Misantropia

“Salvo engano, Freud disse da misantropia “um estado psíquico”; no dicionário, encontramos uma chocha “falta de sociabilidade”. Ambas as definições são vistosamente imprecisas, por esconderem o caráter essencialmente ativo da misantropia. A misantropia é um esporte. Nele, duas equipes se confrontam: a do misantropo, constituída por ele mesmo; e a da humanidade, constituída por todas as outras pessoas. O objetivo do misantropo é evitar a humanidade, e o objetivo da humanidade é importuná-lo.” 

Diz-se aqui. É isto, mas com duas notas. A primeira é que em seguida o Luciano compara o exercício da misantropia ao futebol, e eu acho que é um jogo da apanhada ou cabra-cega, que só pode parecer pateta assim brincado entre adultos. A segunda nota tem que ver com um aspecto mal compreendido da misantropia: o pior pesadelo de um misantropo não é a tia-avó demasiado voluntariosa nem o senhor chatinho que quer conversar no autocarro; apostaria mesmo que os misantropos têm mais paciência para eles que a maioria. O pior pesadelo de um misantropo são os histriónicos, os viciados da titilação, os sicofantas, os trolls; os dependentes de atenção que não conseguem conceber que outras pessoas não vivam para isso também. Somos para eles a pior coisa que nos podia acontecer ser, um mistério. Não há devoção que nos seja mais aborrecida, nenhuma tão difícil de sacudir.

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