Quase

Thursday, October 19, 2017SilverTree

"Havia algo perverso na desigualdade, eu agora sabia-o. Agia em profundidade, penetrava para além do dinheiro. A caixa das duas charcutarias, a da fábrica de sapatos ou a da sapataria, não eram o suficiente para esconder a nossa origem. A própria Lila, mesmo que tirasse da gaveta mais dinheiro do que costumava tirar, mesmo que tirasse milhões, trinta, ou cinquenta, nunca lá chegaria. Eu apercebera-me disso e finalmente havia uma coisa que sabia melhor do que ela; aprendera-a, não naquelas ruas, mas ao pé da escola, olhando para a rapariga que ia esperar Nino. Ela era superior a nós, por natureza, sem querer sê-lo. E isso era insuportável."

"De repente dei-me conta daquele quase. Conseguiria? Quase. Livrara-me de Nápoles, do bairro? Quase. Tinha amigas e amigos novos, que provinham de ambientes cultos, muitas vezes bastante mais cultos do que aquele a que pertenciam a professora Galiani e os filhos? Quase. De exame para exame tornara-me uma aluna bem aceite pelos professores atentos que me interrogavam? Quase. Pareceu-me ver o que se passava por trás do quase. Tinha medo. Tinha medo como no primeiro dia em que chegara a Pisa. Temia aqueles que sabiam ser cultos sem o quase, com desenvoltura.
Na Normal eram muitos. Não se tratava apenas de alunos que passavam nos exames de forma brilhante, latim, grego ou história. Eram jovens (...) que se distinguiam porque sabiam sem esforço aparente qual o uso presente e futuro da sua tarefa de estudar. Conheciam-no devido a origens familiares ou graças a uma orientação instintiva que possuíam."

História do Novo Nome (A Amiga Genial, Segundo Volume), Elena Ferrante


Aguardo os próximos capítulos para descobrir se a sensação alguma vez se desvanece.

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