Borgata

“The Italian word borgata derives from borgo, ‘village’, though it has come to mean an area of a city that has spilled into the countryside, neither rural nor urban, but a midway zone of council tenements and meadow scrubland, sometimes blighted by crime.”

Ian Thomson, “Pasolini’s Rome” (Engelsberg Ideas, 2025.11.20)


Não parece uma descrição muito detalhada mas eu reconheço imediatamente, até ao pormenor, o que está a ser descrito. E novamente o penso: para ver o contexto em que nasci merecer tratamento artístico tenho de recorrer aos italianos. Recordo a experiência de ver o Deserto Rosso pela primeira vez: por um lado o murro no estômago, o regresso forçado a um lugar do qual às vezes ainda tenho de fugir, apesar de ter saído há decadas; por outro lado o espanto de lugares como aquele também merecerem o olhar de alguém.
O tipo de lugar que a intelligentsia portuguesa, sempre de povo na boca, se esforça muito para fingir que não existe. Há pobrezas que são nobres, como a do Alentejo, e pobrezas que são uma culpa moral, como a dos Beirões e Alentejanos sem terra perdidos na borgata: essa terra de ninguém tão bem descrita aqui, por um inglês a falar de um italiano para a revista de uma instituição sueca. Esse italiano que a intelligentsia portuguesa ama com amor desmedido, enquanto mantém uma distância higiénica de tudo o que o interessou e comoveu.

Sem comentários:

Enviar um comentário