Fendas

Somos nós essas fendas por onde entra uma outra cidade, e é por isso que os seus donos precisam tanto de rir tão alto, de forma tão boçal, quando passamos por eles, como se partilhassem uma piada à qual não temos direito, como se essa piada fossemos nós. Tanto medo, meu Deus, em quem só consegue gozar uma coisa se puder pôr uma cancela à entrada, tanto pânico tão mal escondido ao perceberem que não funciona.

Lisboa

Ah, minha pobre e vagamente ridícula Lisboa, que só sabes ser boa para os turistas. Não por culpa tua, mas de quem a viveu e quis de tal maneira que hoje não tem mais que circo para dar, dos burguesinhos que só sabem brincar aos intelectuais e aos alternativos em bolha fechada, e a preferiram vazia e em ruínas que viva e valorizada, se o preço disso era deixá-la acessível à ralé - que chegou, quer eles quisessem, quer não. Ah, minha pobre e vagamente ridícula Lisboa, que só consegues escapar ao circo e à pretensão nas frinchas, nas fendas, que só aí encontras uma ideia de ti mesma que talvez algum dia valesse a pena realizar.

A Biblioteca na Floresta

Na maior parte dos dias tenho preguiça de escrever, mas hoje reencontro um certo silêncio, e não escrevo porque é mais importante respeitá-lo. Além disso é por vezes necessário deixar que a vontade de escrever se acumule até que não o fazer se torne insuportável, esperar que o arco do desassossego se retese até à insustentabilidade. Tem também que ver com a minha natureza de Ent, os meus ciclos absurdamente longos, que nunca perceberam muito bem as regras do tempo e da urgência da escala humana. Eu sou uma Entwife que desapareceu, não para pastorear árvores, mas apenas para me esconder entre elas. E está-se aqui tão bem, deixem-me estar um pouco mais.

De nada nem de ninguém

«O prestígio é uma armadilha dos nossos semelhantes. Um artista consciente saberá que o êxito é prejuízo. Deve-se estar disponível para decepcionar os que confiaram em nós. Decepcionar é garantir o movimento. A confiança dos outros diz-lhes respeito. A nós mesmos diz respeito outra espécie de confiança. A de que somos insubstituíveis na nossa aventura e de que ninguém a fará por nós. De que ela se fará à margem da confiança alheia.»

Herberto Helder, 1964 [em entrevista a Fernando Ribeiro de Mello, via Istmos]

Que lugar

Num dia difícil, quando vivia em Herbais, na Bélgica, Llansol escreve: «Os Capuchos, uma praia, Lisboa, deviam ser do lado de Herbais», e é isto. Um Baleal, um Pergulho, um Malhadal, uma Estrela, Louro ou Lisboa que estivessem para os lados de um outro lugar. Que lugar? Pois.

Setúbal

Há ausências que são companhia, mansas e benignas, de uma maneira que, quando eram presentes, nunca foram; que eram então apenas signos de uma solidão um pouco cruel, de pesos e afogamento inevitáveis sob estruturas um pouco boçais.

De nada nem de ninguém

«Em geral um bom romancista não é contemporâneo de nada nem de ninguém» diz Agustina, sábia no meio dos tolos, ela mesma expressão maior desta verdade.

Autoridade

 «Uma das primeiras coisas que impressiona num romance é realmente o bem escrito. E o bem escrito deriva de um carácter; se uma pessoa é autoritária imediatamente quer escrever bem. E essa autoridade transmite-se ao leitor, sem dúvida nenhuma. O escritor denuncia essa autoridade no escrever bem, exige de si próprio escrever bem, e ao mesmo tempo intima a aceitarem esse bem escrito

Agustina Bessa-Luís (aqui)

Classificar

«...faltava a Louis o espírito metódico de quem classifica», diz o irmão de Aloysius. Certo, mas como alguns bem sabem, classificar ou catalogar pode ser um acto de loucura.

Mester

«Um inventor de passados», diz Aníbal Fernandes acerca de Aloysius Bertrand, na introdução de Gaspar da Noite. É esse o meu mester.

Manual de escrita n.º 245

«...assim me simulei. eu acredito
mas é na técnica. nunca a inspiração
me deu fosse o que fosse. nem um grito.

feito a sanguínea, prefiro-me artesão.
escrevo e rasuro, volto a escrever, repito...»



Vasco Graça Moura, retrato em causa própria

Três

Perder um amor, perder uma amizade, perder um lugar. Assim, por ordem crescente de importância. Sobrevivi à primeira tragédia com ganhos, à segunda com perdas, à terceira