Longings

"A hundred archaic longings stupefied me" escrevia a Susan Sontag. A hundred archaic longings are what keeps me alive, digo eu.

Louro, Estrela

Esta noite acordei de um salto, como se acorda dos piores pesadelos. Sonhei que numa acção de reflorestação um bombeiro e eu plantávamos uma árvore muito pequenina, pouco mais que um caule, e que quando a regámos ela imediatamente pegou fogo e ficou em cinzas, antes que tivéssemos tempo para reagir. E é isto, este país é isto.

E depois recomeçar

"Sei Shonagon does not classify, she enumerates and then starts again."

Brief Notes On The Art And Manner Of Arranging One's Books, Georges Perec


É uma das minhas estratégias de sobrevivência mais essenciais, aqui descrita com uma elegância que eu nunca conseguiria, perfeitamente borgiana (borgesiana?...). Enumerar os lugares que amo e depois recomeçar. Tocar todos os objectos que fazem desta casa um abrigo e depois recomeçar. Tirar a mesma fotografia uma vez e outra e outra e outra e outra, "mas tu não fotografaste já isso?" e depois recomeçar. Ler as mesmas passagens dos  mesmos livros que me consolam e depois recomeçar. Passar pela mesma ruela, entrar sempre na mesma livraria, parar sempre na mesma montra, e depois recomeçar. 
Há nas pessoas que nomeiam e reiteram, se forem todas como eu, sempre um ligeiro toque de febre, de pânico de que as coisas se desfaçam se não as convocarmos incessantemente. Ou dito de maneira mais justa: há sempre um ligeiro toque de febre, de pânico de que nos desfaçamos se não convocarmos incessantemente as coisas que nos sustentam. Não foi por nada que Calvino previu também a cidade de Thekla: "If you ask "Why is Thekla's construction taking such a long time?" the inhabitants continue hoisting sacks, lowering leaded strings, moving long brushes up and down, as they answer "So that its destruction cannot begin." And if asked whether they fear that, once the scaffoldings are removed, the city may begin to crumble and fall to pieces, they add hastily, in a whisper, "Not only the city."

Cidade

A cidade como uma forma de efabulação análoga à dos auto-retratos, enquanto cenário que se presta ao "como se alguém assistisse", propiciado pelo acto de caminhar. Escolhemos como nos apresentamos e como nos vemos, quando escolhemos por que ruas iremos, os lugares onde paramos, os que ignoramos, o que trazemos para casa num bloco de notas ou de desenho ou na máquina fotográfica ou na cabeça. E os edifícios, as árvores, as pedras da calçada, são geralmente testemunhas de uma infinita boa-vontade, e ouvintes de primeira água.

Monja apócrifa

“Mas ainda gostas da Bíblia, dos Evangelhos, da Liturgia das Horas, disso tudo, Inês?”
“Claro. Foram, afinal, a minha introdução ao poder consolador da grande literatura.”

Manual de escrita

«passou o tempo e incrustou-se na superfície
até se ir radicando no âmago das coisas. eu não falo

de ter passado o tempo. só falo do que tenho agora ou agora me chega
sem crispações, com corpo, cheiro, som, cor e movimento
e cabe tecnicamente neste lugar de efémeros registos
das coisas que perduram, das que viriam a ser ditas, mesmo delidas num resumo,

dentro de uma sinceridade utilizável, pertinente à escrita, à sua neutralidade talvez impossível.
o resto pode adiar-se, nem com ele se faz a sabedoria,
ou sequer um par de muletas para amparar o real,
ou sequer uma desculpa de peso para os bons sentimentos, as melhores intenções.

o resto não dá sequer para encher um copo de água que nos mate a sede,
nem para a partilha da lua, nem para o sossego da consciência.

há um pequeno jogo medular, uma força própria das coisas que não se apagam»

gouvães: pias recordações (excerto), Vasco Graça Moura

O meu nome é Hadewijch

Haverá lugar mais apropriado para os rasgos do meu verniz vermelho, quando raspo sem querer nas páginas, que nos Contos do Mal Errante?

Monja apócrifa / o meu nome é Hadewijch

"E Escarlate, sempre como um móbil, camada interna protegida por um segredo, ou um silêncio."

Contos do Mal Errante
, Maria Gabriela Llansol