A corte de fanáticos, crápulas, narcisistas, sicofantas, lunáticos, oportunistas e idiotas úteis, por estes nomes ou por outros, é tão antiga como o mundo, mas por estes dias guardo um desprezo especial para os FOMO whores, sub-espécie de histriónicos para quem a vida real são os restos desinteressantes que acontecem nos intervalos das redes sociais.
O seu vício é a titilação: a trepidação do cheiro a sangue dos outros, a emoção do lado-certo-da-história, o estremecimento do boato, as coceguinhas da catástrofe, seja mundial ou no bairro. Não podem desviar os olhos do écran mais de quinze minutos, porque o seu sonho é serem os primeiros a apanhar o próximo grande assunto e a fazer o comentário certo para os elevar aos píncaros da atenção. Se os fanáticos são, para o bem ou para o mal (para o mal, sempre para o mal), fiéis ao seu lado, os viciados da titilação são cata-ventos que cobrem todas as hipóteses em ondas intermináveis de publicações. E se o que dizem, mesmo quando dizem uma coisa e o seu contrário (e dizem-no quase sempre) tivesse um traço de uma ideia ou convicção, um rasgo de personalidade, mas é claro que não: a sua sabedoria é a da inteligência artificial e do primeiro parágrafo de artigos de Wikipédia, e varia entre banalidades com que é fácil concordar porque nunca saem de generalizações amplas e de consensos mornos (expressos com muita convicção, pois claro) e alucinações de quem nunca desconfia que auto-estima a mais pode ser uma forma de falta de auto-respeito.
Nos assuntos fáceis ou pouco importantes são sempre os primeiros a ter opinião, e sempre peremptória; já nos assuntos que possam chispar-lhes a pátina cultivam a arte de esperar e ver como sopra o vento, antes de declararem que já sabiam a resposta certa enquanto os outros ainda andavam a dormir, e que só não disseram logo para dar ao mundo a oportunidade de os apanhar. São também os grandes difusores de boatos e histerias colectivas e de todas as “fake news” que serão desmentidas nos próximos quinze minutos — quando os encontraremos, naturalmente, a rasgar as vestes de indignação contra essa gente que difunde boatos e parvoíces.
Mais que a audácia da enxurrada de banalidades e das apropriações de ideias, textos ou imagens dos outros que são tão bons que deviam ser seus, admiro a convicção com que acreditam mesmo, assim que carregam em "publicar", que a ideia foi deles, e que é grande, e que os torna importantes. Há muito pior no mundo, mas há dias em que o histrionismo da trepidação leva a medalha da mediocridade reles.
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