu corpo desde sempre existiu.
Toco a fenda que se abre ao silêncio
e por onde não sabemos
se a luz entra ou se extingue.

Feira do Livro de Lisboa

A poesia passeia pela Feira do Livro mas não se demora. Retira-se em silêncio quando o homem desempregado baixa os olhos de vergonha, na banca da editora intelectual e alternativa cujos livros aparecem bem cotados todos os fins-de-semana nos suplementos culturais dos jornais de boa estirpe, porque demorou tanto tempo e afinal só compra um livro, dividido e humilhado entre os tantos que gostava de levar, enquanto o livreiro chiquemente alternativo o olha com desprezo, como se morar na margem certa e citar Pasolini onde o ouçam fosse razão suficiente para a altivez burguesa com que olha o homem que cheira a Cruz-de-Pau, a callcenter, a Fertagus ou Soflusa. Ou talvez só então a poesia apareça; segue  no bolso do homem desempregado, nos seus olhos baixos que se iluminam no barco ou no comboio, longe da feira, quando abre o livro novo no colo.

Longings

"A hundred archaic longings stupefied me" escrevia a Susan Sontag. A hundred archaic longings are what keeps me alive, digo eu.

Louro, Estrela

Esta noite acordei de um salto, como se acorda dos piores pesadelos. Sonhei que numa acção de reflorestação um bombeiro e eu plantávamos uma árvore muito pequenina, pouco mais que um caule, e que quando a regámos ela imediatamente pegou fogo e ficou em cinzas, antes que tivéssemos tempo para reagir. E é isto, este país é isto.

E depois recomeçar

"Sei Shonagon does not classify, she enumerates and then starts again."

Brief Notes On The Art And Manner Of Arranging One's Books, Georges Perec


É uma das minhas estratégias de sobrevivência mais essenciais, aqui descrita com uma elegância que eu nunca conseguiria, perfeitamente borgiana (borgesiana?...). Enumerar os lugares que amo e depois recomeçar. Tocar todos os objectos que fazem desta casa um abrigo e depois recomeçar. Tirar a mesma fotografia uma vez e outra e outra e outra e outra, "mas tu não fotografaste já isso?" e depois recomeçar. Ler as mesmas passagens dos  mesmos livros que me consolam e depois recomeçar. Passar pela mesma ruela, entrar sempre na mesma livraria, parar sempre na mesma montra, e depois recomeçar. 
Há nas pessoas que nomeiam e reiteram, se forem todas como eu, sempre um ligeiro toque de febre, de pânico de que as coisas se desfaçam se não as convocarmos incessantemente. Ou dito de maneira mais justa: há sempre um ligeiro toque de febre, de pânico de que nos desfaçamos se não convocarmos incessantemente as coisas que nos sustentam. Não foi por nada que Calvino previu também a cidade de Thekla: "If you ask "Why is Thekla's construction taking such a long time?" the inhabitants continue hoisting sacks, lowering leaded strings, moving long brushes up and down, as they answer "So that its destruction cannot begin." And if asked whether they fear that, once the scaffoldings are removed, the city may begin to crumble and fall to pieces, they add hastily, in a whisper, "Not only the city."

Cidade

A cidade como uma forma de efabulação análoga à dos auto-retratos, enquanto cenário que se presta ao "como se alguém assistisse", propiciado pelo acto de caminhar. Escolhemos como nos apresentamos e como nos vemos, quando escolhemos por que ruas iremos, os lugares onde paramos, os que ignoramos, o que trazemos para casa num bloco de notas ou de desenho ou na máquina fotográfica ou na cabeça. E os edifícios, as árvores, as pedras da calçada, são geralmente testemunhas de uma infinita boa-vontade, e ouvintes de primeira água.

Monja apócrifa

“Mas ainda gostas da Bíblia, dos Evangelhos, da Liturgia das Horas, disso tudo, Inês?”
“Claro. Foram, afinal, a minha introdução ao poder consolador da grande literatura.”

Manual de escrita

«passou o tempo e incrustou-se na superfície
até se ir radicando no âmago das coisas. eu não falo

de ter passado o tempo. só falo do que tenho agora ou agora me chega
sem crispações, com corpo, cheiro, som, cor e movimento
e cabe tecnicamente neste lugar de efémeros registos
das coisas que perduram, das que viriam a ser ditas, mesmo delidas num resumo,

dentro de uma sinceridade utilizável, pertinente à escrita, à sua neutralidade talvez impossível.
o resto pode adiar-se, nem com ele se faz a sabedoria,
ou sequer um par de muletas para amparar o real,
ou sequer uma desculpa de peso para os bons sentimentos, as melhores intenções.

o resto não dá sequer para encher um copo de água que nos mate a sede,
nem para a partilha da lua, nem para o sossego da consciência.

há um pequeno jogo medular, uma força própria das coisas que não se apagam»

gouvães: pias recordações (excerto), Vasco Graça Moura

O meu nome é Hadewijch

Haverá lugar mais apropriado para os rasgos do meu verniz vermelho, quando raspo sem querer nas páginas, que nos Contos do Mal Errante?

Monja apócrifa / o meu nome é Hadewijch

"E Escarlate, sempre como um móbil, camada interna protegida por um segredo, ou um silêncio."

Contos do Mal Errante
, Maria Gabriela Llansol

Aurélia de Souza

De Aurélia de Sousa (1866-1922), sobre cuja morte passam hoje cem anos, lembro-me bem da primeira vez que vi aquele auto-retrato (datado de 1900) no Museu de Soares dos Reis, no Porto – um misto de melancolia (é a primeira palavra que me ocorre), tristeza, fragilidade, doença, severidade, abandono e, também, uma aura de beleza que não encontra lugar. Desde aí vivi uma espécie de “mistério de Aurélia de Sousa”: o nascimento no Chile (conservou sempre essa segunda nacionalidade), o seu desejo de independência (talvez esse tenha sido o primeiro passo para viver sozinha o resto da vida, sem vida conjugal conhecida), a forma como os seus retratos capturam o olhar do retratado, os ambientes familiares da sua pintura, uma certa discrição e um gosto controverso pelas formas mais clássicas, o talento enormíssimo, a escolha do Porto e da casa de família para viver, a abertura à fotografia, o modo como recusou favores das academias do seu tempo. Aurélia é uma das grandes presenças da nossa pintura, uma visitação da beleza e uma celebração discreta da solidão. Lembrá-la neste dia é uma obrigação.

Francisco José Viegas, Aurélia de Souza, 100 anos de ausência

Serra do Louro

A Serra do Louro ardeu. A serra dos passeios com os meus pais, das caminhadas de fim de tarde de Verão com a luz mais bonita e dourada, a serra dos burros a que fazia sempre festas, a serra das conversas com os amigos até às tantas da manhã, a serra do café no vale onde passei tardes de Verão a ler as Cosmicómicas do Calvino, e as tardes de Inverno a escrever com um café com natas ou um chá de especiarias, e um gato cor de fumo no colo. A serra onde ia todos os anos, no fim de Janeiro, para ver as primeiras árvores em flor, minhas irmãs. E a lista dos lugares que são casa nunca pára de encolher, sem que nada novo surja no lugar dos lugares que se perdem, nada que possa medrar, que eu tenha a possibilidade de seguir. Estou cansada de perder todos os recantos em que fiz ninhos. Vivo bem sem pessoas. Sem lugares é difícil.

É por mim

«Mas sou eu ainda quem na brisa respira
E é por mim que espera cintilando a maré vasa»


Sophia de Mello Breyner Andersen, 
Há Muito (excerto)

De dentro para dentro

«Sentou-se ali, no seu apartamento, como se estivesse num comboio, sem viajar para lado nenhum, porque não tinha para onde ir, segurando no colo o seu único bem, os álbuns, o humilde arquivo da sua vida.»

O Museu da Rendição Incondicional, Dubravka Ugrešić

Slava Ukraini

“Coimbra, 22 de Maio de 1944 — Combater é, em termos absolutos, uma diminuição. O homem, quer defenda a pátria, quer defenda as ideias, desde que passa os dias aos tiros ao vizinho, mesmo que o vizinho seja o monstro dos monstros, está a perder grandeza. Sempre que por qualquer motivo a razão passou a servir a paixão, houve um apoucamento do espírito, e é difícil que o espírito se salve num processo onde ele entra diminuído. Mas quando numa comunidade alguém endoidece e desata a ferir a torto e a direito, é preciso dominar o possesso de qualquer forma, e a guerra é fatal. Então, embora sabendo que vai empobrecer a sua alma, o homem normal começa a lutar, e só a morte ou o triunfo o podem fazer parar. É trágico, mas é natural. O que é contra todas as leis da vida é ficar ao lado da contenda como espectador. Sendo uma diminuição combater, é uma traição sem nome lavar as mãos do conflito, e passar as horas de binóculo assestado a contemplar a desgraça do alto dum monte. Assim é que nada se salva. Fica-se homem sem qualquer sentido, manequim vestido de gente, coisa que não tem personalidade.”

Miguel Torga, Diários
Na faculdade tive um professor lúcido, desassombrado e com a personagem de misantropo bem ensaiada  — um "difícil" — que numa manhã de sala ainda mais vazia, disse que sempre teve dificuldades com os amigos e colegas da mesma geração; havia qualquer coisa, falhas de comunicação, linguagens diferentes, ressentimentos que ninguém saberia justificar, que impossibilitavam o entendimento. E só depois dos cinquenta as dificuldades se esbateram, e os amigos diziam-lhe, perplexos, que de repente o compreendiam. Já na altura o percebi, e ultimamente tenho-me lembrado muito disto.

Nunca será bastante o incêndio

Não via há três anos a pessoa que, nas amizades, finalmente me ensinou a lição que no fundo sempre soube (quando alguém da tua geração mostra simpatia gratuita por ti, foge). Quando me viu quis dar-me um abraço apertado e ficar com o meu número de telefone. Eu deixei, e no dia seguinte abandonei o país.

paltry & insignificant

"In the countryside I was mostly busy with the construction of a new barn. I managed to build a wonderful barn, 40 sq. metres, with an overhang and the slated roof. Unfortunately no pictures so far to send you.
We had a wonderful time there and I started feeling that I could probably live without the God forsaken and long-abandoned art of cinema. Living like this all my life, on the bank of the river, and writing an endlessly long book which my son would continue writing after my death, and then his son, and so on and on and on...). And living with our own work. We have a vegetable patch 1,500 sq. metres and a small garden.
Here I can’t bear it anymore: futile persuading everybody how important the art of cinema is. I really feel I’m getting closer and closer to the realisation of this idea. What keeps me from it is vanity and regret about my forgotten talent: both feelings paltry and insignificant."


Andrey Tarkovsky em carta para Sergei Parajanov, a 22.1.1976 (visto aqui)

Ler ajudava

"Of course, reading helped a lot - it excited, delighted and tormented me."

Notes From the Underground, Dostoevsky

A casa

A felicidade é fácil
e pertence aos tolos
que falam do infinito
mas não o reconhecem;
nossa é a tarefa
de enxertar a alegria
na matéria dos dias
Dizem que é difícil
viver na imensidão
eu digo que é difícil
contornar o êxtase rigoroso
que teima em permanecer comigo
e me pede a justa taxa
da minha vida,
dedicada ao pão sobre a mesa
ao livro sobre a mesa
ao corpo sobre o musgo
ao corpo no mar.

De dentro para dentro

Caminha para dentro dos cercos
No interior não te faltarão provisões.
Novos vizinhos te darão acolhimento
Mais fiéis do que os amigos
Dias e noites maldizendo-te em silêncio
A proximidade

Encosta-te às vedações para guardares
Com minúcia a dolorosa divisão da paisagem
O para ti e o para além
A solidão infinita de ocupares um lugar

Caminha para dentro
Onde gira a nora e o burro é cego
E os círculos perfeitos.
Não te há-de faltar
A distância.

Daniel Faria

Incêndios, naufrágios e livros

Uma noite sonhei que os meus sublinhados, notas apressadas, bocados náufragos de papel a marcar páginas, tinham desaparecido, e chorei porque os meus livros já não eram meus. Perdi tantas provas de vida, tanto conforto e reconhecimento que tinha acumulado para futuras noites de Inverno, nessa deserção da minha história à minha vida, mas os meus livros choraram comigo, e as suas lágrimas salvaram-me. Reconstruí as notas e os papéis com amor e paciência, ao longo de anos, sobrevivendo à catástrofe no trabalho do reencontro. Ficámos, eu e os meus livros, um pouco mais tristes, um pouco mais velhos, mas sobrevivemos; e eles nem me levaram a mal ter sido eu quem lhes calhou em sorte.

Incêndios, naufrágios e livros

 The Color Of Pomegranates, Sergei Parajanov

Incêndios, naufrágios e livros

CANTO NONO

Terá chovido durante cem dias e a água infiltrada
pelas raízes das ervas
chegou à biblioteca banhando as palavras santas
guardadas no convento.

Quando tornou o bom tempo,
Sajat-Novà o frade mais jovem
levou os livros todos por uma escada até ao telhado
e abriu-os ao sol para que o ar quente
enxugasse o papel molhado.

Um mês de boa estação passou
e o frade de joelhos no claustro
esperava dos livros um sinal de vida.
Uma manhã finalmente as páginas começaram
a ondular ligeiras no sopro do vento
parecia que tinha chegado um enxame aos telhados
e ele chorava porque os livros falavam.

Tonino Guerra, in "O Mel" assírio & alvim, 2003

Incêndios, naufrágios e livros


"After the Blitz in 1941, there was considerable water damage to the Museum’s library collection. The library had taken a direct hit and the fire that followed meant that many books were damaged by the water used to put it out. These books were spread out in Room 33 (now The Sir Joseph Hotung Gallery) to dry and every available bit of space was used." (aqui)

Nunca será bastante o incêndio

Queimará o monte, o filho, a lenha
A morte, as areias, a viagem
O deserto, a túnica, as estrelas

Nunca será bastante o incêndio

Do sacrifício de Isaac, Daniel Faria

Return to the moon

She said, "I think you're 
Getting too far from your 
Family's house to find it 
You should know if you're 
Running away and I touch you 
You freeze"

"Return To The Moon", El Vy

*

A meu favor tenho o teu olhar 
testemunhando por mim 
perante juízes terríveis: 
a morte, os amigos, os inimigos. 

E aqueles que me assaltam 
à noite na solidão do quarto 
refugiam-se em fundos sítios dentro de mim 
quando de manhã o teu olhar ilumina o quarto. 

Protege-me com ele, com o teu olhar, 
dos demónios da noite e das aflições do dia, 
fala em voz alta, não deixes que adormeça, 
afasta de mim o pecado da infelicidade. 

"Completas", Manuel António Pina


Noites

Passo as noites a ouvir os concertos do "Jazz Night in America." Salto de livro em livro sem me concentrar em nenhum, enquanto a pilha aumenta ao lado do sofá. Vejo filmes uns atrás dos outros até muito tarde. Penso que tenho saudades de conversar com as minhas pessoas; penso que não sei se ainda tenho "minhas pessoas"; depois lembro-me de um par de nomes e sorrio. E lembro-me que as migalhas são para os patos.

Partir os ossos

Nada ofende tanto como sairmos da caixinha em que nos puseram. O fenómeno é antigo: pessoas que se encantam comigo porque me acham "pura", "frágil", "bonita." Quando lhes digo que sou só gente, com a minha misantropia, a minha recusa de consensos bonitinhos, a minha rabugice, encaram isso como se encara uma criança pequena que, quanto mais tenta fazer beicinho, mais adorável fica. O que se segue é expectável: quando são obrigados a admitir que não estou disposta a partir os ossos para caber bem na caixinha, ai esta cabra que nos andou a enganar. A uma pessoa má perdoa-se tudo; de uma pessoa que alguém decidiu etiquetar, unilateralmente, como "boa" ou, pior ainda, "bonita", qualquer atitude que não um baixar de olhos humilde e caladinho (caladinho é muito importante) é um crime que só se expia com ostracismo  ou apedrejamento. 

Relíquias

Não temos outras relíquias
que não a fome que não nos matou
e que continua a não nos matar.
Os lugares que amamos
não nos pertencem
e só como vagabundos
(por uma noite, no palheiro)
nos é permitida a entrada.
Casa são os interstícios
e a estrada.