“Don’t you think they’re sincere?” Isabel asked.
“Well, they want to feel earnest,” Mr. Touchett allowed; “but it seems as if they took it out in theories mostly. Their radical views are a kind of amusement; they’ve got to have some amusement, and they might have coarser tastes than that. You see they’re very luxurious, and these progressive ideas are about their biggest luxury. They make them feel moral and yet don’t damage their position. They think a great deal of their position; don’t let one of them ever persuade you he doesn’t, for if you were to proceed on that basis you’d be pulled up very short.”
Henry James, Portrait of a Lady
Mais uma prova de que há poucas coisa que que a Filosofia pense que a Literatura não pense primeiro, de forma mais bela e mais económica. O conceito de "luxury beliefs", por Henry James, em 1881.
Luxury beliefs
In Warsaw
What are you doing here, poet, on the ruins
Of St. John’s Cathedral this sunnyDay in spring?
What are you thinking here, where the wind
Blowing from the Vistula scatters
The red dust of the rubble?
You swore never to be
A ritual mourner.
You swore never to touch
The deep wounds of your nation
So you would not make them holy
With the accursed holiness that pursues
Descendants for many centuries.
But the lament of Antigone
Searching for her brother
Is indeed beyond the power
Of endurance. And the heart
Is a stone in which is enclosed,
Like an insect, the dark love
Of a most unhappy land.
I did not want to love so.
That was not my design.
I did not want to pity so.
That was not my design.
My pen is lighter
Than a hummingbird’s feather. This burden
Is too much for it to bear.
How can I live in this country
Where the foot knocks against
The unburied bones of kin?
I hear voices, see smiles. I cannot
Write anything; five hands
Seize my pen and order me to write
The story of their lives and deaths.
Was I born to become
a ritual mourner?
I want to sing of festivities,
The greenwood into which Shakespeare
Often took me. Leave
To poets a moment of happiness,
Otherwise your world will perish.
It’s madness to live without joy
And to repeat to the dead
Whose part was to be gladness
Of action in thought and in the flesh, singing, feasts
Only the two salvaged words:
Truth and justice.
Czeslaw Milosz
Palimpsesto
Iterações concêntricas da luz:
a noite iluminada por dentro
a prata na superfície do poema
o canto em palimpsesto dos livros.
a noite iluminada por dentro
a prata na superfície do poema
o canto em palimpsesto dos livros.
Vivo num silêncio incompleto, carregado de palavras que não é tempo de dizer. Espero a construção de uma catedral de silêncio perfeito e imenso, que há de inundar tudo e inaugurar a escrita. Até lá procuro a noite à beira da falésia, o ruído do mar sob o Cisne como um barco em que hei-de partir, e as minhas palavras não pertencem aos amigos, aos convivas, mas à escrita concretizada nessas grandes marés. Ou só ao espaço imperfeito e quotidiano onde a escrita se constrói ainda que não se realize. Ainda que fique aí, numa espera de onde só de muito em muito tempo se avistam os outros lugares, será uma realização fulgurante da minha vida, de resto alheia e distraída entre os comensais, sempre demasiado longe do mar que ruge às duas da manhã.
Personagens sem contos
Tinha um aspecto que misturava ar de filha do meio esquecida de nobreza empobrecida, e o ar acossado de alguém que cresceu na miséria sórdida e que nunca consegue livrar-se da sensação de ser uma impostora no meio do mundo civilizado. O seu estilo era a imagem fiel disto: roupa de bom corte e gosto mas muito coçada ou barata; umas botas de boa pele demasiado deformadas pelo uso, uma blusa de corte impecável mas de má qualidade que escondia buracos remendados demasiadas vezes. Mas a sua tragédia era sobretudo visível no peso patético e desesperado de um rosto que se julga desprezível, como se carregasse um pecado ou vergonha inapagável, e que manchava o que poderia ter sido uma presença fulgurante, entre a maquilhagem e cabelo de mulher fatal e a roupa fora do tempo, de uma elegância desusada e quase austera. Tantas mulheres matariam por essa capacidade de impôr uma presença que não dependia da beleza, da sorte na lotaria do rosto, e ela desperdiçava-a em vergonha de existir. Era incompreensível, uma vez que o seu aspecto era uma vitória sua, uma criação nascida do desespero de amor à vida que a atormentava e alimentava. E no entanto não conseguia colher os louros dessa criação que seria, em qualquer outra pessoa, um triunfo da vontade.
Cerco
“Dos cânticos, resta quase nenhuma sonoridade: um monge a escrever no avesso do século.”
Vasco Graça Moura
O que pode uma casa
numa cidade transitória,
num exílio desejado e ressentido?
É um sótão sem tesouros,
um ninho no chão
ou uma torre de astrónomo?
O que pode uma casa
numa cidade passageira
em que se vive como um viajante
retido num cerco?
Passo o tempo em conversa
com fantasmas, guardiões,
escribas no avesso dos séculos;
meço os passos sob a abóbada
estrelada da nossa memória
de cidades e de pó.
O que pode uma casa
numa cidade transitória,
num exílio desejado e ressentido?
É um sótão sem tesouros,
um ninho no chão
ou uma torre de astrónomo?
O que pode uma casa
numa cidade passageira
em que se vive como um viajante
retido num cerco?
Passo o tempo em conversa
com fantasmas, guardiões,
escribas no avesso dos séculos;
meço os passos sob a abóbada
estrelada da nossa memória
de cidades e de pó.
Concêntricos
O poema:
aproximações sucessivas
ao sagrado. um seixo
que perturba várias vezes
a superfície tensa do mistério
e depois se afunda
Igreja de Santa Madalena
Sobe as escadas da igreja velha
solene no centro da cidade
entre turistas e locais irritados
mas não entres.
É no átrio a meio caminho
entre silêncio e eléctricos apinhados,
numa casa de ferramentas comida pela vegetação,
no tanque de pedra de uma casa senhorial
tomada pelo musgo e pela imensidão
nas suas águas verde-escuro
que perturbas com uma pedra
para quebrar o feitiço do sagrado
que avança nas hastes das heras
e te assusta,
que me encontrarás.
solene no centro da cidade
entre turistas e locais irritados
mas não entres.
É no átrio a meio caminho
entre silêncio e eléctricos apinhados,
numa casa de ferramentas comida pela vegetação,
no tanque de pedra de uma casa senhorial
tomada pelo musgo e pela imensidão
nas suas águas verde-escuro
que perturbas com uma pedra
para quebrar o feitiço do sagrado
que avança nas hastes das heras
e te assusta,
que me encontrarás.
Yes, I dream of the Central Line
“I understand how the Underground can become an essential part of the personality. My dreams and memories have always been associated with the Central Line. I was brought up in East Acton, and educated at a school in Ealing Broadway. At various points of my early life I lived at Shepherd’s Bush, Queensway and Notting Hill Gate. When I worked in an office I alighted from the train at Tottenham Court Road and then, at a later date, at Holborn or Chancery Lane. The Central Line was one of the boundaries or lines of my life. Now that I am beyond its reach, I feel free. Yet, like the escaped prisoner yearning for his dungeon, I often dream of the Underground. I dream of lines going to improbable destinations all over the world. I dream of strange encounters on platforms with people I seem to know. I dream of coming up for air and being confronted by a transformed cityscape. I dream of running down passages in search of a platform. I dream of gliding down vast escalators. I dream of crossing the live rails from platform to platform. I dream of standing unsteadily in a carriage as it rattles along. And, yes, I dream of the Central Line.”
Peter Ackroyd, London Under: The Secret History Beneath The Streets
Peter Ackroyd, London Under: The Secret History Beneath The Streets
Que em si depositaram
“foi escutando as invulgares mensagens que Deus em si depositou; a dos instantes, a da poesia, da música, da pintura e a de todas as artes, a dos textos sagrados e a dos sonhos, que no fundo da sua inteligência-coração-memória se interpenetraram, fundiram e puseram em movimento (...). Os símbolos dos sonhos, dos mitos, das imagens arquetípicas foram-se tornando angulares na sua existência”
Introdução a “Crónicas: Imagens Proféticas e Outras” de João Bénard da Costa
As dobras no tempo, as fendas da cidade
“And is not human life in many parts of the earth governed to this day less by time than by the weather, and thus by an unquantifiable dimension which disregards linear regularity, does not progress constantly forward but moves in eddies, is marked by episodes of congestion and irruption, recurs in ever-changing form, and evolves in no one knows what direction? Even in a metropolis ruled by time like London, said Austerlitz, it is still possible to be outside time”
W. G. Sebald, Austerlitz
É possível sem dúvida caminhar nas suas fendas, dobrá-lo como diz Tranströmer, e estar em vários tempos e lugares, a partir de uma dupla ancoragem na memória poética e na atenção ao presente. Não sei muitas coisas, mas se tenho algum truque ou super poder, este é um deles.
W. G. Sebald, Austerlitz
É possível sem dúvida caminhar nas suas fendas, dobrá-lo como diz Tranströmer, e estar em vários tempos e lugares, a partir de uma dupla ancoragem na memória poética e na atenção ao presente. Não sei muitas coisas, mas se tenho algum truque ou super poder, este é um deles.
As dobras do tempo
“Time is not a straight line, it’s more of a labyrinth, and if you press close to the wall at the right place you can hear the hurrying steps and the voices, you can hear yourself walking past on the other side.”
Tomas Tranströmer, from “Answers to Letters”, in The Great Enigma
Tomas Tranströmer, from “Answers to Letters”, in The Great Enigma
Trabalho
Estes são os anos do Labirinto
e do Minotauro
de aprender na sua sombra
o trabalho e a escrita
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