Tenho tantas dúvidas em relação ao espectáculo que se seguiu à bênção da Torre de Jesus Cristo, na Sagrada Família em Barcelona. Tem demasiado de “espectáculo imersivo”, de actuação no intervalo da Super Bowl. E no entanto o momento em que a torre se acende de cima abaixo é realmente bonito, eu emocionei-me, e como nos fazem falta momentos de celebração assim, que não sejam à volta da bola, de performances serôdias sobre coisa nenhuma. Independentemente de tudo o resto e de todas as controvérsias, a Sagrada
Família é um feito da vontade, e da vontade de celebração e de beleza. Diz Kafka, no conto “O Novo Advogado”, que “ninguém, mesmo ninguém, é capaz de conduzir homens até à Índia. Já naquela época as portas da Índia eram inalcançáveis, mas a espada do rei apontava na sua direcção. Hoje, as portas foram deslocadas para outros lugares, mais longe e mais altos; ninguém aponta a direcção”. É verdade que já poucos apontam para alguma coisa há muito tempo, mas hoje é ainda mais trágico porque as portas nunca foram tão acessíveis e conhecidas.
Desculpo a emoçãozinha, em nome da emoção maior e justa que está subjacente. Ainda mais quando me dá uma desculpa para voltar à minha fotografia favorita que lá tirei, no topo de uma das torres. Não perguntem, eu também não sei. O universo atirou-me isto para o colo e eu fotografei e segui, que já havia gente atrás a empurrar.
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