Aurélia de Souza

De Aurélia de Sousa (1866-1922), sobre cuja morte passam hoje cem anos, lembro-me bem da primeira vez que vi aquele auto-retrato (datado de 1900) no Museu de Soares dos Reis, no Porto – um misto de melancolia (é a primeira palavra que me ocorre), tristeza, fragilidade, doença, severidade, abandono e, também, uma aura de beleza que não encontra lugar. Desde aí vivi uma espécie de “mistério de Aurélia de Sousa”: o nascimento no Chile (conservou sempre essa segunda nacionalidade), o seu desejo de independência (talvez esse tenha sido o primeiro passo para viver sozinha o resto da vida, sem vida conjugal conhecida), a forma como os seus retratos capturam o olhar do retratado, os ambientes familiares da sua pintura, uma certa discrição e um gosto controverso pelas formas mais clássicas, o talento enormíssimo, a escolha do Porto e da casa de família para viver, a abertura à fotografia, o modo como recusou favores das academias do seu tempo. Aurélia é uma das grandes presenças da nossa pintura, uma visitação da beleza e uma celebração discreta da solidão. Lembrá-la neste dia é uma obrigação.

Francisco José Viegas, Aurélia de Souza, 100 anos de ausência

Serra do Louro

A Serra do Louro ardeu. A serra dos passeios com os meus pais, das caminhadas de fim de tarde de Verão com a luz mais bonita e dourada, a serra dos burros a que fazia sempre festas, a serra das conversas com os amigos até às tantas da manhã, a serra do café no vale onde passei tardes de Verão a ler as Cosmicómicas do Calvino, e as tardes de Inverno a escrever com um café com natas ou um chá de especiarias, e um gato cor de fumo no colo. A serra onde ia todos os anos, no fim de Janeiro, para ver as primeiras árvores em flor, minhas irmãs. E a lista dos lugares que são casa nunca pára de encolher, sem que nada novo surja no lugar dos lugares que se perdem, nada que possa medrar, que eu tenha a possibilidade de seguir. Estou cansada de perder todos os recantos em que fiz ninhos. Vivo bem sem pessoas. Sem lugares é difícil.