Auto-retratos

Monday, March 18, 2019SilverTree
Vieira da Silva (autorretrato, 1932) e uma tonta. 


Que mais poderia eu fazer numa exposição sobre o retrato português que não fingir que também sei jogar este jogo? Sim, podia calar-me, mas por mais adepta que seja do silêncio, vamos ser francos: este dia serviu muito para me lembrar que calar-me não é opção, que ainda não me rendi. Ainda agora reentrei nos labirintos de uma criação que não tenha medo da própria voz; só agora começo a descortinar um caminho em que talvez seja possível equilibrar a minha tendência para ensimesmar (sempre a autobiografia), com o recém-descoberto gosto de pegar naquilo que, no mundo, me deixa perplexa, e tentar escavar até ao osso. Joguemos, então.

Contra o medo do mundo

Sunday, March 17, 2019SilverTree
Não sei se posso dizer em boa justiça que seja tímida, mas sou extremamente reservada. Tenho medo do confronto e da exposição, e lido mal com a minha própria transparência (curiosamente esta é uma experiência que tenho repetidamente: metade do mundo diz-me que sou das pessoas mais fechadas e difíceis de ler que conhece, a outra metade maravilha-se com a minha transparência). No dia a dia isto leva-se, e não inibe a minha curiosidade, a minha sede de mundo; mas nas fases difíceis transforma-se com facilidade numa atitude defensiva, e isso quer dizer que por vezes preciso de um esforço consciente e constante para não hostilizar aquilo que é diferente e que, como tal, é sentido como potencialmente desestabilizante.
Nunca percebi a obsessão com o novo e o diferente, mas também sei que o desprezo pelo diferente - geralmente ancorado ou no medo ou na sobranceria - costuma ser uma via-rápida para a mesquinhez. E por isso dou graças por aquelas pessoas, momentos ou experiências que têm o condão de me dar vontade de pisar terreno desconhecido. Hoje aconteceu-me com mais um Tiny Desk Concert, de uma banda que pertence a uma família de géneros musicais / estilos / estéticas para a qual geralmente tenho pouca paciência, e que acabo por desconsiderar com facilidade. Mas há coisas que são contagiantes e que vão directas ao coração. Quando acabei de ver os Tank and the Bangas, não estava só consideravelmente mais feliz, mas também um bocadinho mais crente na existência de pessoas com o condão - e a vontade - de espalhar felicidade. E isso é um grande antídoto contra o medo do mundo.



Identidade (III)

Monday, March 11, 2019SilverTree
"O estereótipo anestesia a nossa percepção, mas não de um modo frio e desapaixonado. Pelo contrário: quase nada nos produz mais gozo e inflamação do que repetir estereótipos. Reproduzimo-los como se afirmássemos o mais íntimo, o mais profundo ou o mais autêntico do nosso ser. Eles emocionam-nos, inflamam-nos, levam-nos às lágrimas. Há uma verdadeira paixão da repetição, da confirmação, da mimesis, da adesão. É o gozo do reconhecimento e da identidade."
Dar a ver, dar que pensar: contra o domínio do automático | Amador Fernández-Savater (via Bicho Ruim)

Uma nota para mim mesma, para não me levar demasiado a sério nisto, ou nisto.

Identidade (II)

Monday, March 11, 2019SilverTree
"Os códigos nem sempre são conscientes, mas funcionam através de nós: somos vistos, pensados e actuados por eles. Eles implementam-se automaticamente onde não há um trabalho de elaboração própria."

Dar a ver, dar que pensar: contra o domínio do automático | Amador Fernández-Savater (via Bicho Ruim)

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