Os gatos (III)

Monday, April 22, 2019SilverTree
Setúbal | Abril 2008

Os gatos (II)

Monday, April 22, 2019SilverTree
Pergulho | Julho 2013

Os gatos (I)

Monday, April 22, 2019SilverTree
Setúbal | Outubro 2008

Interstícios

Wednesday, April 17, 2019SilverTree
Setúbal | Abril 2019

Nublado

Tuesday, April 16, 2019SilverTree
"Eu conheço-me apenas de vista, atenção. 
Sou uma pessoa que, se me vir na rua, atravesso para o outro lado."
Ricardo Araújo Pereira no Governo Sombra

Eu conheço-me apenas de vista
com a imprecisão de um reflexo
numa montra, com a perplexidade
de quem enfrenta um espelho hostil
numa noite de insónia.
Estranho-me a cada amigo
que se perdeu ou que perdi
a cada traço de alegria
a que renunciei
por cansaço ou sofreguidão
e mesmo nas minhas fotografias mais felizes
em que mais quero acreditar
que ainda sou eu, não sei se sou
Sure enemies haunt you
with spit and derision
but friends are the ones
who can put you in exile
canta o James Murphy
trovador do desencanto
que se lava em euforias tristes
e cada amigo que se perde
é um espelho com o qual
se quebrou uma aliança
São névoa e cacos
a minha obsessão com a biografia
a loucura com que acredito
que efabular-me
me pode salvar do mundo
do meu medo do mundo
Resta-me então a viagem
que talvez não chegue mas ajuda
e a generosidade inesperada
de quem me acena do outro lado do rio
à beira do qual todos esperamos
um sinal, um vento favorável,
ou simplesmente o som da água que corre
quando já desistimos de caminhar
Sozinha num comboio sento-me
de frente para a paisagem
até o meu rosto se fundir com o seu
e é aí que me reconheço
e nos meus olhos parece haver ainda
um rasgo do riso que nos libertou
do paraíso e da perfeição
Pouso na mesinha do comboio
a máquina fotográfica
a primeira caneta que o meu pai me deu
(ou que lhe roubei, e ele sorriu)
o pequeno desenho feito à mão
que alguém me ofereceu
E acredito que se me cruzar comigo
fotografando as ruas desta cidade antiga
talvez pense "eu conheço esta cara"
e lhe sorria, e isso chegue.


(Com um abraço para a Patrícia, claro.)

Auto-retratos

Monday, March 18, 2019SilverTree
Vieira da Silva (autorretrato, 1932) e uma tonta. 


Que mais poderia eu fazer numa exposição sobre o retrato português que não fingir que também sei jogar este jogo? Sim, podia calar-me, mas por mais adepta que seja do silêncio, vamos ser francos: este dia serviu muito para me lembrar que calar-me não é opção, que ainda não me rendi. Ainda agora reentrei nos labirintos de uma criação que não tenha medo da própria voz; só agora começo a descortinar um caminho em que talvez seja possível equilibrar a minha tendência para ensimesmar (sempre a autobiografia), com o recém-descoberto gosto de pegar naquilo que, no mundo, me deixa perplexa, e tentar escavar até ao osso. Joguemos, então.

Contra o medo do mundo

Sunday, March 17, 2019SilverTree
Não sei se posso dizer em boa justiça que seja tímida, mas sou extremamente reservada. Tenho medo do confronto e da exposição, e lido mal com a minha própria transparência (curiosamente esta é uma experiência que tenho repetidamente: metade do mundo diz-me que sou das pessoas mais fechadas e difíceis de ler que conhece, a outra metade maravilha-se com a minha transparência). No dia a dia isto leva-se, e não inibe a minha curiosidade, a minha sede de mundo; mas nas fases difíceis transforma-se com facilidade numa atitude defensiva, e isso quer dizer que por vezes preciso de um esforço consciente e constante para não hostilizar aquilo que é diferente e que, como tal, é sentido como potencialmente desestabilizante.
Nunca percebi a obsessão com o novo e o diferente, mas também sei que o desprezo pelo diferente - geralmente ancorado ou no medo ou na sobranceria - costuma ser uma via-rápida para a mesquinhez. E por isso dou graças por aquelas pessoas, momentos ou experiências que têm o condão de me dar vontade de pisar terreno desconhecido. Hoje aconteceu-me com mais um Tiny Desk Concert, de uma banda que pertence a uma família de géneros musicais / estilos / estéticas para a qual geralmente tenho pouca paciência, e que acabo por desconsiderar com facilidade. Mas há coisas que são contagiantes e que vão directas ao coração. Quando acabei de ver os Tank and the Bangas, não estava só consideravelmente mais feliz, mas também um bocadinho mais crente na existência de pessoas com o condão - e a vontade - de espalhar felicidade. E isso é um grande antídoto contra o medo do mundo.



Identidade (III)

Monday, March 11, 2019SilverTree
"O estereótipo anestesia a nossa percepção, mas não de um modo frio e desapaixonado. Pelo contrário: quase nada nos produz mais gozo e inflamação do que repetir estereótipos. Reproduzimo-los como se afirmássemos o mais íntimo, o mais profundo ou o mais autêntico do nosso ser. Eles emocionam-nos, inflamam-nos, levam-nos às lágrimas. Há uma verdadeira paixão da repetição, da confirmação, da mimesis, da adesão. É o gozo do reconhecimento e da identidade."
Dar a ver, dar que pensar: contra o domínio do automático | Amador Fernández-Savater (via Bicho Ruim)

Uma nota para mim mesma, para não me levar demasiado a sério nisto, ou nisto.

Identidade (II)

Monday, March 11, 2019SilverTree
"Os códigos nem sempre são conscientes, mas funcionam através de nós: somos vistos, pensados e actuados por eles. Eles implementam-se automaticamente onde não há um trabalho de elaboração própria."

Dar a ver, dar que pensar: contra o domínio do automático | Amador Fernández-Savater (via Bicho Ruim)

"A máscara é o mundo que nos rodeia"

Tuesday, March 5, 2019SilverTree
© Teresa Pacheco Miranda | Público


A máscara "existe em todo o lado do mundo". Mas nesta zona do país as máscaras são descaradas, ajudam a revelar barreiras de comunicação com o Litoral, esse privilegiado. "Os caminhos vão afunilando", explica. "Para entrar em Lisboa temos cinco ou seis auto-estradas, com várias faixas em cada uma. E depois os caminhos vão estreitando, estreitando, estreitando até que aqui chegamos. Aqui há alcatrão desde que se fizeram as barragens. Antes havia caminhos de terra batida para burros."
Carlos Ferreira, guardião das máscaras de Sendim: "A máscara é o mundo que nos rodeia" (Público | 05.03.2019)

Ariadne (II)

Sunday, March 3, 2019SilverTree

Esboços (2018)

Identidade

Sunday, March 3, 2019SilverTree

2018


Sinto um certo desconforto ao olhar para estas imagens, porque ao mesmo tempo que são mais do mesmo (a minha antiga e persistente incapacidade de me desdobrar), também não sei até que ponto ainda me reconheço nelas - não sei, na verdade, se me reconheci nelas sequer no momento em que as tirei. Provavelmente sim, e distorço a minha memória dessa noite à luz desta espécie de desfoque, de indefinição, em que me sinto hoje. (E como não sei caminhar a direito, procuro um foco através das minhas máscaras.)

à espera

Sunday, February 3, 2019SilverTree
Fala-se muito nos católicos, mas a ideia de que o corpo é a pior parte de nós, suja e inferior, é transversal, com mais ou menos nuances, a boa parte das religiões. São todas cegas, quando não vêem que o maior mal do corpo não é o vício, o excesso, a tendência para nos perdermos por ele, mas a sua fragilidade de casca de ovo: o facto absurdo e inevitável de que o veículo do nosso milagre e da nossa alegria se pode desfazer com um sopro.
Neste momento aguardamos um diagnóstico nos diga se escapamos à palavra de seis letras que é uma das maldições da família, reunidos à volta de alguém que ainda me é mais querido do que era (e era tanto!) quem esteve na origem da melhor coisa que já fiz, em termos académicos. Foi um trabalho para Bioética, chamado "Esperança e Realismo em Doenças Terminais", e chorei quando acabei de o escrever. Tenho dado por mim a rondá-lo, mas sem coragem de o reler, não sei à procura de quê, e a pensar que a vida nos devia deixar pôr uma redoma à volta de certas pessoas. Entretanto esperamos, e penso que há esperas a que nunca nos habituamos, por mais vezes que sejam repetidas.

Olhares

Monday, January 28, 2019SilverTree

Artur Pastor (Série “De volta à cidade de Lisboa”. Alfama, décadas de 50/70), visto aqui.

Olhares

Monday, January 28, 2019SilverTree

George Shiras III, National Geographic, July 1906

Mesmo na ruína

Monday, January 28, 2019SilverTree


Não é a primeira vez que o digo, mas repito: o que me atrai não é um voyeurismo das ruínas; são os vestígios de vida, a luz sempre incomparável destes lugares, e a ideia de achar tesouros onde outros talvez só vejam ruínas e lixo; neste sentido são também uma forma de auto-retrato, porque são efabulações, obstinação em ver (criar?) mais do que talvez lá esteja realmente, e em ser agente dessa criação. E são pequenas epifanias pessoais, momentos de alívio e triunfo silencioso mas radiante, em cada porta finalmente aberta, cada nova sala descoberta depois de um lanço de escadas podre, em cada imagem que me prova que o fio de significado ainda não se quebrou, e que é possível segui-lo mesmo pelo meio da ruína.

Mary Oliver (1935-2019)

Friday, January 25, 2019SilverTree
Every year
the lilies
are so perfect
I can hardly believe

their lapped light crowding
the black,
mid-summer ponds.
Nobody could count all of them --

the muskrats swimming
among the pads and the grasses
can reach out
their muscular arms and touch

only so many, they are that
rife and wild.
But what in this world
is perfect?

I bend closer and see
how this one is clearly lopsided --
and that one wears an orange blight --
and this one is a glossy cheek

half nibbled away --
and that one is a slumped purse
full of its own
unstoppable decay.

Still, what I want in my life
is to be willing
to be dazzled -
to cast aside the weight of facts

and maybe even
to float a little
above this difficult world.
I want to believe I am looking

into the white fire of a great mystery.
I want to believe that the imperfections are nothing -
that the light is everything - that it is more than the sum
of each flawed blossom rising and fading. And I do.

The Ponds (itálicos meus)

Mary Oliver (1935-2019)

Friday, January 25, 2019SilverTree
Look, the trees
are turning
their own bodies
into pillars

of light,
are giving off the rich
fragrance of cinnamon
and fulfillment,

the long tapers
of cattails
are bursting and floating away over
the blue shoulders

of the ponds,
and every pond,
no matter what its
name is, is

nameless now.
Every year
everything
I have ever learned

in my lifetime
leads back to this: the fires
and the black river of loss
whose other side

is salvation,
whose meaning
none of us will ever know.
To live in this world

you must be able
to do three things:
to love what is mortal;
to hold it

against your bones knowing
your own life depends on it;
and, when the time comes to let it
go,
to let it go.

In Blackwater Woods

Mary Oliver (1935-2019)

Friday, January 25, 2019SilverTree

Ordinarily, I go to the woods alone, with not a single
friend, for they are all smilers and talkers and therefore
unsuitable.

I don’t really want to be witnessed talking to the catbirds
or hugging the old black oak tree. I have my way of
praying, as you no doubt have yours.

Besides, when I am alone I can become invisible. I can sit
on the top of a dune as motionless as an uprise of weeds,
until the foxes run by unconcerned. I can hear the almost
unhearable sound of the roses singing.

If you have ever gone to the woods with me, I must love
you very much.

How I go to the woods

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