O Museu Geológico, em Lisboa, não está só velho, está claramente abandonado, e é pena. Por outro lado isso transforma espaços como este numa espécie de máquinas do tempo, em que o próprio museu, mesmo quando não é arquitectonicamente relevante, acaba por ter uma história para contar. Tendo em conta que o espólio museológico português não é impressionante, seja em que área for, poderia ser interessante assumir este aspecto de "máquinas do tempo" dos nossos pequenos museus, e criar histórias e roteiros à volta disso. Talvez o Museu Geológico não seja impressionante, mas imagino bem um roteiro que una pequenos museus lisboetas, Museu Geológico - Museu da Sociedade de Geografia de Lisboa - Museu Arqueológico do Carmo, por exemplo. Dava pelo menos um belo passeio.
E eu gosto de espaços assim, mesmo quando têm mais pó que visitantes. Gosto da sensação de ter escapado para um interstício entre tempos; de passear sozinha e com vagar sem tropeçar em turistas em modo automático; gosto do ar meio atrapalhado, meio cúmplice entre os poucos visitantes; acho que até gosto do ar vagamente espantado dos funcionários quando alguém aparece.
Gosto que espaços antigo escapem à fúria de actualização que só concebe um diálogo com a contemporaneidade despindo-os de qualquer traço de personalidade, substituindo tudo por uma arquitectura desalmada e mobiliário que parece saído de um escritório de repartição pública numa cave em 1973. Mas também acho que conhecendo a minha pancada pelas coisas antigas, tenho de ter sentido crítico e perguntar se às vezes não corro o risco de romantizar o antigo. A antiguidade não é critério suficiente para elevar o que quer que seja ao estatuto de clássico, e se a novidade por si só não é um valor, a antiguidade também não. E no caso do Museu Geológico é claro que há muito trabalho por fazer para levar o espaço a encontrar os seus visitantes. O Museu da Sociedade de Geografia (que já mostrei aqui, aqui e aqui) lançou-se a esse desafio, e acho que tem condições para ter sucesso.
Ainda assim, onde fica a linha entre o respeito pelo testemunho e o imobilismo? E entre uma voz que faça sentido para o momento presente e a descaracterização? A minha resposta tende a ser intuitiva (eu sei onde fica a linha quando a vejo ultrapassada), e isso não me satisfaz. Mas até ter ideias melhores passeio pelos museus vazios e aceito isto: enquanto estes lugares tiverem um testemunho para dar não precisam de ser reinventados, precisam de ser redescobertos. E de alguém com uma ideia, que os ajude a redescobrir a sua voz.



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