Saturday, May 14, 2016

Cidade

Percorres devagar as ruas de Lisboa, procuras algo novo, por vergonha de admitir que desejarias apenas a permanência das coisas que um dia te deram de beber. Procuras poetas novos que te validem, mas eles apenas provam a tua insuficiência, mesmo agora que reencontraste os teus Sinais.
Podes convencer-te que este texto é apenas treino, e que portanto não faz mal que seja mau, podes andar pelas ruas da Cidade e encontrar até algo que te sossegue. Só não podes voltar a Casa.

Porque ela nunca foi tua
Porque ela se perdeu
Porque ela já não existe
Porque ela nunca existiu
Porque não a tens.

Lá fora chove cá dentro escrevo

Lisbon & books
© Inês C. | Maio 2016

Lá fora chove cá dentro leio

it's still raining, I'm still reading

© Inês C. | Maio 2016

Saturday, May 7, 2016

Lá fora chove

  Hoje fui ao médico. Estava no consultório quando começou a chover, e o cenário do lado de lá da janela emprestava definição ao lado de dentro, tornava as coisas e as conversas mais quentes e habitadas. Sempre gostei daqueles prédios antigos de tectos altos e cheios de frisos, das janelas compridas com vidraças e varandins, do ranger da madeira no soalho e nas escadas. Toda a casa parece viva e os sons, as madeiras a estalar e até as fissuras na tinta velha são como um respirar.
   Esta tarde, com a chuva lá fora a ressoar nos telhados da Sé, pareceu-me que os dois lados da janela se validavam um ao outro. Eu existi para ver a chuva cair, para revestir de dignidade as casas velhas, as árvores mudas e a calçada, para devolver poesia à rua um pouco triste. E a chuva caiu para que eu não me perdesse. O Outono desassossegou as pessoas na rua para que, no lado de dentro da casa, eu não perdesse o meu lugar interior e não perdesse a minha união com as coisas. Houve um espelho nas poças e nas gotas que caíam dos beirais onde os pombos se abrigavam, para que eu fosse clara como água e o mundo transparente ao meu olhar.
  Chamaram-me para ser atendida e quebrou-se o encantamento, mas a chuva ficou. E só quando parou é que me lembrei que não tinha guarda-chuva.



rainy days make me think of old buildings in old city streets
© Inês C. | Abril 2014