sexta-feira, 16 de setembro de 2016

Quinze Dias no Japão, de João Bénard da Costa (1979)

"Mas porque, precisamente, estas platónicas noções - as de modelo e cópia - se não inserem na tradição nipónica em que tudo é uma e outra coisa. (...) Este espírito, obediente a um princípio constante na cultura japonesa, tem porventura a sua mais genial expressão no santuário xintoísta de Isé. Pode dizer-se que ele é a mais antiga estrutura do Japão (remonta ao século I a. C.) e a mais recente, pois a que lá vemos foi edificada em 1973. Como? Adiantando sobre o que direi de Isé, no último desta série de artigos, observarei que, ao longo destes quase dois mil anos, o santuário foi invariavelmente destruído de 20 em 20 anos, para que, em face do templo demolido, se reconstruísse um outro, idêntico e imutável. Por forma que seja impossível, pelos nossos critérios historicistas, afirmar se Isé tem seis anos ou dois mil. Como é impossível dizer se o Palácio Imperial de Quioto tem 100 ou 1200 anos, ou se o Pavilhão de Ouro tem 20 ou 600."
"Tudo coexiste em camadas, como parece que sucede, para as eras mais remotas, nos estratos descobertos pelas escavações dos arqueólogos. Só que as camadas se não sobrepõem: entrelaçam-se."


Edição d'O Independente, de uma das típicas colecções de "livros de Verão" dos jornais. Infelizmente tem tantas gralhas e uma edição tão pouco cuidada que chega a dificultar a leitura. Só que nada disso anula o prazer que é ler acerca de um país tão diferente e que ainda hoje nos causa, a nós ocidentais, tantas perplexidades (imagine-se em 1979), num conjunto de textos de temas bem escolhidos, tratados com cuidado e propósito, por uma voz atenta, sensível, culta, de pensamento profundo e límpido como me pareceu ser a de João Bernárd da Costa.

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