Thursday, February 13, 2020

Bicho Ruim

Se alguma dúvida houver de que o Bicho Ruim, de Cristina Fernandes e Rui Manuel Amaral, é o melhor blogue que por aí anda, leiam, por exemplo, a publicação de hoje, da Cristina. E depois leiam o resto.
(Podia falar da literatura, do entusiasmo com que partilham notas de leitura (de livros e do resto), dos escritores que conheci por causa deles, da ausência de pretensão, etc, etc. Mas vão lá e vejam por vocês.)

Wednesday, January 1, 2020

em sonhos chegar a lugares que depois incessantemente buscava

"O doge não me recebeu na grande praça
estava então em combate
num porto longínquo do oriente
que depois se perdeu

Senhor de mim aluguei um quarto
num hotel desconhecido
passei muitos dias
sem falar a ninguém
era uma sombra
e invadia a altas horas
as ruas estreitas do canal

Também me acontecia
adormecer numa gôndola
e em sonhos chegar a lugares
que depois incessantemente buscava
na laguna

Nesse inverno Leonardo
pintava com sucesso
na academia
mas não o procurei"

Foglio d'inverno | José Tolentino Mendonça



"Em sonhos chegar a lugares que depois incessantemente buscava" é um programa de vida.
Tolo, possivelmente inconsequente, e totalmente assumido.

Transumância

"Experimentei orações e avisos
nos mapas
mas já não havia um único lugar disponível
a barbárie crescera

Então nesse dia eu ardi a minha casa
e fugi de bicicleta"

O sacrifício (excerto) | José Tolentino Mendonça

Raízes

Volto sempre à terra e às minhas raízes. Há uns anos olhei para esta tendência com alguma desconfiança ("estás-te a repetir, tens obrigacação de procurar algo novo" etc). Hoje percebo novamente que isto é um privilégio, e que há coisas que não se esgotam. Que há sedes que não se esgotam, e que é nelas que se encontra a possibilidade de renovação e de surpresa. Ainda bem.

Terra

Dezembro 2019
Dezembro 2019

Monday, August 19, 2019

Dez anos

"I hold this to be the highest task of a bond between two people: that each should stand guard over the solitude of the other", diz Rilke. Foi assim que começou, e assim continua. Obrigada.

Saturday, June 8, 2019

Não é grave

Ando sem vontade de muitas coisas, desde a internet em geral à fotografia, para a qual não me sinto inspirada há bastante tempo. Como em quase tudo comigo, a minha fotografia tende a ser marcadamente dual: de um lado as fotografias que são como um diário, e que servem acima de tudo para tornar os meus dias um bocadinho mais acolhedores e para me sentir protegida pelas coisas que me fazem feliz: fotografo os livros que leio, os detalhes da minha casa, os meus passeios e viagens e as coisas que neles colecciono, momentos bons do meu dia-a-dia; do outro lado está a fotografia que é expressão de curiosidade e de dúvidas, e das narrativas que arranjo para tentar responder a tudo isso: são as casas abandonadas onde não devia entrar, e que são o mais perto que consigo estar de umas raízes que me estão sempre vedadas; são os reflexos e os espelhos, tentativa de lidar (sem cair lá para dentro) com a minha obsessão com a identidade; e é tudo o que me fale da incerteza, da procura e dos interstícios. As duas faces são bastante auto-contidas, mas eu preciso de ambas na mesma medida.
Acontece que ultimamente a primeira faceta perdeu sinceridade e naturalidade (viva o instagram, por mais que uma pessoa jure que não se deixa influenciar por essas coisas?), e a segunda anda desaparecida em combate. Tenho umas quantas ideias em relação à segunda (Ariadne; 52 semanas de auto-retratos com temas pré-estabelecidos (que até já seleccionei); a sempre adiada colecção em livro de-mim-para-mim ou em exposição (partindo do princípio bastante optimista de que alguém me quereria expôr) das minhas fotografias do Pergulho e da Casa do Forno); e na pouca paciência que de vez em quando lá vou arranjando para o instagram, tenho feito por mudar o foco da primeira faceta para a segunda, menos manipulável por vontades (ainda que inconscientes) de mostrar só o bonito. Além disso, deixei um pouco de lado o portfolio "bonito" que tinha no Carbonmade, e estou a tentar uma organização mais comedida, pensada e estruturada no Behance, e que sinto que foi até agora o melhor passo no caminho certo). Só que não me apetece, ou não tenho de momento espaço mental para mais. Nem tenho saudades de fotografar, e isso é novo e deixa-me um pouco triste. 
Não é o fim do mundo, não é reflexo de nenhuma tragédia pessoal. Mais que qualquer outra coisa, cada vez mais tenho a certeza de que a ideia do artista atormentado é das maiores patranhas que os últimos séculos nos impingiram. É que no fundo é fácil: quando se chega aos trinta e cinco sem conseguir passar de um trabalho de callcenter; quando as tentativas de não se deixar afogar nisso, procurando os círculos onde supostamente estariam os nossos pares, apenas mostram a incompetência e burocracia da academia e o pedantismo em circuito fechado da cultura, onde quase sempre só se entra por nascimento ou cunha; quando todos os dias há mais um amigo a ser comido pela falta de perspectivas e a finalmente desistir de sequer tentar - isso não dá uma alma a rebentar pelas costuras de inspiração e vontade de criar, dá é um cansaço muito grande.
E eu até faço parte do pequeno grupo das pessoas com sorte, porque ainda não desistiram completamente. E que sinta um nó no coração é bom sinal, porque a alternativa é a apatia, e eu sei que ela é mais perigosa que qualquer raiva. Acho que devia escrever, mas as coisas de que precisaria de falar são-me demasiado próximas e estão em carne viva, e não sei se tenho mãos que cheguem para as contar da maneira lúcida que gostaria, e conheço-me demasiado bem para não levar a sério a tendência para o sentimentalismo e para a auto-biografia que ameaça tudo o que escrevo com a mediocridade (desisti da poesia por isso, se a minha voz em prosa já é sentimental, na poesia é um verdadeiro desastre. E eu sei que para chegar a fazer bem é preciso fazer mal primeiro, mas não me digam que "mais vale fazer mal do que não fazer"; se a ideia do génio que cria sem qualquer treino é uma patranha, a ideia de que, para criar, ter talento ou não ter é igual, não me deixa muito mais sossegada).
"Assim como acabo um livro e algo fica por dizer, na vida dá-se a mesma coisa. Não é grave." dizia numa entrevista a Agustina. Um dia vou ter saudades da máquina ou da caneta e do caderno, e voltarei a criar, ou a deixar-me disso de vez; seja como for, não será grave.

Monday, June 3, 2019

Agustina (1922 - 2019)




"Eu não queria o êxito fácil, as opiniões, os favores, agasalho da tertúlia e o calor da insubordinação, dos injustiçados e dos paladinos da razão. Eu só queria escrever, entrar no coração das pessoas e beber-lhes o sangue, avançando sempre, criando enredos e fazendo saltar os personagens das páginas. Há pouca gente que perceba que escrever é uma espécie de danação em que às vezes se tem o encontro com Deus."

Agustina Bessa-Luís (citação na revista do Expresso, 24.03.2018)

Tuesday, May 7, 2019

Monday, April 22, 2019

Wednesday, April 17, 2019

Tuesday, April 16, 2019

Nublado

"Eu conheço-me apenas de vista, atenção. 
Sou uma pessoa que, se me vir na rua, 
atravesso para o outro lado."
Ricardo Araújo Pereira no Governo Sombra

Eu conheço-me apenas de vista
com a imprecisão de um reflexo
numa montra, com a perplexidade
de quem enfrenta um espelho hostil
numa noite de insónia.
Estranho-me a cada amigo
que se perdeu ou que perdi
a cada traço de alegria
a que renunciei
por cansaço ou sofreguidão
e mesmo nas fotografias mais felizes
em que mais quero acreditar
que ainda sou eu, não sei se sou
Sure enemies haunt you
with spit and derision
but friends are the ones
who can put you in exile
canta James Murphy
trovador do desencanto
que se lava em euforias tristes
e cada amigo que se perde
é um espelho com o qual
se quebrou uma aliança

São névoa e cacos
a minha obsessão com a biografia
a loucura com que acredito
que efabular-me
me pode salvar do mundo
do meu medo do mundo
Resta-me então a viagem
que talvez não chegue mas ajuda
e a generosidade inesperada
de quem me acena do outro lado do rio
à beira do qual todos esperamos
um sinal, um vento favorável,
ou simplesmente o som da água que corre
quando já desistimos de caminhar

Sozinha num comboio sento-me
de frente para a paisagem
até o meu rosto se fundir com o seu
e é aí que me reconheço
e nos meus olhos parece haver ainda
um rasgo do riso que nos libertou
do paraíso e da perfeição
Pouso na mesinha do comboio
a máquina fotográfica
a primeira caneta que o meu pai me deu
(ou que lhe roubei, e ele sorriu)
o pequeno desenho feito à mão
que alguém me ofereceu
E acredito que se me cruzar comigo
fotografando as ruas desta cidade antiga
talvez pense "eu conheço esta cara"
e lhe sorria, e isso chegue.


(Com um abraço para a Patrícia, claro.)