Uma carta no Inverno

Ainda não é Inverno mas não podia haver leitura melhor para o primeiro fim de tarde de Domingo depois da mudança da hora, com o tempo lá fora muito feio e pesado, e sem o alívio da chuva. Sonho com longos passeios de carro por sítios meio desolados mas que ainda assim alimentam, vistos do lado de dentro do carro com música, o céu a abrir um pouco e a dar um pôr-do-sol melhor do que imaginava, enquanto voltamos a casa depois de ver o mar. Aqui não há mar, lareira ou sequer um gato que convidem à melancolia serena com um quase fundo de alegria; mas tenho a companhia dos meus, como o são Vasco Graça Moura e o seu longo poema uma carta no Inverno, com Bizâncio e Yeats a acenar lá do fundo, e o Clifford Brown e o Max Roach em repetição pela tarde dentro.

Bárbaros

Os bárbaros chegaram, Cavafis, mas não os que esperávamos. Tão somente os que merecemos.

Civismo do século XXI

UPSETTING TO ME. WHY ARE YOU SPOUTING NONSENSE ABOUT THE SUBJECT WHEN YOU KNOW NOTHING ABOUT IT, YOU'RE NOT AN EXPERT JUST SHUT UP. WHY ARE YOU NOT TALKING ABOUT THE SUBJECT YOU'RE COMPLICIT YOU SCUM. THAT CELEBRITY NEEDS TO SHUT UP. WHY ISN'T THAT CELEBRITY TALKING ABOUT THIS. OH THEY TOOK THEIR TIME FINALLY SAYING SOMETHING DIDN'T THEY. LOL THEY WERE SO EAGER TO SAY SOMETHING EARLY THAT THEY ONLY SAID BULLSHIT. STOP SPREADING SHIT FROM UNRELIABLE SOURCES CAN'T YOU SEE THEY ARE COMPLICIT WITH THE OTHER SIDE. HOW DARE YOU ACCUSE MY SOURCE OF BEING UNRELIABLE YOU'RE CLEARLY COMPLICIT WITH THE OTHER SIDE. IF YOU'RE NOT CONDEMNING THIS YOU'RE COMPLICIT. OH THAT WAS OUR SIDE ACTUALLY NEVER MIND. THIS IS NOT ABOUT YOU. THIS IS SO UPSETTING TO ME. WHY ARE YOU SPOUTING NONSENSE ABOUT THE SUBJECT WHEN YOU KNOW NOTHING ABOUT IT, YOU'RE NOT AN EXPERT JUST SHUT UP. WHY ARE YOU NOT TALKING ABOUT THE SUBJECT YOU'RE COMPLICIT YOU SCUM. THAT CELEBRITY NEEDS TO SHUT UP. WHY ISN'T THAT CELEBRITY TALKING ABOUT THIS. OH THEY TOOK THEIR TIME FINALLY SAYING SOMETHING DIDN'T THEY. LOL THEY WERE SO EAGER TO SAY SOMETHING EARLY THAT THEY ONLY SAID BULLSHIT. STOP SPREADING SHIT FROM UNRELIABLE SOURCES CAN'T YOU SEE THEY ARE COMPLICIT WITH THE OTHER SIDE. HOW DARE YOU ACCUSE MY SOURCE OF BEING UNRELIABLE YOU'RE CLEARLY COMPLICIT WITH THE OTHER SIDE. IF YOU'RE NOT CONDEMNING THIS YOU'RE COMPLICIT. OH THAT WAS OUR SIDE ACTUALLY NEVER MIND. THIS IS NOT ABOUT YOU. THIS IS SO UPSETTING TO ME. WHY ARE YOU SPOUTING NONSENSE ABOUT THE SUBJECT WHEN YOU KNOW NOTHING ABOUT IT, YOU'RE NOT AN EXPERT JUST SHUT UP. WHY ARE YOU NOT TALKING ABOUT THE SUBJECT YOU'RE COMPLICIT YOU SCUM. THAT CELEBRITY NEEDS TO SHUT UP. WHY ISN'T THAT CELEBRITY TALKING ABOUT THIS. OH THEY TOOK THEIR TIME FINALLY SAYING SOMETHING DIDN'T THEY. LOL THEY WERE SO EAGER TO SAY SOMETHING EARLY THAT THEY ONLY SAID BULLSHIT. STOP SPREADING SHIT FROM UNRELIABLE SOURCES CAN'T YOU SEE THEY ARE COMPLICIT WITH THE OTHER SIDE. HOW DARE YOU ACCUSE MY SOURCE OF BEING UNRELIABLE YOU'RE CLEARLY COMPLICIT WITH THE OTHER SIDE. IF YOU'RE NOT CONDEMNING THIS YOU'RE COMPLICIT. OH THAT WAS OUR SIDE ACTUALLY NEVER MIND. THIS IS NOT ABOUT YOU. THIS IS SO

Gabinete de Curiosidades

Biblioteca da Academia Militar de Lisboa

Gabinete de Curiosidades

Museu de História Natural, Londres | Museu Britânico, Londres

Gabinete de Curiosidades

Biblioteca de Ashurbanipal, Museu Britânico, Londres | Detalhe de pintura do Museu Nacional de Arte Antiga, Lisboa

Gabinete de Curiosidades


Dodós no Museu De História Natural, Londres

Gabinete de curiosidades

Museu Geológico de Lisboa

Gabinete de curiosidades

Museu Geológico de Lisboa

Tom Waits




Tom Waits em Praga, 2008, na digressão "Glitter and Doom" (via Wikipedia).

Zelig




«Who was this Leonard Zelig that seemed to create such diverse impressions everywhere? All that was known of him was that he was the son of a Yiddish actor named Morris Zelig, whose performance as Puck in the Orthodox version of "A Midsummer Night's Dream" was coolly received. The Elder Zelig's second marriage is marked by constant violent quarrelling. So much so that although the family lives over a bowling alley, it is the bowling alley that complains of noise. As a boy, Leonard is frequently bullied by anti-Semites. His parents, who never take his part and blame him for everything, side with the anti-Semites. They punish him often by locking him in a dark closet. When they are really angry, they get into the closet with him. On his deathbed, Morris Zelig tells his son that life is a meaningless nightmare of suffering and the only advice he gives him is to save string.»


(Woody Allen com um toque de Monty Python. Que bom rever esta pérola, especialmente numa altura em que o humor anda tão mal tratado.)

Catedral de Lisboa

Lisboa | Junho 2007

Catedral de Lisboa

Lisboa | Junho 2007

Catedral de Lisboa

Lisboa | Junho 2007

Império (ao Largo de São Carlos)

Lisboa | Março 2007

Filmes de Domingo à noite | The Third Man (1949)



Quando a fotografia é o coração de um filme. E um gato entre os sapatos, uma janela iluminada na noite, e um olhar.

E
contudo
esse mundo de sombras a que também pertenço
existe. Sinto-o. Às vezes
aflora nos meus olhos e
murmura ao vagar dos dedos
palavras, obscuros traços que não entendo, e
a ideia de vir um dia a compreendê-los faz-me
temer. Também tu, eu sei,
ouves as vozes desse mundo
e reconheces que
a viagem para o exacto lugar onde se encontram
começa, começou há muito.


João Miguel Fernandes Jorge, Esse mundo de Sombras

Middlemarch

A maneira como as personagens de Middlemarch são escritas é de partir o coração. De certa maneira são a antítese das personagens dos Irmãos Karamazov; estas, mesmo quando são patéticas ou mesquinhas, são-no em registo "maior que a vida". Já a implosão das personagens de Middlemarch é tão triste, tão desesperadamente sem teatro - "not with a bang but with a whimper". Nunca vi um livro que, no fim, tivesse uma capacidade tão grande de remeter para os nossos próprios falhanços pessoais, sem heroísmo possível, com uma vergonha triste e tímida apenas, afundada.

Fanatismos antigos e novos

 «they are a narrow ignorant set, and do more to make their neighbours uncomfortable than to make them better. Their system is a sort of worldly spiritual cliqueism: they really look on the rest of mankind as a doomed carcase which is to nourish them for heaven.»


George Eliot, Middlemarch

“Mais duras, mais cruéis, mais rigorosas.”

Três Marias, Novas Cartas Portuguesas

 “e tu dizes «que maravilha, que maravilha», como dizes a tudo o que é novo, te abriga e não obriga, «tu de vidro». E tu de vidro e carne nova dás teu espaço à noite e teu passado, tagarelas a entrada, minuetas tuas cercanias nunca próximas de gente, a gente das letras, os desapalavrados disto, os objectos marcados pelo tu deixá-los lá, a tua antiguidade, porque tu és a mais antiga e a mais nova”


Três Marias, Novas Cartas Portuguesas

Cidade

«Lifts rise and fall; trains stop, trains start as regularly as the waves of the sea. This is what has my adhesion. I am a native of this world, I follow its banners. How could I run for shelter when they are so magnificently adventurous, daring, curious, too, and strong enough in the midst of effort to pause and scrawl with a free hand a joke upon the wall? Therefore I will powder my face and redden my lips. I will make the angle of my eyebrows sharper than usual. I will rise to the surface, standing erect with the others in Piccadilly Circus.»

Virginia Woolf, The Waves

Cidade

«The train slows and lengthens, as we approach London, the centre, and my heart draws out too, in fear, in exultation. I am about to meet what? What extraordinary adventure waits me, among these mail vans, these porters, these swarms of people calling taxis? I feel insignificant, lost, but exultant. With a soft shock we stop. I will let the others get out before me. I will sit still one moment before I emerge into that chaos. that tumult. I will not anticipate what is to come. The huge uproar is in my ears. It sounds and resounds under this glass roof like the surge of a sea. We are cast down on the platform with our handbags. We are whirled asunder. My sense of self almost perishes; my contempt. I become drawn in, tossed down, thrown sky-high. I step out on to the platform, grasping tightly all that I possess - one bag.»

Virginia Woolf, The Waves
«I am one person - myself. I do not impersonate Catullus, whom I adore. I am the most slavish of students, with here a dictionary, there a notebook in which I enter curious uses of the past participle. But one cannot go on for ever cutting these ancient inscriptions clearer with a knife. Shall I always draw the red serge curtain close and see my book, laid like a block of marble, pale under the lamp? That would be a glorious life, to addict oneself to perfection; to follow the curve of the sentence wherever it might lead, into deserts, under drifts of sand, regardless of lures, of seductions; to be poor always and unkempt; to be ridiculous in Piccadilly.»

Virginia Woolf, The Waves


Fendas

Somos nós essas fendas por onde entra uma outra cidade, e é por isso que os seus donos precisam tanto de rir tão alto, de forma tão boçal, quando passamos por eles, como se partilhassem uma piada à qual não temos direito, como se essa piada fossemos nós. Tanto medo, meu Deus, em quem só consegue gozar uma coisa se puder pôr uma cancela à entrada, tanto pânico tão mal escondido ao perceberem que não funciona.

Lisboa

Ah, minha pobre e vagamente ridícula Lisboa, que só sabes ser boa para os turistas. Não por culpa tua, mas de quem a viveu e quis de tal maneira que hoje não tem mais que circo para dar, dos burguesinhos que só sabem brincar aos intelectuais e aos alternativos em bolha fechada, e a preferiram vazia e em ruínas que viva e valorizada, se o preço disso era deixá-la acessível à ralé - que chegou, quer eles quisessem, quer não. Ah, minha pobre e vagamente ridícula Lisboa, que só consegues escapar ao circo e à pretensão nas frinchas, nas fendas, que só aí encontras uma ideia de ti mesma que talvez algum dia valesse a pena realizar.

A Biblioteca na Floresta

Na maior parte dos dias tenho preguiça de escrever, mas hoje reencontro um certo silêncio, e não escrevo porque é mais importante respeitá-lo. Além disso é por vezes necessário deixar que a vontade de escrever se acumule até que não o fazer se torne insuportável, esperar que o arco do desassossego se retese até à insustentabilidade. Tem também que ver com a minha natureza de Ent, os meus ciclos absurdamente longos, que nunca perceberam muito bem as regras do tempo e da urgência da escala humana. Eu sou uma Entwife que desapareceu, não para pastorear árvores, mas apenas para me esconder entre elas. E está-se aqui tão bem, deixem-me estar um pouco mais.

De nada nem de ninguém

«O prestígio é uma armadilha dos nossos semelhantes. Um artista consciente saberá que o êxito é prejuízo. Deve-se estar disponível para decepcionar os que confiaram em nós. Decepcionar é garantir o movimento. A confiança dos outros diz-lhes respeito. A nós mesmos diz respeito outra espécie de confiança. A de que somos insubstituíveis na nossa aventura e de que ninguém a fará por nós. De que ela se fará à margem da confiança alheia.»

Herberto Helder, 1964 [em entrevista a Fernando Ribeiro de Mello, via Istmos]

Que lugar

Num dia difícil, quando vivia em Herbais, na Bélgica, Llansol escreve: «Os Capuchos, uma praia, Lisboa, deviam ser do lado de Herbais», e é isto. Um Baleal, um Pergulho, um Malhadal, uma Estrela, Louro ou Lisboa que estivessem para os lados de um outro lugar. Que lugar? Pois.

Setúbal

Há ausências que são companhia, mansas e benignas, de uma maneira que, quando eram presentes, nunca foram; que eram então apenas signos de uma solidão um pouco cruel, de pesos e afogamento inevitáveis sob estruturas um pouco boçais.

De nada nem de ninguém

«Em geral um bom romancista não é contemporâneo de nada nem de ninguém» diz Agustina, sábia no meio dos tolos, ela mesma expressão maior desta verdade.

Autoridade

 «Uma das primeiras coisas que impressiona num romance é realmente o bem escrito. E o bem escrito deriva de um carácter; se uma pessoa é autoritária imediatamente quer escrever bem. E essa autoridade transmite-se ao leitor, sem dúvida nenhuma. O escritor denuncia essa autoridade no escrever bem, exige de si próprio escrever bem, e ao mesmo tempo intima a aceitarem esse bem escrito

Agustina Bessa-Luís (aqui)

Classificar

«...faltava a Louis o espírito metódico de quem classifica», diz o irmão de Aloysius. Certo, mas como alguns bem sabem, classificar ou catalogar pode ser um acto de loucura.

Mester

«Um inventor de passados», diz Aníbal Fernandes acerca de Aloysius Bertrand, na introdução de Gaspar da Noite. É esse o meu mester.

Manual de escrita n.º 245

«...assim me simulei. eu acredito
mas é na técnica. nunca a inspiração
me deu fosse o que fosse. nem um grito.

feito a sanguínea, prefiro-me artesão.
escrevo e rasuro, volto a escrever, repito...»



Vasco Graça Moura, retrato em causa própria

Três

Perder um amor, perder uma amizade, perder um lugar. Assim, por ordem crescente de importância. Sobrevivi à primeira tragédia com ganhos, à segunda com perdas, à terceira