Podia passar dias a analisar as intenções de Jean-Luc Godard em La Chinoise e a tentar perceber, tendo em conta as suas posições políticas e sobre cinema, quanto daquela sátira foi intencional, e quanto é fruto da minha leitura contemporânea e anacrónica.
Mas interessa-me mais a presciência de algumas cenas, como aquela em que a personagem de Léaud elimina escritores e dramaturgos um a um sem piedade, até não sobrar nada a não ser Brecht. Ele que se cuide, porque aqueles que hoje papagueiam novamente chavões de extrema-esquerda cujas implicações estão longe de perceber e que não têm interesse nenhum em viver na pele, ainda só não apagaram Brecht porque não sabem que ele existe (é dar-lhes tempo, não tenho dúvidas que lá chegarão e que as suas razões para o eliminar serão magníficas). Perante cenas como esta, ou passagens como aquela, n'O Homem Sem Qualidades, em que Ulrich finalmente desiste de tentar chegar a algum lado depois de ouvir falar do "génio" de um cavalo de corrida, pergunto-me se isso a que chamamos presciência não será simplesmente o resultado de fazer aquilo de que hoje poucos parecem capazes: perseguir uma ideologia, um movimento, uma ideia até às suas últimas consequências e falar com honestidade acerca do lugar onde isso nos leva.
Godard fez isso aqui. Não sei se o conseguiu a partir da sua ideologia ou porque o cérebro de realizador falou mais alto que o político, independentemente das suas próprias ideias sobre o cruzamento das duas coisas. A pergunta interessa-me, mas fica para outro dia: hoje o filme fala mais alto, e não podia haver melhor elogio ao Godard realizador.


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