Fanny e Alexander



Este Natal decidi ver um episódio de Fanny e Alexander por noite até à Consoada. Foi uma boa decisão. É um conto de fadas que nunca se afasta do fantasma do mal, mas foi a coisa certa para aqueles dias. Porque há formas de lidar com essa presença que não passam nem pela desistência nem pelo vício da indignação. A manutenção da alegria, em que insisto tanto, também é isto: parar perante imagens e rostos que nos falam, guardar silêncio, deixar espaço para o maravilhamento.

O cerco / a leitora




"I would have waited six months and then read books, letters, slept in blankets and have been my own archaeologist for this lost bit of civilization – this attic ghost"

Francesca Woodman

O cerco / a leitora


O cerco.

Portas da cidade

Na cidade
biblioteca concreta da memória,
do negócio, da razão,
da negociação do sagrado,
entra pelos museus
concretização de uma vontade
de listas, catálogos, ordenações,
onde se constrói uma navegação
possível e nunca sensata do caos
e a beleza concede argumentos,
consolo, cumplicidade,
irónica e perplexa perante
a nossa solenidade e adoração.
Na cidade, domínio do monumento
em que o corpo se sustenta
nos desenhos da calçada
e nos reflexos das montras,
em suspensão
de óperas e escapes
de horas de ponta,
entra pelas catedrais
onde o desassossego transfigura
a loucura culta da interpretação
no ritmo repetido e depurado
das abóbadas e do canto
e o sagrado (que pertence
antes de mais à alegria do corpo)
encontra a linguagem
da pedra e do pigmento
que repercute
os seus breves clarões.


Como sempre derivativo, apressado e emocional, e como sempre refém daquela falta de domínio técnico que é a minha praga pessoal. Mas desta vez quase me aproximei do que queria dizer, e por isso, mesmo se o que conta não é a intenção, o que quero que conte não é a intenção, deus me livre de que um dia seja a intenção a contar, ainda assim é uma aproximação, e isso, apesar de tudo, conta.
“I remarked that sitting there amidst her papers she resembled the angel in Dürer's Melancholia, steadfast among the instruments of destruction”

W. G. Sebald, The Rings of Saturn

Realidades

“Writer Mas'ud Zavarzadeh rationalised Alexander's visions as a product of the character being «an artist in the making». Zavarzadeh further noted, «He is involved in the construction of a more genuine and stable reality than the one that surrounds him».”

Artigo da Wikipedia sobre Fanny e Alexander

Ewa Fröling (a Emilie Ekdahl de Fanny e Alexander), aos 72 anos. Rugas e cabelo branco, cabelo desarrumado e comprido contra os preceitos aconselhados a uma senhora séria daquela idade, casaco de cabedal e batom, olhar de frente e sorriso sacana. É aqui que quero chegar, assim os ossos me deixem.

Enseada à noite

 O que faço pela noite dentro na enseada abrigada? Caminho pelo céu pesado de constelações.

Cidades

“A vast metropolis, with glistening spires
With theatres, basilicas adorned;
A scene of light and glory, a dominion”


Samuel Rogers (citado por Norwich em A History of Venice)