domingo, 14 de junho de 2026

Olhar & provar

Leio sobre uma faceta menos conhecida (pelo menos para mim) de David Hockney, a de fotógrafo. Alguém acaba a sua exposição acerca do assunto com o comentário: “distrust any artist who loves gear and lenses more than seeing”. Concordo muito e lembro-me daquele amigo, também fotógrafo amador, que continua convencido que as suas fotografias não o satisfazem porque ainda não foi desta, nem desta, nem desta que acertou com o aparato certo, que conseguiu o orçamento necessário, ou porque ainda não descobriu a regra de composição infalível que produz necessariamente boas fotografias.
O mesmo se aplica à cozinha: nunca confiar num cozinheiro que põe mais fé nos gadgets que na alegria da comida. Gente que acha que sem uma faca japonesa de €600 não se consegue fazer nada, que substituir um ingrediente impossível de encontrar ou caríssimo por uma aproximação é um crime que devia ser punível por lei, que “comida da mãe” é um insulto ou quanto muito uma condescendência que se faz à nostalgia, ou que anda na internet a gritar com desconhecidos porque não respeitaram a autenticidade de um prato que afinal tem, na versão em que o conhecemos, menos de um século e dezenas de variações, nunca será bem-vinda à minha mesa. E não tem que ver com qualquer antipatia contra cozinha tecnicamente intrincada, bem pelo contrário. Mas usar a comida como gatekeeping* é das coisas mais desprezíveis que conheço. E quem não percebe que na cozinha nenhuma traquitana cara, ou Maneira Certa De Fazer As Coisas Porque Um Chef Na Internet Disse Que Era Assim, vale um décimo de uma mão experiente e da capacidade de provar e perceber e adaptar, e que cozinhar enquanto entretém é sobre curiosidade, desafios, resolução de problemas, intuição e generosidade, acima de tudo generosidade, não percebe um chavo de coisa nenhuma, e não é só de comida.

* Como é se diz isto em português?? 

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