«passou o tempo e incrustou-se na superfície
até se ir radicando no âmago das coisas. eu não falo
de ter passado o tempo. só falo do que tenho agora ou agora me chega
sem crispações, com corpo, cheiro, som, cor e movimento
e cabe tecnicamente neste lugar de efémeros registos
das coisas que perduram, das que viriam a ser ditas, mesmo delidas num resumo,
dentro de uma sinceridade utilizável, pertinente à escrita, à sua neutralidade talvez impossível.
o resto pode adiar-se, nem com ele se faz a sabedoria,
ou sequer um par de muletas para amparar o real,
ou sequer uma desculpa de peso para os bons sentimentos, as melhores intenções.
o resto não dá sequer para encher um copo de água que nos mate a sede,
nem para a partilha da lua, nem para o sossego da consciência.
há um pequeno jogo medular, uma força própria das coisas que não se apagam»
gouvães: pias recordações (excerto), Vasco Graça Moura
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