Listas, catálogos, ordenações

“Museu Grévin: Cabinet de Mirages. Aí se apresenta a relação entre o templo, estação, Passagens, mercados onde se vende carne putrefacta (fosforescente). A ópera na Passagem. Catacumba na Passagem.”

Walter Benjamin, Passagens de Paris


Lembro-me também do Borges e de “certa enciclopédia chinesa que se intitula "Empório de Conhecimentos Benévolos." Nas suas remotíssimas páginas está escrito que os animais se divididem em: (a) pertencentes ao imperador, (b) embalsamados, (c) amestrados, (d) leitões, (e) sereias, (f) fabulosos, (g) cães vadios, (h) incluídos nesta classificação, (i) que se agitam como loucos, (j) incontáveis, (k) desenhados com um pincel finíssimo de pêlo de camelo, (l), etc..., (m) que acabam de quebrar o jarrão, (n), que ao longe parecem moscas.”
Maravilham-me as enumerações, especialmente as que ligam coisas díspares e estabelecem sentido onde não o imaginávamos. Quanto mais absurda é a linha que liga os elementos, maior é o fascínio. É aí, no facto de que isso não devia funcionar e funciona, nas enumerações que se impõem à revelia do que qualquer ordem reconhecível sanciona, que está a magia. Aceitamos, apesar das nossas esperanças, de forma mais ou menos ressentida, que mesmo nos fundos da imaginação não existe criação a partir do nada, e que o monstro mais sensacional é ainda uma soma de partes reconhecíveis. Gosto das enumerações e catalogações absurdas porque serão talvez do que mais se pode aproximar de uma criação absoluta e livre: são fios que se tecem por teimosia da vontade, sem o menor esforço de criar narrativas justificativas sensatas. O sentido vem sempre depois, e é sempre espantoso, e apanha-nos sempre de surpresa. Não sei se só no absurdo poderá haver este tipo de criação, ou se se trata apenas do poético por outro nome, nem me interessa muito transformar isto numa teoria. Sei apenas que há algo incrível neste ponto em que a vontade de ordenar o universo e a subjectividade mais alucinada se encontram. 

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