Sacrifício

Monday, December 10, 2018SilverTree
A necessidade de auto-imolação perante os problemas das pessoas que amamos é dos impulsos mais nobres que temos, mas também dos mais inúteis. É que aquilo que precisamos de fazer para sentir que fizemos alguma coisa raramente coincide com aquilo que a outra pessoa precisa.
Não tentem explicar isto a ninguém. Não resulta, é a última coisa que alguém desesperado para ajudar quer ouvir, e acabamos a ser um exemplo cabal daquilo que estávamos a tentar demonstrar.
É um ciclo vicioso, também no sentido anglo-saxónico do termo, "vicious", cruel: se a pessoa que precisa de se sentir útil abdicasse dessa necessidade, poderia então começar a sê-lo realmente, e dar bom uso à sua ternura. Mas atira-se de cabeça, sofre convictamente e sem admitir qualquer alternativa (empatia não é isto), e no fim fica no chão, escavacado e perplexo, quando descobre que o seu sacrifício não resolveu coisa nenhuma. O espectador, que assiste a tudo isto, tenta quebrar o ciclo, mas o melhor que pode esperar é aperceber-se a tempo de que está a fazer o mesmo e retirar-se, aceitando que ainda está para nascer alguém que consiga evitar que as pessoas se comportem como pessoas. Guarda a sua ternura no saco e espera, sem retirar grande consolo da certeza de que chegará o momento em que essa ternura será realmente necessária - quando for tempo de apanhar os cacos.

(Há dias em que estar viva cansa de maneira mais aguda, e em que gostava de pôr o saco de ternura no fundo do baú e ser capaz de me esquecer dele. Não consigo, e desde os dezanove anos que aprendi a desconfiar tanto do desespero como do impulso para o martírio. Assim, remeto-me mais uma vez para a única receita em que confio: caminho em silêncio com as pessoas que amo; de preferência lado a lado, raramente à frente, às vezes uns passos atrás.)

programa de vida

Monday, October 22, 2018SilverTree
Estive para acrescentar um parêntesis no fim do post anterior que dizia: "um emprego que não me faça aquilo que um ano de callcenter quase conseguiu fazer, acesso regular à natureza, e um par de amigos que a vida não devore, e não pedia mais". E depois pensei que isso provavelmente já seria pedir demasiado. E depois apercebi-me que há dois anos não pensaria que isto seria pedir demasiado.
Esta fase má não é materialmente pior que outras, mas é aquela em que a sensação de que se calhar isto não é uma fase, mas a vida possível, é mais forte. E tenho medo de um dia passar a acreditar nisso. E é uma treta.

programa de vida

Sunday, October 21, 2018SilverTree
"I´ve been slowly wearing away at my ignorance." ("All Souls", Javier Marías)

Já não seria uma má vida.

Apophasis at the All Night Rite Aid

Sunday, October 21, 2018SilverTree
Not wanting to be alone
in the messy cosmology
over which I at this late hour
have too much dominion,
I wander the all-night uptown Rite Aid
where the handsome new pharmacist,
come midnight, shows me to the door
and prescribes the moon,
which has often helped before.

Catherine Barnett, "The Game of Boxes"


(Descobri o poema e a autora no blogue do Mário Gonçalves. É sempre um gosto apanhar boleia nos seus relatos de viagem, e diminuir um pouco a minha ignorância em relação à música clássica.)


Sunday, October 21, 2018SilverTree
Domingo à tarde. Na praça Camões, em Lisboa, decorre uma manifestação contra Bolsonaro. Gente que não desiste de lutar contra a catástrofe, mesmo quando o resultado já parece decidido. À porta de uma loja duas tias, com as madeixas loiras oxigenadas, as unhas de gel, a cara cor-de-laranja, os dentes mais brancos que neve, as pulseiras chocalhantes, filmam o evento com o telemóvel enquanto comentam "Que máximo!!! Giro, não é??? Giríssimo!!".
É muitas coisas: corajoso, provavelmente um bocadinho desesperado, e estranhamente ou não tanto assim, alegre, daquela maneira que os brasileiros sabem ser, mesmo nos piores momentos, e que eu gostava de aprender. É muitas coisas. Mas "giro" não é uma delas.

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